Índios brasileiros na teoria filosófica contemporânea ou Derrida x Rousseau

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Rousseau é criticável pelo seu enaltecimento romântico da natureza e Derrida é o melhor a rebatê-lo, avalia filósofo

“Maldito Rousseau” - sempre que escuto isso, ajo como o Pitoko, minhas orelhas ficam em pé! Quando vem da boca de uma garota do curso de pedagogia, pode ser por causa de pouco aprendizado sobre o conceito rousseauniano de “bom selvagem” e muito sobre o episódio biográfico em que o filósofo genebrino entregou seus filhos ao orfanato. Quando vem da boca de um ensaísta conservador, pode ser o contrário, que ele tenha fixado seus olhos no “bom selvagem”, sem nunca ter levado a sério o episódio do descarte dos filhos.

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A garota da pedagogia nos empurra para o tédio ao falar que Rousseau, a respeito da infância, escreveu uma coisa e fez outra. O conservador nos cansa ao repetir a lengalenga de que a esquerda idolatra pobre - e enaltecer seu poder revolucionário - ao assimilá-lo ao homem puro, isto é, ao “bom selvagem”. Felizmente sou obrigado a aturar somente a garota, por conta do serviço público, o conservador, quando começa com esse papo, posso parar de ler.

Mas, então, Rousseau não é criticável pelo seu enaltecimento romântico da natureza? Claro que é, mas o filósofo genebrino foi um dos grandes, e os grandes devem ser criticados pelos grandes. A crítica contemporânea de Rousseau que vale a pena conhecer é a do filósofo francês Jacques Derrida. Entre outros lugares, essa crítica criou pernas nas margens dos textos de Levi Strauss, referentes aos nossos índios nhambiquaras.

Vivendo entre os nhambiquaras, Levi Strauss conta um episódio curioso e célebre. Em um oferecimento de presentes dos brancos aos índios, de modo a criar um clima menos hostil, o chefe da tribo toma a frente e se põe no direito de distribuir os objetos entre os membros da tribo. Diante de todos, pega um papel rabiscado por ele, em que havia traçado linhas onduladas imitando uma escrita (que ele costumava fazer para fingir que estava lendo, como é costume entre nossas crianças), e então passou a “ler” a lista de nomes correspondentes aos presentes recebidos. Obviamente, usando desse subterfúgio, conseguiu distribuir os presentes da maneira que quis entre os outros índios, sem ser contestado (como se a lista fosse previamente preparada pelo branco), e desse modo pode reservar para ele o que acreditava como sendo os melhores objetos.

Levi Strauss interpreta esse acontecimento segundo a matriz rousseauísta. O cacique nhambiquara usa da violência contra outros índios, surrupiando-os, à medida que se envolve com um instrumento da cultura do branco. É o branco e sua cultura que o introduzem no trabalho de engodo dos parceiros. Com a sua fala natural, e não com a escrita, teria de citar para cada nome de um membro da tribo um presente, e então assumir a responsabilidade pela escolha. Mas podendo escapar da fala por meio da escrita, o cacique introduziu uma autoridade exterior, que teria adrede preparado cada presente para cada membro, por razões sabe-se lá qual, mas certamente especiais. Sem o branco e a cultura, ou seja, a escrita, a violência em forma de astúcia, enganação e mentira não teria se instituído. O homem bom por natureza não enganaria outro homem, mas o nhambiquara já tinha nas mãos, antes mesmo de aprender a escritura do branco, entendido a sua função perversa.

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Derrida lê os trabalhos de Levi Strauss e logo denuncia o rousseauísmo que obriga o antropólogo a formular uma conclusão já concluída, de antemão, por qualquer outro militante da tese de Rousseau. Feito isso, mostra que essa concepção rousseauísta não só força uma conclusão sobre a violência como também faz com que o antropólogo não perceba outras violências presentes na vida da tribo, inclusive violências inerentes ao modo de vida da tribo que se mostram como não tendo qualquer origem, violências existentes desde sempre, pois constitutivas da vida tribal dos nhambiquaras.

Sem a escrita e, portanto, sem na noção de hierarquia, os nhambiquaras seriam bons. Todavia, diz Derrida, ao lermos a descrição de Levi Strauss, separando-a de sua conclusão, vemos que ele parece não se dar conta de que descreve situações de violência que eram comuns na tribo, desde há muito, quando estes estavam completamente longe da escrita, da cultura civilizatória e do branco. Uma dessas descrições se refere à procura de alguns nhambiquaras por um parceiro, que poderia ser o próprio Levi Strauss, para ajudar na tarefa de envenenar um outro membro da tribo. O antropólogo sabia que uma situação assim poderia ter ocorrido antes, ou melhor, desde tempos imemoriais.

Derrida nunca quis dizer que a escrita não introduz uma violência. Nisso ele concorda com Levi Strauss, ou seja, a escrita é violenta por ela mesma. Todavia, ela, a escrita, não inaugura a violência na sociedade nhambiquara, que conhece essa violência já pela fala, sem escrita, e pelas hierarquias já existentes, antes de qualquer suposta introdução da hierarquia da escrita e da cultura em geral.

Esse episódio, com o qual Derrida denuncia não Levi Strauss, mas na verdade Rousseau, não é somente uma crítica a Rousseau e à antropologia. Trata-se de um episódio que alimenta um projeto maior. Derrida trabalha na sua teoria de que nossa cultura ocidental, ainda que evoluindo para um prestígio da escrita sobre a fala, sempre se manteve crente de que à segunda corresponderia a autenticidade e à primeira o artificialismo. Aliás, Derrida escreve um belo livro a respeito disso - A Farmácia de Platão - tomando a análise do Fedro, de Platão, livro em que Sócrates, entre outras coisas, insiste em prestigiar a fala e não a escrita. É nessa obra de Platão que Sócrates diz que o livro (a escrita) é tolo e limitado, pois sempre dá as mesmas respostas para perguntas variadas. O livro não fala e, portanto, não pensa. Nele, tudo já está pronto. O livro seria incapaz de reformular-se, como a linguagem falada faz, sendo esta, então, apta à dialética viva. Assim, Rousseau e Levi Strauss nada seriam senão derivados dessa tradição da cultura ocidental, a tradição fono-logo-centrista.

Concordando ou não com Derrida, é claro que esse tipo de comentário dele a uma parte da filosofia de Rousseau vale a pena de ser levada adiante. Ah! como seria bom se nossos jovens, se querem aprender como levar adiante uma crítica a Rousseau, mirassem nesse tipo de trabalho de Derrida, e não no que falam aqueles que podem falar qualquer coisa!

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

Post Scriptum. Não teria eu, mesmo que em um texto de tamanho bem limitado e sem caráter acadêmico, fazer alguma menção à “desconstrução”, o que se convencionou chamar de procedimento de Derrida? Derrida não desconstrói Rousseau ou Levi Strauss. Desconstrução é todo o processo em que Derrida se dedica a mostrar as trombadas entre o texto de Levi Strauss, nas informações empíricas que dá da sociedade nhambiquara, e suas conclusões, de certo modo forçadas pela sua filiação a Rousseau. Desconstrução também é a maneira como as ligações entre violência e escritura são postas de outra maneira, de modo universal (não mostrado), e também de modo particular (mostrado, no caso, no que se refere ao modo que Levi Strauss faz essa ligação).

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