Artigo: Demétrio Magnoli morde ombudsman da Folha - é necessário a antirrábica?

Por Paulo Ghiraldelli - Especial para o iG |

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Suzana Singer rotulou o colunista Reinaldo Azevedo de "rottweiler feroz" para, na sequência, solicitar candidamente um "bom nível de conversa"

O jornalismo brasileiro está politizado demais e, a meu ver, de um modo pouco útil. Essa politização joga para escanteio o jornalismo cultural, acostuma o público a uma linguagem maniqueísta e à retórica da projeção: a direita desvela o que a esquerda faz de errado, mostrando um conteúdo que nada é senão o que a própria direita faz, e vice-versa. Um exemplo claro disso é a questão levantada por Demétrio Magnoli contra a ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Suzana Singer.

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Magnoli começa explicando que o PT criou uma entidade, com identidade falsa, que se serpenteia pela Internet dando combate às ideias que lhe são contrárias, utilizando-se de rótulos e fórmulas que evitam e/ou castram a discussão. Até aí, tudo bem. Nada de novo nessa informação. Desde quando o mundo é mundo isso acontece nos meios de comunicação. Sabemos como isso funciona.

É fácil ver na internet alguns militantes pagos repetindo jargões de modo a tentar arrebanhar militantes não pagos, mas sugestionáveis. Também não é segredo para ninguém que o PT mantém, a preço de ouro, alguns jornalistas, que devem se passar como independentes ao público. Eles são os que dão o norte para que a onda de jargões do partido volte a ter energia nas mãos dos militantes virtuais pagos que, por sua vez, tentam repassar essa energização para os fanáticos não pagos.

Magnoli aponta esse mecanismo para, em seguida, fazer acusações contra Suzana Singer. Cito suas palavras:

Suzana Singer seguiu a cartilha do Pensador Coletivo ao rotular o colunista Reinaldo Azevedo como um "rottweiler feroz" para, na sequência, solicitar candidamente um "bom nível de conversa". Nesse passo, trocou a função de ombudsman da Folha pela de Censora de Opinião. Contudo, ela não pertence ao MAV. Os procedimentos do Pensador Coletivo estão disponíveis nas latas de lixo de nossa vida pública: mimetizá-los é, apenas, uma questão de gosto. (Folha, 02/11/2013)

“Pensador Coletivo” e “Mav” são os nomes que, na terminologia de Magnoli, cobrem as atividades que todos nós sabemos que funcionam na internet em favor do PT. Ele faz questão de dizer que Suzana Singer não é desse time, mas a ofende de modo até pior, pois a qualifica como uma jornalista que teria escorregado e, talvez acriticamente, a retórica dessas entidades petistas, funcionando como censora. Ao falar de Reinaldo de Azevedo como um 'rottweiler feroz', Suzana estaria ganha pela prática dos militantes do PT, a de rotular de modo a diminuir o valor do conteúdo dos textos de um autor. Ela mimetizaria a retórica petista por uma “questão de gosto”.

Eis aí o problema: ao denunciar Suzana Singer como alguém que rotula autores, Magnoli, antes de tudo, claramente a rotula. Não a rotula como uma jornalista marrom, mas como alguém que estaria já ganha pela lógica do jornalismo marrom alimentado pelo PT.

Ora, chamar Reinaldo de Azevedo de um “rottweiller feroz”, que atua contra o PT, não me parece ofensivo ou rótulo. Isso não é rótulo. Seria rótulo, talvez, se Azevedo negasse o faz, mas ele não nega. Os livros de Azevedo dizem da sua postura já na capa: ele se põe como um paladino da justiça contra o que ele chama de “petralhas”, ou seja, a esquerda toda que, na conta dele, nada seria senão os irmãos bandidos que vivem para tirar o dinheiro do ricaço muquirana Patinhas. Não me parece que Azevedo, que é franzino até, não tenha sido elogiado ao ser comparado ao “rottweiler feroz”.

Ele, Azevedo, é um jornalista agressivo, e diz que é. Ele se posiciona em uma linha conservadora, à direita, e assume isso. Ele não vê mal nisso. Por que veria? Tudo que vem da esquerda, tudo mesmo, para ele, não presta. Não há ninguém na imprensa brasileira que faz uma oposição tão monolítica e aguerrida quanto ele às esquerdas e ao PT. Desse modo, no vocabulário da semana em que Suzana escreveu, onde o assunto do dia era cachorro (invasão do Instituto Royal), ela não podia chama-lo de beagle, por exemplo. Beagle é o cachorrinho do Charlie Brown. É um cachorro que jamais se dedicaria a escrever outras coisas que não contos delicados e poemas de amor. Snoopy não gastaria um minuto da sua vida preciosa com o PT. Só quem tem muito tempo para jogar fora é que faz isso. Ou então, quem se qualifica como um tipo de vingador solitário, que me parece ser o caso do jornalista Reinaldo de Azevedo. Ele não tem outra atividade que não a de escrever contra o PT e contra as esquerdas em geral. Acredito que veio à cabeça de Suzana o cão determinado e potente. Ela não usou um apelido político, que viesse a marcar Reinaldo, ela usou uma metáfora do momento. Bom jornalismo!

Assim, Suzana não se alinhou ao PT. Outros leitores da Folha, não petistas (ao contrário), falaram o mesmo que ela no Twitter e Facebook. Muitos leitores gostaram da ombudsman ter tido a coragem de mostrar ao jornal que a opção de trazer um colunista tão marcado quanto Reinaldo, foi uma opção que daria aos olhos do público uma determinada imagem para a Folha. Ora, se um ombudsman não faz isso, então, para que serve um ombudsman?

Agora, o modo como Magnoli fez sua acusação, aí sim me parece rotulação. Ele criou um carimbo sobre Susana Singer. O que ele disse, na prática, é o seguinte: tudo que essa moça falar, daqui para diante, corre o risco de ser repetição acrítica do que os órgãos petistas já falaram ou vão falar. A rotulação mais forte, nitidamente, é a de Magnoli sobre Suzana, e não de Suzana sobre Reinaldo de Azevedo.

A retórica de Magnoli parece ser exatamente aquela que ele denuncia como vinda do PT. Aliás, em outros textos dele, já vi essa prática. Não raro, ele não leva em consideração os argumentos dos textos que critica, mas, antes, ele rotula invertendo setas. Só que desta vez, isso ficou muito nítido, e desnecessariamente ofensivo.

Talvez esse tipo de polêmica interna venda algum jornal. Mas, a essa altura do campeonato, depois de tantas outras polêmicas de gente que não gostou de um ombudsman, não creio que isso vá trazer grandes novidades. Serve, no entanto, para que a universidade, principalmente nos cursos de jornalismo e similares, possa trabalhar com o tema da projeção. Serve para nós percebermos, também, que Magnoli estreou na Folha um pouco medroso e reativo, ou seja, tentando logo de cara calar o ombudsman. Boa tática para começar? Para quem quer sucesso a qualquer preço, talvez. Mas, eticamente, isso é condizente com o bom jornalismo?

A garotada que está querendo aprender o ofício de jornalista ou de colunista tem aí um prato cheio para o debate.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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