Artigo: 'Quem fica com os cachorros na separação de Grazi e Cauã?'

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Cães começam a ultrapassar o limite de serem pets, estão sendo vistos como elementos da família, como filhos

Nem tudo é ruim na separação de Grazi e Cauã. Ao menos uma coisa está indo bem: um não está empurrando para o outro os cachorros, mas, ao contrário, casal está em disputa, ambos querem os bichos.

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Cauã e Grazi

Como nós, humanos, chegamos a esse estágio civilizatório, em que queremos levar conosco os cachorros e, como justificação, alegamos não questões egoístas, mas o interesse dos próprios cachorros? Ao menos foi isso que Cauã disse: ele argumentou que os cachorros tem mais afinidade com ele.

Faz tempo que vivemos apegados aos cachorros, ainda que muitos deles estejam nas ruas, sofrendo, e outros em laboratórios, praticamente no inferno. Mas, se compararmos com o passado, veremos que demos passos incríveis na consciência do que hoje chamamos de “direitos dos animais” - direitos que, inclusive, já fazem parte de nossa legislação, embora algumas pessoas, e até mesmo universidades, queiram desrespeitar.

Destino dos cachorros é um dos impasses na separação de Grazi e Cauã

Como que saímos de uma consciência quase zero para o que temos hoje?

A concepção bíblica nos faz diferentes dos animais. Somos criaturas de Deus, porém nós nos parecemos com o Criador e os animais não. Além disso, a Bíblia também diz que o homem deve comandar a Terra e, nesse trabalho, cuidar dos animais, mas pode submetê-los ao seu desígnio - e eis aí a brecha para a desgraça.

A concepção filosófica helenista que se associou à concepção bíblica falou algo um pouco diferente quanto ao domínio dos animais. Todavia, não se cansou de insistir na nossa diferença, na nossa superioridade e, a partir daí, procurou legitimar a utilização dos animais.

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Pela via judaico-cristã ou pela via greco-romana não tivemos razão para nos ver como sendo próximos dos animais. Intuíamos que éramos muito próximos, mas, quanto mais isso nos parecia verdade mais os nossos textos tentavam mostrar nossas diferenças.

Assim, durante muitos séculos, o nosso cuidado com os animais ou, mais exatamente, com os cães, se desenvolveu única exclusivamente por meio dos nossos sentimentos. Nunca tivemos de maneira forte, em nossa tradição cultural no Ocidente, qualquer corrente de pensamento com alguma capacidade de dar suporte à preocupação com animais, mesmo com os adorados cães, que não fosse da ordem do coração.

Isso só começou a mudar muito recentemente. Os responsáveis pelas mudanças foram Darwin e o seu evolucionismo, depois as pesquisas arqueológicas e, então, a teoria evolucionista comprovada por genética. Paulatinamente, toda a filosofia e a religião tiveram de se render aos novos tempos, às conquistas do evolucionismo. Entre o final do século XIX e início do XX já não cultivávamos uma filosofia e uma ciência que não tivesse sido remodelada pelo evolucionismo. Definitivamente nossa semelhança com Deus havia caído para segundo plano diante de nossa semelhança com o que chamávamos de seres brutos. Tornamo-nos muito mais parentes do carrapato do que do pai de Jesus ou do logos de Heráclito.

Assim, foi pelas mãos da ciência que tomamos pé para, então, começarmos a cultivar a “consciência ecológica” e a consciência dos “direitos dos animais”. Essa consciência avançou muito no Ocidente e, nos últimos trinta anos fez progressos fantásticos no Brasil. Nossa legislação ocidental proíbe a crueldade com os animais segundo leis variadas. Em outras palavras: é tola aquela pessoa que vem nos dizer que quer testes em laboratório com animais e que os protetores dos animais estão emperrando o caminho científico. A pessoa que diz isso não sabe o que é ciência e tecnologia e muito menos o que é animal. Aliás, quem diz isso, não sabe nada. Não sabe que foi a ciência, exatamente ela, que trouxe para o campo de proteção dos animais uma consciência intelectual mais ampliada, ainda que a energia dos ativistas possa, como tudo na vida, continuar a ser alimentada pelo coração.

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Na atual fase em que vivemos, já estamos prontos para ouvir declarações como a de Cauã, que já não são da primeira fase da proteção aos animais, e sim de uma consciência avançada. Ele não jogou seu desejo de cuidar dos cães por razões próprias, mas por causa dos cães. Ele se colocou no lugar dos cães. Os cães ficariam mais contentes com ele, por razões de proximidade, de afeição. Não se trata mais de simples responsabilidade para com os bichos. É uma responsabilidade com algum nível de empatia com reciprocidade.

Duvido que esse tipo de gente, como o Cauã, tenha aparecido à toa, justamente agora. Apareceu porque estamos vivendo em um clima em que não é mais tolice falarmos em “direitos dos animais”, então, mesmo sem perceber como estamos agindo, já estamos agindo, ao menos com os cães, segundo uma ótica que não faz deles objetos.

Assim, ao menos os cães já começam a ultrapassar o limite de serem pets que gostamos muito. Eles estão deixando de serem pets. Eles estão sendo vistos como elementos da família, como filhos. Ora, em separações, bons pais não querem ficar com os filhos por causas próprias, procuram ouvi-los e entender onde eles se sentiriam melhor.

Para ativistas tudo isso tem uma determinada importância. Para o filósofo, além da importância da melhoria moral, tem também a questão de trabalharmos sempre com a investigação dos estágios de consciência social. E, nesse campo, posso dizer que li várias boas notícias esses dias. Vi na Folha de S. Paulo artigos bem positivos de Jaime Spitzcovsky e de Marcelo Leite. No entanto, a fala de Cauã coroou essa minha leitura. Nem sempre quando lemos jornais ficamos tristes.

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Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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