Isis Valverde toma uns tapas do ex-namorado - ela denuncia ou não?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Filósofo discute as implicações da exposição pública provocada pela denúncia de agressores por suas mulheres

“A nova namoradinha do Brasil Isis Valverde tomou umas bolachas na cara. A mão do namorado ficou estampada na bochecha dela. Pudera, ele ficou sabendo que a moça havia se esfregado no Cauã.” A boataria está rolando. As redes sociais ainda estão quietas, mas os corredores não virtuais comentam. A própria reação de Cauã, dizendo que “é perigoso quando envolve uma terceira pessoa”, se esquivando de comentar seu possível namorico com a atriz, ao invés de fazer o boato diminuir só o fez crescer. Além disso, todo mundo sabe, Grazi é que empurrou o marido para fora do casamento. Por quê? Mais fofoca!

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A questão toda nessa história, que é o que importa para um filósofo, é que há aí um drama, em uma escala estrondosa, que é aquele de todos nós: denunciamos ou não denunciamos um agressor? Quais as vantagens que levamos ao denunciar um agressor quando se trata de “briga de casal”? “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”? Mas nesse caso a colher está na mão dos envolvidos!

As pessoas pobres denunciam. Muitas mulheres pobres denunciam seus companheiros e, depois, quando a polícia chega para pegar o rapaz, a denunciante se arrepende. Ele volta para casa e lhe dá mais cascudos. É um ciclo. Não raro isso tudo, depois de um tempinho, resulta em morte da mulher. São mortas 15 mulheres por dia no Brasil, vitimas de violência que é nitidamente “violência contra a mulher”. Em geral, violência doméstica.

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As pessoas ricas que entendem pouco a vida do pobre, reclamam da mulher que denuncia seu marido e depois se arrepende. Querem que a mulher leve a ferro e fogo as coisas. Não sabem que o marido, mal ou bem, em casa, fornece status e dá algum dinheiro para o cuidado dos filhos. Caso ele nem ponha dinheiro em casa, isso não quer dizer que a mulher possa dispensar o imaginário que paira sobre ele. A mulher pobre funciona de modo romântico tanto quanto qualquer outra mulher. E mais: marido que não coloca nada em casa, mas está em casa, dá para a mulher ainda uma boa marca: “sou gostosa, eu seguro meu marido”. As mulheres ricas exigem uma postura mais realista da mulher pobre. Todos os ricos exigem dos pobres que eles não sonhem. O sonho não é um produto mental, quando o rico se refere ao pobre, é um luxo que ele, pobre, não deveria ter - uma burrice. O sonho é monopólio do dinheiro, e o rico chama isso de inteligência.

As pessoas ricas ou não, mas famosas, têm problemas maiores. Uma atriz que denuncia um namorado pode ganhar mais tempo na imprensa do que gostaria - e nas páginas erradas dos jornais. Pode levantar o ódio de fãs dos vários lados, ao invés de pena. Pode ferir algum empresário e ficar à margem da contratação. Ocorre com a mulher, nesse caso, às vezes, bem o contrário do que ocorre com o homem. O ator que agride tende a ser criminalizado. Mas a atriz que reclama tende a ser considerada volúvel demais. Afinal, “o povo do teatro” ainda é visto pela população como “gente da boemia”. Muitos acham que estão corretos em tratar mulheres do palco dizendo que “é tudo puta”. E no Brasil, sendo puta, pode-se sentar a mão que fica tudo bem. Há mais gente que ainda pensa assim em nosso país. Note: a Isis Valverde nem bem chegou próxima do Cauã e seu Twitter começou a ferver: “vagabunda” - diziam as moças que se sentiram ofendidas porque ficaram no lugar da Grazi. Mulheres traídas, todas elas? Pode ser!

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Os filósofos viveram na pele situações assim. Chttp://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-10-17/regras-do-professor-nietzsche-para-voce-ser-feliz.htmlasado e como um professor conhecido, Heidegger teve um namoro com a sua aluna Hannah Arendt, e ele escondeu isso. Depois, sua mulher teve um filho com o médico da família, e ele, sabendo disso, assumiu o garoto e nunca tocou no assunto. Heidegger tinha pavor da exposição pública - para tudo! Ora, ele errou? Temos nós todos de sermos nós mesmos os casos de exposição para que a Justiça vingue em uma sociedade? Caso tenha sido verdade que Isis Valverde apanhou, teria ela, em nome dela mesma e das mulheres, que denunciar e pagar o preço da reação, que na verdade desconhecemos? Abaixar a cabeça com a cara vermelha pela bolacha é o melhor?

Falar é fácil nessa hora. Quando não é conosco, gritamos como se fôssemos uma espécie de Mulher Maravilha bombada por geriátrico do Instituto Royal - que se auto-elegeu o lugar da descoberta da cura do câncer e tudo o mais a partir da tortura de beagles. Agora, na vida cotidiana, quando o caso é conosco, dependendo da posição social que estamos, dependendo do tamanho de nosso público, nem sempre conseguimos dar um passo e dizer: “fui agredida, quero que peguem meu ex”. É dureza!

O mundo atual está em uma encruzilhada terrível, que é um estágio da modernidade, ou talvez uma situação pós-pós-moderna, em que várias promessas cobradas do liberalismo estão se realizando. Queríamos liberdade e queríamos um lugar ao sol. A doutrina que foi de Locke a Kant clamou por isso. Eis que passou um anjo torto e disse: “pronto, cada um tem um lugar ao sol” - o sol do Facebook. O sol era o sol do êxito particular, mas não necessariamente o sol quente, a pino, capaz de expor até órgãos internos. Mas foi esse sol que veio. A exposição máxima provocada por cada um de nós a respeito de nossas vidas. Os artistas triplicaram isso. Fizeram de uma vida já de exposição algo mais exposto ainda ao se integrarem na internet com tudo que ela tem de combate total à privacidade. Podia ser diferente? Claro que não, uma vez que artista não tem emprego, vive de propaganda e, portanto, ou está em evidência ou não ganha nada. Agora, é interessante estar em evidência por razões de se envolver numa briga, num “barraco”? Para alguns é isso mesmo. Para uma atriz do porte da Isis Valverde, será que é isso uma coisa boa? Ela mesma talvez não saiba, sendo o caso verdadeiro ou não.

Paulo Ghiraldelli , 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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