Faz tempo que a ditadura militar acabou, mas mentalidade "estúpida" dos coronéis continua vigente, diz filósofo

Estávamos em plena ditadura militar. Havia greve para todo lado, principalmente no meio rural. Os canavieiros estavam parados. Um amigo meu, então tenente e aluno de Letras da universidade pública, foi chamado para integrar um batalhão de repressão aos que, segundo documento oficial, estavam “infiltrados” entre os canavieiros para incitar movimentos de protesto, piquetes etc. Ele pediu licença para sair da aula e foi embora. Foi para o serviço.

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Chegando lá, esse meu amigo tenente escutou a retórica do oficial superior, que exigia uma repressão “exemplar” aos canavieiros. Vendo que as coisas iam tomar um rumo ruim, esse meu amigo chegou perto do superior e disse, “olha capitão, não adianta a gente fazer isso, logo a coisa acaba por ela mesma, trata-se de um ciclo - todo ano, nessa mesma época, acontecem esses movimentos, pois é a época de negociação salarial, é só ficarmos por aqui mesmo e deixar passar a semana”.

O capitão afastou um pouco a cabeça para fitar esse tenente meu amigo, virou o olho para um lado e para o outro, e então chegou mais perto e perguntou: “mas como você me garante isso?”. Meu amigo retrucou: “olha, o senhor sabe que eu estudo lá na universidade, e lá tem uma socióloga que fez um trabalho mostrando os ciclos de greve, todo ano nessa época é a mesma coisa, e depois passa sozinho tudo isso, quanto menos interferirmos, melhor”.

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O oficial chefe arregalou os olhos, colocou a mão no ombro do tenente e disse em voz baixa, mas firme e resoluta: “quer dizer que há uma mulher aí, aqui perto, que sabia que essa bagunça toda ia ocorrer no canavial e, no entanto, ela não nos avisou? Tenente, essa mulher é uma subversiva! A obrigação dela como cidadã era vir aqui nos informar! Pegue o cabo Silvino e vá imediatamente prender essa mulher!”.

Faz tempo que a ditadura militar acabou. Mas a mentalidade estúpida e ao mesmo tempo engraçada desse coronel continua vigente. Só que com filósofos ocorre algo um pouco modificado do que ocorre com sociólogos. Com eles, os energúmenos cobram as previsões, conosco eles cobram avaliações! Uma palavrinha tentando mostrar a positividade do ativismo, por conta do questionamento social que levanta ou pela discussão ética que fomenta, e somos vistos como dando aval ao ativismo em questão. Ficam raivosos, e então tratam de aspar o nosso título: “filósofo”.

A nossa sociedade está assim: todo mundo inventou agora de achar que para ser inteligente precisa ser de direita ou de esquerda, e chama de filósofo aquele que fala o que se quer ouvir. Quando esse filósofo fala aquilo que não se quer ouvir, ele vira imediatamente “filósofo”.

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O coronel da ditadura militar exercia sua estupidez prendendo na cadeia. O estúpido politizado de agora prende por meio de aspas. Melhorou para nós, mas em termos de evolução mental, estamos diante de coronéis sem farda.

Uma parte desse comportamento se deve à escolarização baixa e ruim do brasileiro que, agora, com um pouco a mais de dinheiro no bolso e com Internet, se relaciona com pessoas com certa cultura, pessoas com quem seus pais ou irmãos mais velhos não se relacionaram. Esse pessoal vê alguns intelectuais dando opinião avaliativa em tudo, por conta de participação na mídia, e então imagina que ser intelectual é isso, é ter opinião para tudo, é tudo avaliar condenando ou aprovando. E dessa maneira, sem a mediação do livro, do professor, da disciplina das provas e sem a confraria especializada que fomenta o diálogo filosófico, acredita que está integrado no meio intelectual, e que pode colocar aspas em filósofo do mesmo modo que o coronel punha sociólogo na cadeia. São os novos bárbaros. Eles não estão chegando, eles já chegaram e estão imperando.

O pior de tudo não são eles, mas são aqueles entre nós que ficaram encantados consigo mesmos por ter público cativo e, então, pararam de fazer o trabalho questionador da filosofia. Pararam de fomentar utopias, e agora se dedicam a ampliar a mediocridade de seus leitores, ávidos por frases bombásticas que aprovem o que já fazem e o que já pensam e gostam.

***

Agradeço os que foram no lançamento do livro "A Nova Filosofia da Educação" (Editora Manole), escrito junto com minha parceira Susana de Castro, filósofa da UFRJ. O livro está nas livrarias, especialmente na Martins Fontes.

A próxima atividade é na Casa do Saber, vejam lá o nosso curso e reservem vaga agora.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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