Artigo: As ninfomaníacas soltas por aí - você as conhece?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Mais um clip do filme "Ninfomaníaca" e será o suficiente para eu não ir ver quando estrear no Brasil. Ou melhor, digo já: não verei. Já enjoou.

Que nós tenhamos tornado o sexo a coisa mais chata do mundo até para gente como eu, que gosta de sexo, não é culpa da “superexposição”. Quem diz que é, dá uma explicação banal.

Reprodução
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No estágio atual da vida contemporânea, se há algo que parece demais, essa extrema visibilidade não necessariamente é a responsável por tornar um tédio até mesmo uma ninfomaníaca gostosinha.

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O marasmo que me apanha não vem da exposição do sexo até empanturrar um Homer Simpson. O que me faz ficar sonolento diante de tudo isso é saber que essa propaganda do filme, que muito tem a ver com o estilo do filme, vai dar certo. O cansativo é saber que muita gente irá ver o filme e que, após isso, logo se estará anunciando outra coisa igual e depois mais uma igual e assim por diante.

Mais: Vale a pena lembrar Nietzsche e Marx para entender isso

Vivemos na sociedade do tudo igual. Ou melhor, vivemos na sociedade em que o sinal de igual, que permite que alguma coisa seja trocada pela outra, é um sinal tão ou mais importante que a cruz ou a estrela. A equivalência é nossa religião e nosso pecado.

Vale a pena lembrar Nietzsche e Marx para entender isso.

No final do século XIX, quando a modernidade já havia dado todos os seus frutos, anunciando que o que viria dali em diante nada seria senão o que vivemos hoje, que é a repetição daqueles tempos por outros meios tecnológicos, Nietzsche formulou a sua incrível filosofia da história. Ele falou da história como um desdobramento do niilismo, isto é, a ampliação da “desvalorização de todos os valores”. Nietzsche não fez nenhuma análise econômica. Mas, caso ele tivesse lido Marx, duvido que a sua filosofia da história fosse recauchutada. Creio que ele veria os produtos se transformando em mercadorias e, então, ganhando valor de troca para transitarem, como equivalentes, por meio de dinheiro, como uma descrição coadjuvante daquela proposta pela sua filosofia da história. Quando tudo vale dinheiro, ou seja, algo universal e sem rosto, então todas as coisas já não valem nada. Tudo vale para não ser usufruído, e sim só trocado, portanto, nada vale. Ora, quando mais de cem anos depois de Nietzsche e Marx terem traçado esse retrato da modernidade, alguém aparece com a cara de pau para fazer um filme com o mote “forget about love”, para que possamos completar dizendo, “é sobre sexo”, é porque realmente nada vale nada. Estamos na mais profunda superficialidade da vida.

Não estou falando que amor é importante e sexo é o corriqueiro, banal e sujo uso do corpo. Nada disso. Aliás, nem é essa a questão, pois o filme não deixa de falar do amor. Estou dizendo que amor erótico tem rosto e sexo não. Portanto, se é o sexo que importa, mesmo que só para chamar a atenção, então estamos diante do que é abstrato, como o valor da mercadoria no mercado, e como aquilo que permite a troca de equivalentes, o dinheiro. No mundo em que o valor é algo que nada valora, ou seja, que apenas serve para o trânsito das mercadorias, estamos exatamente dentro da filosofia da história de Nietzsche. Avançamos pelo niilismo, a “desvalorização de todos os valores”.

Bem, nesse caso, posso ter ereções com o filme em questão, mas emoções eu garanto que não terei. Mesmo que o filme seja emocionante, agora é que eu não terei nenhuma emoção mesmo.

Exatamente por isso, por conta dos produtores saberem que não terei emoções, por eles saberem na própria pele que vivemos da repetição do valor desvalorizado, é que eles optaram pelo massacrante sistema de anunciar o filme por clips, mês a mês, tornando-o algo esperado não pelo mérito, mas pela própria repetição. A repetição do que nada vale é exatamente o modo pelo qual se dá o adestramento. Somos adestrados para receber e ver o filme. Somos treinados para o tédio de modo a executar com euforia o nosso tédio!

Vamos continuar falando da Ninfomaníaca mais e mais e mais. O filme não vem, nem precisa vir, já passou. Mas ele virá. Ele virá!

O que me provoca o tédio é saber que muitos estarão como eu, enfarados, no entanto, diferentes de mim, irão ver o filme. Quem são essas pessoas? São aqueles que imaginam que conseguirão, com a penúltima ereção, ter a última emoção.

Mais chato ainda é saber que alguns discutirão o filme! Ora, pela forma como o filme está chegando, tudo mostra que ele não pode ser outra coisa além do que é: mais um produto que, se transformando em mercadoria, não será usufruído, mas apenas trocado por dinheiro, pelo sem rosto, depois trocado novamente e assim sucessivamente. Só que, nesse caso, há algo curioso: essa sua embalagem também é o seu conteúdo. Eu explico.

O que uma ninfomaníaca faz é exatamente isso: troca corpos sem que eles possam ser usufruídos. Ela goza, mas imediatamente precisa gozar de novo. Os gozos se tornam equivalentes. É como se fossem mercadorias que são trocadas pelo elemento abstrato, que as torna equivalentes, o dinheiro. Desse modo, os produtores do filme parecem estar nos tratando como idiotas, e somos mesmo idiotas. Ele, o produtor, está dizendo: vou lhes vender algo que vocês não precisam e, no entanto, vocês consumirão ávidos. E o que vou lhes vender é a história de vocês mesmos, ou seja, de gente que vai trocando tudo sem ficar com nada, sem usufruir alguma coisa. Desse modo, o enredo é a história da ninfomaníaca que é, por sua vez, o enredo de todas as histórias modernas. É também, claro, a história de cada um enquanto aquele que tem como único serviço passar o dinheiro adiante e pegar uma mercadoria e trocar essa mercadoria por dinheiro e assim por diante. O cotidiano da ninfomaníaca trocando corpos é o cotidiano nosso trocando equivalentes no mercado. Todos sob o sinal de igual, como disso, mais importante que a cruz ou a estrela.

Não verei o filme, pois ele apenas conta aquilo que já sei e que os nossos tempos quer que eu viva: que eu seja a ninfomaníaca de tudo, não só do sexo. Que eu passe de coisa em coisa rapidamente, trocando, trocando, trocando, trocando ... e isso é o tédio. O tédio de ter dinheiro, de até poder consumir, sem usufruir.

Um aviso: terça-feira retomamos o talk show de filosofia, o Hora da Coruja, 22hs, ao vivo na FLIX TV.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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