Ao custo de R$ 30 bilhões por ano, 120 milhões de cobaias são mortas para fins de pesquisa anualmente

Quando se discute se a pesquisa com animais é necessária para o avanço das ciência, professores, estudantes e pesquisadores normalmente são defensores da causa. Mas também existem aqueles que são contrários ao uso animal e que defendem a tese de que as universidades e laboratórios brasileiros estão ultrapassados. Para alguns, chegou a hora de investir em métodos alternativos ao uso de cobaias na ciência.

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Cerca de cem ativistas de diversas ONGs que cuidam de animais libertaram mais de 150 cachorros de instituto de pesquisa em São Roque (SP)
Edison Temoteo/Futura Press
Cerca de cem ativistas de diversas ONGs que cuidam de animais libertaram mais de 150 cachorros de instituto de pesquisa em São Roque (SP)

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De acordo com pesquisa do norte-americano Thomas Hartung, a indústria gasta por ano cerca de R$ 30 bilhões em pesquisas com animais no mundo. Ao todo, 120 milhões de cobaias são mortas anualmente, segundo outro cientista americano, Dale Bauman. “São 200 cadáveres por segundo”, contabiliza o professor de biologia da Universidade Federal de Alfenas, Thales Tréz. “Ratos e camundongos são 80% a 90% disso. Anfíbios, aves e cães formam o restante.”

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Para o pesquisador brasileiro, já existe tecnologia farta para desenjaular espécies vivas. “O que os cientistas ainda não admitem é a limitação do uso animam em pesquisa. A reação de um medicamento em um rato não é igual à que ocorre no organismo humano.”

A utilização de animais na ciência começou no século 17, mas no século 19 esse uso já era relativizado na Europa. “Nas universidades brasileiras, esse assunto mal é discutido, criando um ceticismo entre os estudantes. Quem tem mais de 20 anos no ramo não vai mudar de ideia. A transformação virá dos estudantes que levarem adiante essa discussão.”

Esse é o caso do biólogo gaúcho Róber Bachinski, hoje com 27 anos. Em 2006, ele entrou com uma ação na Justiça pedindo à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que lhe oferecesse alternativas de estudo à dissecação de animais vivos em aula. Bachinki ganhou uma liminar que lhe garantiu os estudos até sua formação, mas a UFRGS reverteu a sentença na segunda instância. “Não recorri porque me formei sem precisar estudar em animais.”

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Doutorando no Centro de Alternativas aos Testes em Animais na universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, o gaúcho garante que seus estudos não saíram prejudicados. “Muitas universidades dos Estados Unidos e Europa já baniram as aulas com uso animal.”

Inspirada nesses exemplos, a professora Nédia Maria Hallage ajudou a tornar a Faculdade de Medicina do ABC, na Grande São Paulo, a primeira a proibir o uso de animais vivos em classe. “No início houve resistência de professores e alunos, que temiam uma queda na qualidade do ensino, mas ao longo do tempo todos se convenceram”, diz ela.

Atualmente, a faculdade utiliza processos computadorizados de cirurgia e um método semelhante ao embalsamento que conserva os tecidos do animal, permitindo a reutilização do corpo. “Antes, pegávamos o animal vivo, aplicávamos anestesia, fazíamos o procedimento e o sacrificava a cada aula.”

Bachinski aposta todas as suas fichas em um projeto pioneiro nos Estados Unidos que pretende desenvolver modelos de órgãos em 3D utilizando células-tronco extraídas do homem por meio de uma biopsia. “A intenção é formar diferentes órgãos com a base genética do doador para montar um sistema de interação entre eles.”

Custos e ética

A professora também assegura economia financeira para quem substituir os animais em laboratórios e faculdades. “O investimento inicial é maior, mas depois o custo é quase zero. No modelo antigo, é preciso comprar animais novos, montar um ambiente de sobrevivência, custear alimentação adequada e pagar alguém para manter as cobaias com vida pelo tempo necessário.”

Mas tanto para ela quanto para os outros pesquisadores, não é financeira a principal discussão trazida pelo recente resgate de cachorros da raça beagle em São Roque, interior de São Paulo. “Quanto custa a ética?”, pergunta Nédia. “A mudança na formação vai trazer para o mercado médicos mais humanos. No método tradicional, mata-se muitos animais antes de trabalhar em corpos humanos.”

Thales Tréz defenda que a substituição de animais deve ser “imediata” na academia e no laboratório. “Toda a pesquisa em animal que pretenda dar resposta ao ser humano é inútil. A busca por alternativa é uma necessidade urgente porque é grosseira a diferença entre o organismo humano e o de uma cobaia.”

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