Dançarina do ventre se exibe para seu cão Samy!

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Filósofo conta saga de uma dona à procura do animal perdido e recomenda prestar atenção aos bichos na rua

Mariana é branquinha, cabelos negros e olhos largos. Magra, sim, mas ela tem formas! Como não poderia ter? É bailarina e faz dança do ventre! Mais que isso: é professora de dança, formada pela PUC-SP. Faz sucesso com homens e mulheres, às vezes por motivos até diferentes! Faz sucesso também com Samy, embora ele não possa mais vê-la!

Samy é um velhinho. Poucos dentes, cego, um pouco surdo e, pior de tudo, com o faro já deteriorado. Para um cãozinho, perder o faro é realmente ficar sem referências no mundo. Por isso Samy anda com um tipo de coleira medicinal, aquela em forma de cone, de modo que ele não trombe nas coisas. Ficar velho assim é muito chato mesmo. Para cães e para nós! Pode-se escapar de uma frauda geriátrica, mas nem sempre de uma ... coleira geriátrica!

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Como Samy está nessa situação, idoso, suas sensações de tato são as que ele pode mais usufruir, além de escutar Mariana falar, quando ela está bem perto. Longe de Mariana, o mundo de Samy fica completamente reduzido, um tédio. Por isso mesmo, ela sai pouco de casa. Mas, há um mês mais ou menos, Mariana teve que viajar e deixar o Samy. Lá foi o Samy para uma “casa de repouso”, passar uns dias. Quando Mariana voltou, cadê o Samy? Nada de Samy! O que fazer nessa situação senão matar a sangue frio, cortando a goela, a responsável pela “casa”? Eu faria isso, claro. Mas Mariana não! Toda zen com a dona da casa de repouso, mas com o coração cortado, começou um rebuliço pelo bairro para achar o Samy. Os cachorros dali da “casa de repouso” haviam fugido, mas todos tinham sido encontrados, menos o Samy.

Onde pode ir um velho cego sem faro? Tentei pensar como um cão novo e como um cão velho, para ajudar a Mariana. Novo, eu iria procurar cadelas. Velho, eu iria... ah, bem, eu tentaria ligar para a Fran! Meu palpite: estando Samy sem celular, ele tenderia a ficar paradinho por ali mesmo. Certamente alguém o recolheu - pensei e torci!

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As redes sociais foram povoadas de fotos do Samy. A vizinhança toda foi consultada, inquirida e perturbada. E perturbada de novo! Quem viu o Samy? Como o Samy iria desaparecer sem ninguém ter visto? Teria ocorrido o pior? Samy teria sido atropelado e seu corpinho jogado num caçamba de lixo? Claro que Mariana e todos em volta pensaram também isso! Mas ninguém ousou falar alto tal coisa. Passou um dia, dois dias e três dias. Nada de qualquer notícia do Samy! Bateu o desespero em todo mundo. Na Mariana, obviamente, mais ainda.

Passou mais uns dias, aí bateu o desânimo. Menos em Mariana, que intensificou as buscas. O povo do bairro paulistano em que o Samy desapareceu já não falava noutra coisa. Felix, a bicha má, foi totalmente dispensado. Mesmo na hora da novela, tudo que se fazia era procurar o Samy. E eis que se conseguiu um tempinho na TV para falar do Samy. “Vai Mariana, vai que se colocar na TV, aparece!”.

Mariana gravou lá na TV um pedido para devolverem o Samy. Não foi pouco não! 15 minutos! Mas o programa não foi ao ar no dia marcado e nem depois, no dia avisado. Isso só aumentou a angústia da Mariana. Quando ela estava para explodir, a TV passou a reportagem. É claro, exibiu o telefone dela na telinha. Então, veio uma avalanche de telefonemas.

Há algo criativo no banditismo brasileiro, mas, em tempos em que Lobão é historiador, cientista político e educador da juventude, intuímos que o analfabetismo deva ter aumentado. Aumentou! Lá de um morro do Rio ligou o bandido dizendo: “Tô com seu filho Samuel aqui, ou a senhora deposita aí o dinheiro que vou pedir ou ele morre!” Mariana respondeu: “atira no menino, na cabeça!” E desligou. Em seguida, outro telefonema idiota, da Bahia: “Dona Mariana, seu cachorro tá aqui comigo, aqui em Ilhéus, vi sua foto, se a senhora casar comigo eu devolvo seu cachorro”. Mariana dispensou o noivado baiano: “sou dançarina e professora de dança, mas berimbau eu não curto”. Também apareceram os “realistas”: “Dona, seu cachorro já morreu, desista”. E até aqueles que, apesar de adultos, não passam de moleques perversos: “Alô, aqui é o Samy, tô ligando para dizer que não voltarei, achei uma cadela véia, fiquei”. Um espírita - desse tipo que faz contanto com qualquer Nicole - ligou também, oferecendo serviços para falar com o Samy, já no Além! Mariana respondeu: “sou católica”.

Tudo contava contra o encontro de Mariana e Samy. Mas ela dizia: “ele não morreu. Caso tivesse morrido, eu teria sentido algo, eu saberia de alguma maneira. Ele está vivo e vai aparecer”. Finalmente, então, o programa de TV fez efeito.

Uma boa alma havia encontrado o Samy e o levou para casa. Na casa humilde, Samy recebeu tratamento e carinho. O moço que o levou havia pensado: “nossa, abandonaram o cão porque ele já está velhinho, que canalhas!” (Sim! Sabemos bem que há gente FDP o suficiente para fazer isso.). Samy havia se perdido, talvez ao ser empurrado para fora pelos outros cães, estes sim, em fuga. Mas o que Samy não desconfiava é que todo cãozinho velho acaba acionando o seu anjo da guarda lá no Céu, que mesmo aposentado, sai de sua internação do SUS e volta à Terra. Foi o que ocorreu. O anjo colocou o bom rapaz no caminho de Samy.

Ainda que existam anjos, não deixe nunca de observar na rua os cães perdidos, mesmo que eles não tenham dono, pegue-os. Adote-os! A vida de cada cachorro é importante. Não para fazer você feliz ou para guardar a casa ou para qualquer outra coisa útil. Esqueça esse tipo de utilidade. Pense noutro tipo de utilidade. Pense o quão interessante é você ter se tornado menos participante da perversa “cultura do descarte”, trazendo esse futuro amigo para casa.

Mariana voltou a dançar. Samy não pode vê-la, mas ele sabe que ela dança - para ele!

Ah, bem, não vou deixar você curioso, aqui vai um programa Hora da Coruja, com Mariana e, no final, uma palhinha com ela fazendo a dança do ventre: http://youtu.be/OczVVazXpSA

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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