As características básicas das pessoas que podem se transformar em torturadores

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Convicção de fazer o correto e necessário é o que basta para um homem pacífico agir com crueldade, diz filósofo

É necessário afastar de uma vez por todas a patologização do torturador, seja ele o que faz testes com animais seja ele o que participa de polícias, voltadas contra o crime ou voltadas contra adversários políticos.

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Para que o pai de família bondoso, bom vizinho e homem pacífico torture outro da maneira mais cruel possível, basta uma única coisa: convicção de que o que faz é correto e necessário. Para que o biólogo competente, moço estudioso e filho exemplar torture um cãozinho, basta a mesma coisa. Ambos precisam somente disso: certeza de que estão do lado certo, que são os mocinhos do faroeste.

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Todos que passaram por regimes políticos que os fizeram descer aos porões aos trancos e barrancos sabem disso. Todos que já ficaram em laboratórios de pesquisas, vendo os cientistas submeterem cachorrinhos a dores inauditas, sabem disso. A ideia de que pessoas que causam dor a bichos e gente sofrem de distúrbios é algo produzido pelos filmes, porque há uma indústria cinematográfica que precisa nos convencer de que nós mesmos, os pacatos, não irão fazer tal coisa. Mas isso não é verdade. Aquela gargalhada louca do Dr. Silvana, ao fundo do laboratório, é algo raro nos lugares de tortura.

Cientistas e agentes policiais que torturam estão cobertos não pela lei. Não precisam da lei. Precisam da convicção. O homem na cadeira que irá levar um choque nos testículos é um inimigo da família brasileira. O animal que irá ter a boca colada para todo o sempre é uma peça inanimada que está ali para que a ciência brasileira cumpra seu destino glorioso. A família brasileira não estará mais exposta ao perigo subversivo e a nação toda irá ter remédio para nunca mais sofrer de câncer.

Essas convicções podem se tornar tão fortes na mente do homem pacato que, depois de uns anos, tendo sido preso e julgado por tais crimes de tortura, não entenderá a razão do julgamento; irá dizer apenas: “fiz o meu trabalho, cumpri a minha função”. Entrará na sala de julgamento e dela sairá sem qualquer tique nervoso ou qualquer mostra de distúrbio mental ou emocional.

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A convicção é a única patologia, se é que devemos manter a terminologia do desvio nesse caso. Convicção não é doença. Mas a quem está demasiadamente convencido de uma crença, nós nos referimos de um modo particular: “aquele sujeito é uma pessoa de uma convicção doentia”. Há muita gente treinada para agir convictamente. Mas há muita gente (talvez todos nós) que não precisa de treino para agir convictamente a ponto de destruir uma vida vagarosamente, cortando cada pedacinho do corpo daquele que é, então, candidato a ter a vida destruída.

Só se rompe uma forte convicção com outra adquirida de modo estapafúrdio. Paulo era um perseguidor fanático dos cristãos. Ele acreditava mais que ninguém que se havia algo na Terra que representava tudo aquilo que precisava ser destruído, esse algo tinha um nome só: cristãos. Paulo se tornou o cristão mais fervoroso de toda a história do cristianismo porque foi derrubado do cavalo, cegado, e ouviu a voz de Deus diretamente. Claro, pode-se dizer: ora, mas isso é evidentemente um caso de uma pessoa doente. Sim! Mas por isso mesmo eu cito. Trata-se de um caso, algo especial, não a regra. No cotidiano, não é necessário nada de espetacular. Uma pessoa comum, uma vez tendo uma crença arraigada, em nome dessa crença poderá arrancar o olho de um beagle ou apertar com alicate os seios de uma militante política subversiva.

A ciência inventa de tudo; mas ela não consegue inventar testes que não precise de animais, ainda que os medicamentos testados nos animais produzam resultados de pouca utilidade para os humanos. Uma pessoa pode acreditar de verdade que a ciência, mesmo inventando de tudo, não consegue e não conseguirá inventar um modo de deixar de fazer testes com animais. É claro que essa crença é tola. Mas, quando se acredita em algo de modo forte, em geral tanto faz de que maneira está estruturada a crença. Depois que ela se instalou como crença válida porque positiva, correta, ela certamente se alia a uma vontade férrea e desencadeará um comportamento muito decisivo. O torturador do laboratório emergirá daí, e agirá. Raciocínio semelhante pode-se fazer em relação ao torturador do bandido ou do suspeito ou da militante subversiva. O que o torturador precisa para ser torturador é que ele acredite de maneira inabalável no que acredita. Acredita na necessidade de sua missão, e crê que isso que ele faz o torna alguém correto, alguém que está “do lado certo”.

Enquanto nossa sociedade estiver com antropotécnicas capazes de domesticar o homem para que ele se disponha a ser um homem capaz de ficar convicto, todos nós estaremos aptos a arrancar olhos de beagle ou colocar a cabeça do Amarildo em um saco, sufocando-o até mata-lo. Mas há outro modo de ser o que somos, ou seja, humanos, e ao mesmo tempo não termos essa total propensão à crença, à convicção? Humano que é humano não é justamente um animal que crê?

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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