Ricky Burdett: "Cidade sem serviços de saúde de qualidade terão mais problemas"

Por Brasil Econômico , por Paulo Henrique de Noronha |

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Transformações nas grandes metrópoles, tendo o Rio como estudo de caso, é o tema deste ano da “Urban Age"

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O Rio de Janeiro recebe hoje a “Urban Age 2013”, uma conferência internacional que discute os desafios das cidades, promovida a cada ano em um país diferente pela London School of Economics and Political Science (LSE) e financiada pelo Deutsche Bank. As transformações nas grandes metrópoles, tendo o Rio como estudo de caso, é o tema deste ano.

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O economista Ricky Burdett

A capital fluminense, que está passando por várias transformações, da pacificação aos investimentos para a Copa e os Jogos Olímpicos, é perfeita para essa discussão, como conta nessa entrevista o diretor do Centro de Cidades da LSE, o economista Ricky Burdett.

Para ele, qualquer cidade — seja no mundo rico ou nos países pobres — precisa investir, prioritariamente, em saúde, educação e transportes. “Uma cidade como Mumbai, na Índia, onde há um banheiro para cada mil famílias, é uma bomba relógio social”, adverte.

Sobre os transportes, conta que em Hong Kong que tem um sistema altamente eficiente, o tempo médio de deslocamento entre casa e trabalho é de apenas 11 minutos, enquanto em São Paulo pode chegar a mais de 3,5 horas. Ricky faz outro alerta: a moradia está se tornando uma questão crítica, por causa da alta valorização dos preços dos imóveis.

Brasil Econômico - Quais as perspectivas de crescimento das grandes cidades?

Ricky Burdett - As cidades têm crescido muito na América Latina e em partes da Ásia, e há 100 anos elas cresceram bastante na Europa. Mas as projeções das Nações Unidas para 2025 são chocantes: as cidades que mais crescerão estão na África — Nairobi (Quênia), Lagos (Nigéria), Kinshasha (Zaire), seguidas por Cabul (Afeganistão) e algumas em China, Índia e Bangladesh. A taxa de crescimento nessas cidades está em 6% ao ano, enquanto em Londres ou Rio teremos um crescimento urbano em torno de 1% ao ano. Em Lagos, a taxa de crescimento é tão rápida e com números tão grandes que, a cada ano, 250 mil a 300 mil pessoas estão migrando para lá.

Brasil Econômico - Como será esse crescimento?

Ricky Burdett - As cidades de mais rápido crescimento têm desenvolvimento de infraestrutura muito baixo — em alguns casos crescimento zero de infraestrutura. Os países da África e as nações pobres da Ásia não têm planejamento, dinheiro ou apoio internacional. A realidade das cidades latinoamericanas e brasileiras é bem diferente, porque vocês estão num ciclo de desenvolvimento econômico. Temos bons exemplos da Colômbia e do Chile, com vários modelos de ações com mudanças positivas feitas com baixo nível de investimento, diferente de do estilo chinês, que consome bilhões por ano.

Brasil Econômico - Mas quais são as áreas mais importantes para melhorar a qualidade de vida das cidades?

Ricky Burdett - Há três questões cruciais. Em primeiro lugar, saúde e educação. Cidades que não oferecem serviços de saúde para aqueles que mais precisam — de forma decente, com qualidade e a preço acessível ou gratuito — terão grandes problemas. Infelizmente, as mais pobres, que crescem muito rapidamente na África e na Índia, terão problemas muito maiores. As metrópoles brasileiras estão bem à frente em comparação com outros países, têm recebido investimentos em centros de saúde para os mais carentes. Isso é muito importante. Outra questão é a educação, a presença de escolas de qualidade em cidades do interior e na periferia é uma grande preocupação. Um dos principais problemas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos hoje é não termos escolas públicas de qualidade no interior e na periferia das metrópoles. Temos uma nova classe de jovens que não está recebendo boa educação. Em Londres, esse é um grande problema.

Brasil Econômico - Qual é o terceiro ponto crucial?

Ricky Burdett - Os transportes, que afetam a qualidade de vida no dia a dia. O problema dos engarrafamentos e do tempo que se perde no commuting time (período de deslocamento entre casa e trabalho) é altamente problemático. E aí temos cidades diferentes fazendo coisas diferentes. Ou você tem investimentos intensos de altíssimo custo, de bilhões e bilhões de dólares anuais em infraestrutura de transportes — como em Pequim, Xangai e Londres — ou você tem iniciativas que, eu diria, são mais palpáveis, não tão expressivas em infraestrutura, mas também não tão caras. Há exemplos como o de Curitiba, de 20 anos atrás, com o qual todos nós aprendemos, mas também Bogotá e Medellin, que estão fazendo uso expressivo de ciclovias, em conjunto com sistemas de faixas exclusivas para ônibus, o Bus Rapid Transit System (BRT ou BRS). O sistema de transportes de vocês no Rio está no meio desses dois extremos, investindo no sistema mais custoso do metrô, para transporte de massa, mas usando ao mesmo tempo o BRT na superfície, que por definição reduz os tempos de deslocamento. O commuting time médio em Londres e Nova York é de uma hora, aqui no Brasil provavelmente muito mais. Porém, em Hong Kong, o deslocamento médio entre casa e trabalho é de apenas 11 minutos. Mas em Hong Kong temos o que chamamos de modelo de máximo investimento. É uma cidade muito densa, mas com um sistema de metrô altamente eficiente, interligado com serviços igualmente bons na superfície, de bondes e ônibus. Esses três serviços integrados fornecem um transporte incrivelmente eficiente. Em comparação, os commuting times em São Paulo podem chegar a mais de três horas e meia por dia. No Rio não é tão alto, mas ainda é muito acima dos bons padrões internacionais. Os prefeitos e planejadores urbanos não têm como investir em felicidade, mas podem investir na melhoria das circunstâncias econômicas de seus cidadãos.

Brasil Econômico - O senhor citou primeiro saúde e educação, transportes veio em terceiro lugar. Mas aqui no Brasil as manifestações populares de junho começaram reclamando primeiro dos transportes...

Ricky Burdett - Acho que vocês têm uma realidade um pouco diferente. Comparativamente com outras cidades do mundo, em termos de saúde e educação as metrópoles brasileiras estão relativamente mais avançadas. Acho que a questão dos transportes está vindo à tona com os altos investimentos que estão sendo feitos por conta da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Fizemos uma pesquisa em São Paulo quando realizamos a “Urban Age”, em 2008, e perguntamos aos moradores de favelas quais eram seus maiores problemas. Achei que seriam os congestionamentos do trânsito ou a violência. Mas o problema mais citado foi a saúde. Os pais estavam muito preocupados, temiam que seus filhos crescessem com problemas de saúde.

Brasil Econômico - Em entrevista ao Brasil Econômico, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse que o governo focou muito nos programas de inclusão social e não percebeu que o trânsito nas grandes cidades se transformara numa “tragédia” (sic)...

Ricky Burdett - É interessante ele dizer isso, os transportes não foram colocados como prioridade num amplo programa de inclusão social, é um importante reconhecimento. Quando olhamos para Rio, Bogotá e Londres, vemos que a expansão dos sistemas de transporte público está direcionada para as áreas mais carentes, conectando-as às regiões com mais recursos. Em Londres, uma das maiores mudanças é uma extensão do metrô, com grandes trens expressos, que liga a zona Oeste, uma área mais rica, para a Leste, que é bem pobre. São mudanças que não apenas reduzem o tempo de deslocamento, mas também diminuem a desigualdade, além de terem um enorme impacto ambiental positivo, reduzindo o número de carros nas ruas.

Brasil Econômico - Saúde, educação e transportes são as questões principais também no mundo desenvolvido?

Ricky Burdett - Totalmente! Nas cidades do mundo desenvolvido, ainda não resolvemos esses problemas. Há uma quarta questão que eu acrescentaria como vital, que em Londres se tornou muito importante, que é a habitação, a moradia acessível. O imóveis estão virando ativos muito caros, tornando-se inviáveis para seus moradores, expulsando as pessoas. Temos que lidar com isso. As autoridades municipais, em todo o mundo, têm que fazer ações para reduzir a desigualdade. Caso contrário, você terá situações de conflito. Em cidades com milhões de habitantes, como Mumbai, na Índia, vivendo em condições onde há um banheiro para mil famílias, você tem uma bomba relógio social.

Brasil Econômico - Qual seria uma boa cidade para se viver?

Ricky Burdett - Qual a real razão de ser da existência de uma cidade? Na minha opinião, é a reunião de pessoas. As pessoas se moveram para as cidades ao longo dos séculos por razões econômicas, para estudar, por vários motivos. A grande maioria dos prêmios Nobel vivia e vive em cidades, porque eles precisam estar próximos de outras pessoas com quem possam trocar ideias. O que torna uma cidade boa para se viver é a existência de processos que permitam que grande quantidade de pessoas diferentes sejam capazes de conviver em harmonia. Tudo o que falamos até agora - saúde, educação, transportes, moradia - é parte disso. Você pode ter um sistema de transportes perfeito, mas numa sociedade extremamente dividida. Não sei se eu gostaria de viver lá. O que determina o sucesso de uma cidade é quando pessoas de diferentes classes, etnias, idades e religiões conseguem viver em harmonia. Por isso, sou fascinado por Barcelona. Durante décadas, Barcelona sofreu muito, social e economicamente, sob a ditadura do general Franco, que era anticatalão. Barcelona se reinventou como um lugar cool. Jovens de todo o mundo vão para lá estudar, curtir a comida local, o clima e os espaços públicos da cidade, onde as pessoas se reúnem para beber até duas horas da manhã e os mais velhos gostam de caminhar.

Brasil Econômico - Os Jogos Olímpicos fazem bem para uma cidade?

Ricky Burdett - Podem ser bons, ou realmente ruins. Se eu fosse um ateniense nos dias de hoje, eu diria que os Jogos foram ruins. Se eu fosse de Barcelona, 20 anos após os Jogos eu diria que eles foram fantásticos, mudaram a forma como Barcelona passou a ser vista pelo mundo. Eu participei ativamente dos Jogos de Londres, que aconteceram apenas um ano atrás, e foram muito positivos. Grandes investimentos foram para as áreas da cidade que mais precisavam.

Brasil Econômico - Por que em Atenas foi ruim?

Ricky Burdett - Não houve planejamento de longo prazo.

Brasil Econômico - Quais as melhores e as piores cidades no mundo desenvolvido e emergente para se viver?

Ricky Burdett - Se olharmos para Johannesburgo, a expectativa de vida é de 51 anos. Eu estaria morto há 6 anos. Por causa de violência, drogas e Aids. Já Istambul, é um lugar maravilhoso, jovens de diferentes partes do mundo vão para lá, a qualidade de vida é ótima, boas moradias, grande dinâmica de negócios. Há lugares como Cingapura e Hong Kong, que são como relógios suíços, perfeitas, tudo funciona. Mas eu gostaria de viver lá? Não. Prefiro Nova York, Londres ou Rio, porque são cidades de grandes massas, dinâmicas, que mudam o tempo inteiro. Essas são as cidades que eu acho mais interessantes.

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