Povo não crê em crimes de pessoas bonitas e famílias harmônicas, diz psiquiatra

Por Carolina Garcia e Renan Truffi - iG São Paulo |

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Para Guido Palomba, Polícia Civil enfrenta resistência ao concluir inquéritos com autores “bonitos e com bons antecedentes”; relembre crimes com desfechos polêmicos

Mortes de famílias inteiras, os chamados familicídios, têm provocado inquietação e desconfiança na opinião pública. Laudos e avaliações psicológicas não são considerados suficientes pela sociedade para explicar o que levaria um assassino a matar sua família e tirar a própria vida logo depois. O caso de Marcelo Pesseghini, de 13 anos, evidencia isso. Com o inquérito voltado para a culpabilidade do adolescente, a Polícia Civil enfrentou resistência de parte da população, que criou a teoria de que policiais teriam cometido os assassinatos.

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Arquivo pessoal
Garoto ao lado do pai Luiz Marcelo Pesseghini. Para Polomba, menino sofria de problemas mentais


Para o psiquiatra forense Guido Palomba, a idade, a boa aparência e os bons antecedentes de Marcelo Pesseghini incentivaram a falta de confiança no trabalho policial e formaram a opinião pública. “Um menino tão jovem e bonito não poderia fazer algo tão maldoso” é uma das frases que ilustram a página “Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini” do Facebook, que tem mais de 27 mil seguidores.

“[A incredulidade] ocorre nos casos com pessoas bonitas, são de famílias harmônicas, sem histórias pregressas de crimes significativos e que têm depoimentos positivos de vizinhos e familiares”, explica o especialista. Palomba ainda cita que a sociedade só acredita quando um agente externo – um suspeito fora do convívio familiar – é apontado como suspeito. A solução, segundo ele, seria uma divulgação completa na imprensa dos dados técnicos de cada crime.

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Fato é que, seja por uma questão de sigilo policial, seja por teorias conspiratórias, a morte dos Pesseghini criou um nuvem de dúvidas no imaginário popular. E o caso não é único.

Caso Peukert

Em janeiro de 1985, os pais de Roberto Agostinho Peukert foram mortos na casa da família, na Vila Santa Catarina, zona sul de São Paulo. Com eles foram encontrados também os corpos dos irmãos Paulo, de 17 anos, Cristina, de 16, e André, de 8. Ainda que Robertinho, como era chamado, tenha confessado ser o autor da chacina, durante algum tempo o caso gerou desconfiança na opinião pública.

“O Robertinho era dócil. [...] Então falaram, na época, que ele devia ter tomado remédio para dormir e, por isso, não teria visto todos sendo mortos. Outros pensaram que o namorado da Cristina poderia ter matado a família. Mas fui visitá-lo no manicômio. Ele não tinha o mínimo remorso. Disse no jornal que foi como atirar em um saco de batatas”, lembra o vizinho Sidney Luiz Pierotti, de 72 anos.

Responsável por analisar o caso de Marcelo Pesseghini, o psiquiatra Palomba foi quem também avaliou Roberto Agostinho Peukert na época do crime. Ele lembra que o caso chegou a gerar desconfiança similar à que surgiu no caso da morte dos policiais militares.

“Como uma pessoa, que aparentemente não tinha mau comportamento, poderia fazer aquilo? Pode ser que haja algum paralelo entre os dois (Pesseghini e Peukert). Lembro que houve alguma discussão semelhante na época. Mas, como tive de mergulhar no caso, acabei não entrando muito nessa polêmica. Para mim, tinha ficado claro que (o autor) era o Roberto”, afirma Palomba.

Roberto Agostinho Peukert foi condenado a 25 anos de prisão, mas acabou sendo encaminhado para o manicômio judiciário. Atualmente, está em regime de Desinternação Progressiva no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Franco da Rocha II e pode sair do manicômio para visitas domiciliares.

Caso da rua Cuba

Já o assassinato de Maria Cecília e Jorge Toufic Bouchabki, em 1988, gerou uma especulação contrária para o principal suspeito. O filho mais velho do casal, Jorge Delmanto Bouchabki, então com 18 anos, foi acusado de matar os pais na residência da família, na rua Cuba, Jardim Europa, zona oeste de São Paulo. Por falta de provas, a Justiça não abriu ação penal contra ele.

Como ninguém foi preso ou condenado pelas mortes, as especulações sobre a participação de Jorginho, como era chamado, continuaram até quase uma década depois do crime. Em 1999, os promotores Eliana Passarelli, Maria Amélia Nardy Pereira e Carlos Roberto Marangoni Talarico tentaram reabrir o caso, mas os juízes entenderam que as novas provas eram insuficientes.

Na ocasião, o MP usou novas declarações de uma testemunha já ouvida no processo inicial, que dava detalhes de uma suposta briga entre mãe e filho, uma noite antes do assassinato. Segundo esse depoimento, Maria Cecília teria quebrado um taco bilhar nas costas de Jorginho durante uma discussão.

Para Luis Francisco Carvalho Filho, um dos advogados de defesa, a desconfiança da opinião pública foi fruto de “especulação da imprensa”. “Do ponto de vista técnico, nunca tivemos dúvidas e o caso se encerrou sem sequer ser instaurado na Justiça. Não reabriram porque não tinha prova nova. Eles (promotores) se basearam a partir da existência de um depoimento”, argumenta.

Apesar de ser considerado inocente, Bouchabki se recusa a falar sobre o assunto até hoje. “Não tenho interesse em dar entrevista”, diz ao iG. “Teve uma repercussão muito grande. Evidentemente que isso afetou demais a vida dele”, explica o advogado.

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