Como o jornalismo pode danificar o cérebro de um jovem?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Regra básica de "escutar os dois lados" reduz o pensamento a um modo binário, afirma filósofo

“Você deve escutar os dois lados”. Essa é a regra jornalística para conseguir objetividade e quiçá a verdade. Essa é uma regra mentirosa. Pior: é medíocre.

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Dois lados? Uma narrativa é verdadeira se ela corresponde ao acontecimento a que ela se refere - eis aí a nossa intuição básica e comum de verdade. Mas por que existiria para um acontecimento só duas narrativas?

O jornalismo parte do pressuposto tolo de que dado um caso, deve-se ouvir duas narrativas que o descrevem, porque só duas podem se confrontar. E do confronto desses dois contendores, basta ouvir os dois lados e, então, deixar o leitor ou o telespectador decidir. Ora, como que o jornalista pode conviver com isso? Como pode passar uma vida trabalhando com esse instrumento tão pobre? De que maneira o jornalista se contenta em achar que ele está informando alguém ouvindo duas narrativas? Um episódio visto por dez pessoas pode se reduzir a duas narrativas? Não poderíamos ter dez narrativas ou até mais?

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Essa maneira de pensar do jornalismo tem a ver com uma maneira de pensar a política, que é a do plebiscito. Tudo pode ser reduzido a um “sim” contra um “não”. A política é um saber ruim e sua inflação na vida jornalística torna o jornalista um intelectual fraco. Política e jornalismo, assim casados, uma vez na escola como uma maneira de pensar, torna a escola pior do que ela pode ser quando já é ruim.

O jornalismo televisivo é aquilo que os pais e professores adoram dizer para as crianças que é o importante. Elas não devem ver filmes ou novelas. Elas não devem ver programas de auditório. Mas, elas precisam se informar com os telejornais. Ah! Cuidado com isso. Tudo na TV pode ser visto, mas o que realmente cria uma mentalidade de bagre assado são os telejornais e similares. Não quando mentem, mas quando querem ser objetivos e deixar o telespectador com a verdade. Pois vão fazer de tudo para nos convencer que foram objetivos, uma vez que colocaram as coisas em termos plebiscitários, e ouviram os dois lados. Ouviram o lado do “sim” e depois ouviram o lado do “não”. Quem aprende a pensar assim aprende a não pensar. A escola deve se contrapor à informação dando formação. Tem de ensinar a pensar, e pensar é exatamente escapar do mundo do plebiscito.

Casos, eventos, ocorrências, situações, conversas, contos etc., tudo isso é posto em narrativas, e só vamos poder dizer que sabemos alguma coisa de tudo isso se tivermos várias narrativas. Ter duas é não ter nada. Ter duas é ter eliminado várias outras e, portanto, de antemão, ter reduzido tudo ao modo de funcionamento de um binarismo que até mesmo a minhoca superou.

Quando começo uma aula de filosofia com o tema do aborto, e pego um caso para analisar, o que mais faço é problematizar e problematizar e problematizar a situação estudada, de modo a torná-la complexa e, assim, evitar que o estudante possa querer votar “a favor” ou “contra”. Alguns estudantes gostam. Percebem o que estou fazendo, levando-os à investigação. Outros, já viciados pelo fracasso do pensamento levado a cabo pelo jornalismo e pela política, se irritam. Querem o plebiscito. Gritam e esperneiam pedindo o plebiscito. Saem frustrados quando notam que o assunto ficou complexo e que não haverá a chance dele tirar uma “moral da história”. Fazendo isso logo vejo o estudante que pode continuar e aquele que já queimou seus neurônios e já rompeu suas sinapses, e que deve ser aconselhado a pendurar as chuteiras.

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Caso o jornalismo queira contribuir para a inteligência da juventude, deve se afastar da política. Deve se policiar no sentido de não politizar tudo. A desgraça do jornalismo é que a política é pegajosa e o agarra. Isso chega às vezes a dominar até os filósofos que se dedicam aos jornais. Alguns filósofos da mídia perderam a capacidade de tornar as coisas complexas, e estão trabalhando no esquema típico de colocar dois lados. Esses dias vi o artigo de um filósofo criando a dualidade ativismo e não-ativismo, para logo votar neste último, dado que o primeiro seria uma posição errada. Meu Deus! É um saco isso.

***

Espero vocês na Livraria Martins Fontes da Av. Pauista (metrô Brigadeiro) dia hoje, 29, a partir das 19 horas, no lançamento de A nova filosofia da educação (Editora Manole).

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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