O segredo especial dos Black Blocs

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Anarquistas foram os primeiros a levar a sério a ideia do mundo moderno como “sociedade do espetáculo”

O movimento anarquista no mundo todo sempre foi pacifista. Aliás, os libertários pagaram um preço alto diante da Primeira Guerra Mundial, pois ao desencadearem movimentos contra o confronto bélico, foram chamados de traidores em seus respectivos países.

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Aqui mesmo, no Brasil, os libertários estiveram contra a proposta do poeta Olavo Bilac, de instituir o “serviço militar obrigatório”. A anarquista Maria Lacerda de Moura, responsável por uma das primeiras traduções da Apologia de Sócrates de Platão, escreveu sobre a proposta de “greve de úteros”: as mulheres deveriam se recusar a ter filhos, já que estes estavam sendo gerados para morrer em “guerras imperialistas”.

Mas, se os libertários eram pacifistas, porque passaram para a história como “incendiários”?

Anarquistas e anarco-sindicalistas, diferente dos marxistas, sempre deram muita importância para as imagens, para o “espetáculo da revolução social”, tendo como exemplo os acontecimentos mais sangrentos da Revolução Francesa. A guilhotina, as barricadas e o coquetel molotov eram as imagens que os anarquistas mais gostavam de reproduzir em seus jornais - no mundo todo, inclusive no Brasil. Eles foram os primeiros a levar a sério aquilo que, bem depois, iríamos começar a observar segundo nossas teorias sociológicas e filosóficas: a ideia do mundo moderno como o abrigo da “sociedade do espetáculo”. Os libertários cultivaram antes as imagens da violência que a própria violência. Mesmo quando aderiam a atos tidos como violentos, buscavam exibir uma violência simbólica, que deveria funcionar como ícone, e não a violência propriamente dita.

Em todos os lugares que atuaram, os libertários o fizeram de maneira espontânea, individual e individualista, e por isso mesmo jamais de modo a conseguir suplantar forças policiais. Aliás, não era mesmo essa a intenção. Queriam antes criar um imaginário espetacular da violência que realmente derrubar um governo por um assalto armado. A anarquia surgiria exatamente por meio da deterioração dos poderes repressivos, pela ingovernabilidade do Estado, pela corrupção do patronato enquanto classe e, enfim, pela descrença no clero. Mostrar imagens da Comuna de Paris sempre foi tão ou mais glorioso que a própria Comuna. As imagens fariam tudo isso andar. Havia nas imagens, por assim dizer, uma metafísica da revolução.

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O movimento dos Black Blocs (saibam ou não os meninos que participam dele) é herdeiro dessa atuação libertária pacifista, ou seja, que ataca a repressão e se põe em defesa de quem protesta. O movimento visa mostrar o lado espetacular da “ação direta” em política. O que os Black Blocs fazem nem de perto e nem de longe é violência efetiva, material, que visa ferir alguém. É símbolo, imagem e espetáculo. Agora, em uma era da Internet o libertarismo desse tipo ganha o leito caudaloso do seu rio.

Ser anarquista hoje, ou seja, estar no Brasil e pertencer à segunda geração dos Black Blocs é, antes de tudo, ser produtor cultural. O que se quer é povoar de imagens as redes sociais e o Youtube. A ideia básica é uma só: se temos de quebrar alguma coisa para que as autoridades saibam que não confiamos mais nas instituições e que nos sentimos traídos pelos mais velhos, vamos quebrar. “Partidos burgueses”, “democracia representativa”, “capitalismo”, “grande mídia” e “polícia militar” são tudo que esses novos libertários não querem, mesmo que eles possam não saber muito bem o que a semântica de cada uma dessas palavras envolve.

A “ação direta” hoje é o segredo: ela produz a imagem que faz os reivindicantes serem ouvidos e ela incentiva outros a também virem para as ruas quando tiverem pedidos e exigências. O espetáculo não está no parlamento ou no governo, deve estar nas ruas - é isso que os libertários de hoje, os Black Blocs, estão dizendo. Esse é o segredo. Ora, se olharmos como eles, mesmo sendo muito poucos, tem chamado a atenção (e como são imitados), então temos de aceitar que eles estão obtendo êxito. É exatamente isso que desejam.

Esse segredo, no entanto, é uma armadilha para todos. Ele faz o movimento parecer maior do que realmente é. Desse modo, ele atrai mais as forças policiais. No entanto, faz também o movimento parecer maior que ele é para quem participa, e em determinado momento a mitologia da revolução transforma-se em alguma coisa que parece ser plausível, mas não é, ou ainda não é.

Alguns dizem que isso, o teatro dos Black Bloc, é ruim em qualquer protesto. Mas os libertários acreditam que não, pois as imagens das revoluções de rua, que eles visam reproduzir, como que em uma teatralização, atrai também mais jovens adrenalinados. Caso não fosse assim, dizem eles, não teria havido Maio de 68, Primavera de Praga e movimentos anticapitalistas contra o G-8. Os Black Blocs acreditam que eles são parte do DNA que repassa adiante a ideia de que em uma sociedade do espetáculo, nada melhor que por no palco o teatro da violência.

Durante os ataques do PCC tivemos violência. Filósofos conservadores e progressistas, naquela época, ficaram quietos. Nos casos de Amarildos da vida, filósofos conservadores e progressistas ficaram quietos. Mas agora, após seis meses de manifestação pacífica, quando uma janela de banco é quebrada, aí então os filósofos conservadores e progressistas aparecem. Os primeiros para dizer que isso tudo, ou seja, a revolução, nada é senão uma mística. Ora, é mesmo: é a mitologia da revolução em favor da ilusão. Não há revolução e mudança sem ilusão. Felizes os iludidos. Os progressistas carcomidos e tradicionais, por sua vez, aparecem para dizer que nada disso é libertário, que revolução se faz com ordem de um partido revolucionário, e que a “ação direta” é fascista. Erro crasso de quem fugiu da aula de história.

Os protestos continuarão. Quanto mais o estado reprimir, mais surgirão outros jovens para protestar. A Copa é a meta. No momento máximo da “sociedade do espetáculo”, também a insatisfação com uma sociedade amordaçada pela farsa, ganhará seu dia de exibição no palco. Há muita chance do futuro próximo ser assim, e isso independentemente dos meus gostos e desejos.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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