Os black blocs e a sova no coronel da PM

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Grupo de mascarados buscam chamar a atenção e mudar a agenda política pelo “teatro da violência”, diz filósofo

95% da população paulistana diz que é contra a ação dos Black Blocs. É o número alcançado pela pesquisa de parte da imprensa, no dia em que um coronel da PM tomou umas bordoadas de mascarados que, dizem as vozes oficiais, foram de black blocs.

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Os black blocs atuam antes com o “teatro da violência” que com a violência propriamente dita - não só agora, mas sempre foi assim no movimento anarquista. Os black blocs são um movimento de caráter libertário, e nada tem de fascista.

Gabriela Bilo/Futura Press
Black bloc em protesto no centro de SP

Mesmo no dia da pisa que deram no coronel da PM (eram mesmo black blocs?), ainda assim foi uma ação limitada, pois o coronel ficou indefeso no chão e deixaram-no ir embora. Caso fosse uma violência pela violência, uma violência de bandidos, ele não teria saído dali. O que ocorreu é que ele é um despreparado, e voltou desonrado para o seu batalhão. Perdeu a arma para civis desarmados, duvido que consiga comandar alguma coisa daqui para diante. Por isso mesmo, deste ponto de vista, a ação dos mascarados venceu. A chamada “ação direta” funciona exatamente assim: fabrica-se um fato por meio da fabricação do espetáculo.

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Por que os black blocs atuam assim? Porque eles sabem que funciona. Os 98% de reprovação, eles sabem, não representam uma verdade. O número real é bem mais baixo. As pessoas em pesquisa nunca admitem apoiar quem está taxativamente marcado pela palavra “violência”. Todos nós temos empregos e queremos nos mostrar cidadãos pacíficos. Só um maluco de pedra responderia uma pesquisa dizendo ser a favor dos black blocs, sendo eles exatamente os que representam a violência. Mas essa mesma sociedade que, em pesquisa, se mostra contrária ao que aparece como sendo a violência, em outras pesquisas mais bem feitas responde com total apoio à violência.

Pesquisas sobre o aborto, pena de morte, castigo a presos e até mesmo a respeito de “Justiça com as próprias mãos” - ou seja, tudo o que corresponde à violência - mostram com facilidade o gosto de nossa sociedade pela violência. Mas, se a pergunta é sobre a violência, diretamente, ou seja, se a pergunta é sobre um grupo identificado com a prática da violência, então tudo muda. A palavra “violência” e a prática exercida por um grupo que carrega a bandeira da violência, mesmo que teatral, faz nossa sociedade responder hipocritamente. Não poderia ser de outra forma em uma sociedade moderna, onde todas as pessoas, de alguma maneira, estão atreladas às instituições controladoras.

Por isso mesmo, na Internet, dá para se ver como a pesquisa engana. O coronel que apanhou não recebeu a defesa de ninguém. Nem mesmo da própria polícia. Ou se ficou quieto ou se fez piada com o coronel. Isso sem contar os que, longe da pesquisa, disseram o que boa parte da população realmente pensa, mostrando fotos da polícia batendo e matando pobres e negros. Todos nós estamos carecas de ler as estatísticas brasileiras a respeito disso - são altíssimas, descabidas.

Nossa sociedade é violenta. Por isso mesmo, ela não se compromete com a palavra “violência”. É assim que funciona sempre: em casa de ferreiro o espeto é de pau. Agora, a violência preocupante e mais grave, e esta é que tem a ver com os Direitos Humanos, é a violência do Estado contra indivíduos. A violência entre membros da sociedade é problema policial corriqueiro. A violência do Estado, esta sim, se ultrapassa a legalidade, clama pela justiça dos Direitos Humanos.

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No Brasil a violência do Estado contra o cidadão comum tem desvios que, em número, deixa claro que a população pode começar a desejar revidar. Nossa população perdeu a confiança na polícia faz tempo, tanto é verdade que o movimento pela localização do Amarildo não parou. Nossa sociedade tem black blocs, que buscam chamar a atenção e mudar a agenda política pelo “teatro da violência”, e também tem os que se engajam em movimentos de cobranças das autoridades, para que elas não deixem passar em branco a violência do Estado contra o cidadão comum.

É preciso notar um detalhe, que está escapando aos analistas: os black Blocs surgiram entre nós exatamente no momento em que os grupos de Direitos Humanos começaram a ser fustigados e empurrados para fora de seus locais de trabalho. A eleição de Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados foi um marco simbólico importante. Mas não só. É visível que hoje os grupos de Direitos Humanos estão acuados. É também visível a ampliação da retórica conservadora na imprensa. Não é mais um ou outro repórter policial que faz a apologia de posições conservadoras. Hoje, jornalistas ditos bem formados e até filósofos atacam minorias e, ao mesmo tempo, as empurram para fora da imprensa. Nessa hora, mesmo em democracia, o anarquismo aparece com a única força política que se sente capaz de criar a possibilidade de nova agenda política. O “teatro da violência” surge naturalmente nesse contexto. O teatro tem lá os seus momentos de tensão. Há pessoas que se machucam nos espetáculos de teatro. Pois o teatro dos pobres não possui dublê de corpo.

***

Espero vocês na Livraria Martins Fontes da Av. Pauista (metrô Brigadeiro) dia 29, terça, a partir das 19 horas, no lançamento de A nova filosofia da educação (Editora Manole).

Paulo Ghiraldelli Jr, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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