O cajado de Nietzsche doado a Hitler,e roubado por Emerson

Por Paulo Ghiraldelli | - Atualizada às

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Indivíduo "tosco", aplaudido por outros "toscos", acredita que os filósofos tenham dito coisas que ele aprova; foi o caso de Hitler em relação a Nietzsche, afirma Ghiraldelli

Hitler estudou na classe de Wittgenstein. Mas, com Nietzsche, ele realmente não se encontrou. No entanto, o cajado de Nietzsche não só se encontrou com Hitler como lhe foi doado. Sem a Internet, só com tesoura e cola, a irmã de Nietzsche fez mais de um serviço porco, além da doação do cajado: recriou determinados escritos do irmão para que ele pudesse ser aproveitado pelo nazismo.

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Reprodução
Nada mais distante da filosofia de Nietzsche que elementos de ideologias totalitárias

Ela, a irmã, não era uma pessoa inteligente. Todavia, não era uma estúpida como Hitler ou como qualquer outro nazista. Era mais esperta, e queria estar nos círculos do poder. Sabia que Hitler (e qualquer outro nazista), só por ser nazista, engoliria textos adulterados do filósofo. Os nazistas acolheriam as frases mais bombásticas, contanto que tais enunciados fossem o que eles sentissem que se parecia com o que eles próprios queriam falar. Abrimos a Internet e notamos como é fácil enganar esse tipo de tolo, quando ele é de esquerda ou de direita antes de ser gente. Não era difícil para uma mulher como a irmã de Nietzsche, que tinha um marido com tendências fascistas, saber lidar com esse tipo de alemão.

É próprio do indivíduo tosco que é aplaudido por outros toscos, acreditar que Deus e até os filósofos tenham dito coisas que ele aprova e, é claro, está “pondo em prática”. Foi assim que se criou a completa bobagem de um Nietzsche fascista ou nazista. Nada mais distante da filosofia de Nietzsche que qualquer elemento vindo das ideologias totalitárias.

Por ocasião do centenário de Nietzsche, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, em 25 de agosto de 2000, fez uma preleção especial, abordando, entre outras coisas, essa conversa sobre a ligação de Nietzsche com as asneiras malévolas de Hitler.

Nessa conferência, em livro e traduzida para o português (O quinto “Evangelho” de Nietzsche, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro), Sloterdijk revela o motivo do êxito de Nietzsche entre nós, ainda hoje, ou principalmente hoje. “Nietzsche tinha entendido”, diz Sloterdijk, “que o fenômeno irresistível e mais importante da cultura vindoura iria consistir na necessidade de se distinguir da massa”. O futuro, Nietzsche sabia, seria confeccionado pelo “desejo do indivíduo em ser algo melhor e diferente do que os outros, e nisso precisamente como os outros.” E Sloterdijk acentua: “O tema do século XX é a autoreferencialidade, seja no sentido psicológico, seja no sentido sistêmico” (p. 84). Nietzsche, no entanto, não buscou participar disso como quem cultiva o autoelogio banal. O que criou foi o “design nietzschiano de um individualismo, que pode ser sintetizado através da seguinte expressão: 'Nós, espíritos livres! Nós, que vivemos perigosamente!'” (p. 85)

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Segundo Sloterdijk, foi essa sua marca Life-Style que fez Nietzsche chegar ao futuro como um erudito que defendeu a erudição e, ao mesmo tempo, alguém que lançou, como propaganda, como marketing, uma marca no mercado. Essa marca, o individualismo, é que lhe deu condições de, em épocas de “conjuntura individualista” (como em 68, por exemplo), tomar novo fôlego, e sempre incomodar qualquer tosco nazifascista, que fala muito em individualismo mas que, na hora H, quer ser apenas massa, quer ser comandado, quer ser vingado por um Eu que espelhe o seu pequenino proto-eu (daí a reverência desse tipo aos chefes políticos, militares e aos gurus tidos como intelectuais autodidatas).

Vendo essas observações de Sloterdijk, é fácil então entender como que alguns anarquistas, ainda que defensores de determinadas formas de socialismo na economia, puderam, no âmbito social, acreditar que Nietzsche estava usando de um vocabulário agradável.

Sloterdijk prefere não fazer a comparação dos escritos de Nietzsche com elementos anarquistas politicamente falando, mas, sim, com um filósofo que respirou o clima da liberdade que Nietzsche tinha em vista. Trata-se da liberdade que cultiva o não-conformismo, ou seja, a liberdade de tipo americana, representada no filósofo máximo do não conformismo ao nivelamento, Ralph Valdo Emerson.

O filósofo Richard Rorty, americano amante da América, sempre foi um crítico da academia americana por ela, às vezes, ser pouco afeita ao mundo europeu. O alemão Sloterdijk, por sua vez, elogia a academia americana por seguir Emerson, libertando-se da forma europeia de construção literária. Todavia, Sloterdijk fala algo que Rorty endossaria, ou seja, que depois de 1970 os americanos se deixaram levar pela europeizante “Critical Theory”, e com isso, antes perderam que ganharam.

Resumindo ao máximo e expondo as coisas segundo o meu jargão: a Teoria Crítica trouxe para a América a ideia platônica de que há algo por detrás dos textos, e isso, para nietzschianos como Rorty e Sloterdijk, não é algo louvável. Perde-se tempo e energia quando nos achamos muito sabidos, acreditando que todos estão vendo só sombras na parede da Caverna enquanto nós estamos vendo o real, por meio dos olhos da mente, iluminado pelo sol que é, enfim, o Bem, ou seja, a excelência que todas as coisas devem possuir enquanto ideias (essências). Viver sob a fumaça da ideologia é viver tomando as sombras pelo real. A Teoria Crítica aparece para nos dizer isso. Nietzsche diria que isso sim, que a Teoria Crítica põe em nossas bocas, é que nos faz sabichões. Uma pessoa que avisa as outras de que elas estão ideologizadas, alienadas, nada é senão um sabichão que está longe de ser um não-conformista, como Emerson pediu. Ele está pronto para se conformar ao que vier como verdade, desde que tirada da parte de trás do biombo da ideologia.

Nesse caso, já não falamos mais da direita somente, mas também ou principalmente da esquerda. Nessa esquerda estão os herdeiros de um marxismo tacanho, às vezes bem distante de Marx, que quer nos mostrar o quanto todos nós somos cordeiros de um Roberto Marinho morto, que nos comanda por meio de um ventríloquo chamado William Bonner, em favor de uma entidade espectral denominada metafisicamente de “capitalismo”. Ora, admitir isso é quase que ser o equivalente, do lado da direita, ao débil mental que fica vociferando contra o “golpe comunista internacional” que sairia de dentro do Forum São Paulo, ou que deveria ter saído de dentro do MST, ou que antes ainda deveria ter saído de dentro da cozinha da casa da Marisa em São Bernardo.

Na mão de toscos, a desideologização pode rapidamente ser uma face das teorias da conspiração. Pessoas como as que apoiaram Hitler ou Stalin, estão sempre muito propensas a cultivarem um platonismo banal reciclado pela banalização da Teoria Crítica. Nietzsche sempre foi um instrumento de dedetização desse ambiente de esquerda e direita. Rorty e Sloterdijk podem ser vistos juntos utilizando desse tipo de mata-baratas.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ.

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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