Beagles e Povo

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Segundo filósofo, conservadores querem para povo e para beagles uma política baseada exclusivamente na razão

“Povo” não existe. Sim, talvez seja mesmo só uma palavra de retórica ... populista! Mas podemos substituir tal palavra por “população”, “pessoas” etc. O que não podemos é abolir a nós mesmos. Somos os que estão aqui nessa democracia fazendo regras e tentando jogar de acordo com elas. Podemos falar de nós mesmos como “povo”, e daí?

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Os conservadores não podem ouvir falar em “povo”, “povo na rua” e, agora, “beagles”. Por outro lado, o governo, que seria em parte o contraponto dos conservadores (em tese), fala muito em “ouvir a voz do povo nas ruas”. Mas agora, tanto quanto os conservadores, o governo parece estar incomodado com a palavra “beagle”. O ministro da Ciência e Tecnologia disse que os cientistas decidem sobre testes com animais e pronto. Ou seja, sobre os beagles impera só o que dizem os cientistas! Não é verdade. Há lei feita pelo povo: se há métodos que poupam os animais de terem de servir de cobaia, eles devem ser usados. Essa é a regra com a qual jogamos. Os cientistas fazem regras gerais enquanto povo. Ou seja, todos nós juntos, via instituições democráticas, fazemos as regras e devemos cumpri-las. Caso contrário, ficamos de um modo que os conservadores, os progressistas, a esquerda e a direita democráticas não poderão existir. Ou seja, botamos a nós mesmos, o povo, em situação de barbárie.

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O problema dos conservadores com essa conversa de não gostar de povo e de beagles é paradoxal. Eles invocam o duelo desnecessário entre razão e emoção. Acham que todos que falam “povo” e “beagle” agem por emoção e que isso estraga a ação que seria a correta, aquela vinda da razão. Paradoxalmente, apoiam antes a vertente iluminista que a vertente romântica da modernidade.

Tudo se passa como se os conservadores, passado um tempo, tivessem mudado de lado filosófico para poder continuar do mesmo lado político. Querem para o povo e para os beagles uma política baseada exclusivamente na razão. Mas isso seria um desastre, porque a razão solitária perde a si mesma, transforma-se em mera razão técnica, um arremedo de razão. Sabemos bem o quanto foi necessário ao romantismo e, portanto, ao próprio conservadorismo, com a emoção, adocicar a fúria iluminista. Os conservadores hoje, ficando do lado exclusivamente iluminista, lutando por um racionalismo radical em tudo, perdem o que havia de melhor na vertente conservadora, no passado, quando os românticos fizeram alguns revolucionários se darem conta do quanto, justamente em nome do povo, todo mundo havia sido tratado pelo iluminismo revolucionário como beagle!

O levante conservador racionalista que temos visto aqui e ali, no Brasil de hoje, poderia nos ajudar a pensar e a viver melhor, eu creio. Mas com algum tempero do próprio conservadorismo, ou seja, da sua parte romântica. Foi pelo elemento da emoção que os conservadores, no passado, avisaram o povo que os revolucionários, os iluministas, estavam querendo apagar o passado, não só o que havia ficado caduco, mas tudo que havia para amar, ou seja, toda a tradição.

Não vejo nenhum sentido, hoje, nessa conversa dos conservadores, que dizem que todos os “bonzinhos”, por tratarem as coisas emocionalmente, são burrinhos ou mesmo desonestos. Não, os conservadores não ajudam em nada falando isso. Seria melhor mais moderação.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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