Onda de crimes em família divide especialistas

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Alta incidência de familicídios após caso Pesseghini revela cenário alarmante, diz consultor. Já psiquiatra forense acredita em "coincidência temporal"; relembre os casos

Primeira semana de agosto de 2013. Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. A família Pesseghini é dizimada entre a noite do dia 5 e a madrugada do dia 6. Morrem um casal de policiais militares e duas idosas. Os quatro com tiros certeiros, cirúrgicos. O acusado é o filho dos PMs, Marcelo Pesseghini, 13 anos, que se suicida horas após os crimes. Nas semanas seguintes, outros três casos de assassinatos em família em São Paulo e no Rio de Janeiro chocam o Brasil e opõem especialistas. Para alguns, há efeito cascata ou "copycat". Para outros, tudo não passa de uma coincidência infeliz e sangrenta.

Conheça a nova home do Último Segundo
Entrevista: "Povo não crê em crimes de pessoas bonitas e famílias harmônicas"

Reprodução
Foto em site de relacionamento mostra casal de PMs ao lado do filho Marcelo Pesseghini

Os adeptos do crime-que-gera-outro-crime iniciam sua tese com o seguinte: o caso Pesseghini teve presença massiva na imprensa em agosto e gerou uma inspiração macabra para novas mortes. Em 8 de setembro, um cabeleireiro de Cotia, na Grande São Paulo, mata mulher e filhos envenenados e alega problemas financeiros; uma semana depois, uma mãe é presa acusada de matar as filhas adolescentes de 13 e 14 anos, no Butantã, zona oeste paulista; mais dez dias e um diagramador do jornal “O Globo”, no Rio, comete suicídio após esfaquear e matar a mulher e a filha deficiente.

Entenda: O que leva a polícia a apontar menino como autor da morte de PMs?

Para o professor e consultor de Segurança Pública George Felipe de Lima, formado pela George Washington University, os recentes crimes familiares não são eventos aleatórios. “O segundo caso [de Cotia] já deveria apontar uma luz vermelha [presença do fator comum]. Não precisávamos de um quarto evento para cogitar isso.” Lima acredita que a família Pesseghini provocou uma aprendizagem social pela presença massiva na imprensa com seu conteúdo para “telespectadores/leitores hipnotizados”.

Leia sobre outros crimes em família:

08/09: Por problemas financeiros, cabeleireiro envenena toda a família em Cotia 
1
5/09: Mãe é suspeita de matar duas filhas no Butantã, em São Paulo
17/09: Mãe e quatro filhos são encontrados mortos em Ferraz de Vasconcelos
24/09: Diagramador de jornal mata mulher e filha deficiente e se suicida no RJ

Quando casos similares são reproduzidos em um curto espaço de tempo, segundo ele, o cenário pede atenção. “Os mecanismos não são exatamente os mesmos, mas têm fatores comuns. Todos contam com o suicídio, extermínio de toda família, ocorrem entre quatro paredes e da forma menos sádica possível. Não há a intenção de provocar sofrimento”, defende. Lima cita ainda o despreparo da Polícia Civil e dos especialistas em psicologia, que não conseguem identificar “fatores sutis” que unem os últimos crimes.

Guido Palomba, psiquiatra forense responsável pelas avaliações psicológicas do Marcelo Pesseghini, acredita que todos os casos têm apenas uma característica em comum - a insanidade dos seus autores. Para Palomba, que recusa a possibilidade de um surto de chacinas de família, as motivações de um homicida com anormalidade mental não podem ser influenciadas por um contágio cultural de comportamento, como aposta Lima. “Os assassinatos ocorrem às vezes por delírios, durante alucinações ou redução da capacidade de entendimento. O desejo [de matar] está intrínseco e não sofre alteração com eventos do cotidiano”, diz.

Futura Press
Enterro de irmãs que teriam sido assassinadas pela mãe, no Butantã, bairro de São Paulo

Mídia

Opondo-se a Palomba e partindo da ideia de que a sociedade enfrenta um possível fenômeno de familicídios, George de Lima defende cautela da imprensa ao reproduzir casos de homicídios em massa. “Se a mídia já entendeu que casos de autoextermínio provocam modelagem cultural, porque esse cuidado não pode ser estendido aos familicídios?”, diz.

Para Palomba, o problema vai além da divulgação midiática. Segundo ele, a polícia sofre com certa incredulidade da população nos crimes entre familiares. Poucos acreditam que um familiar – “em momento de alucinação” – poderia eliminar pais, irmãos e próximos. “Os laudos [técnicos produzidos pela perícia] deveriam ser definitivos e aceitos pela sociedade, mas nunca são.” O psiquiatra acredita que a total confiança viria com uma maior divulgação de todos os detalhes de um caso. “A sociedade não tem todas as informações para que possa racionar com dados reais. Se tivesse, formaria outro tipo de juízo.”

No mundo palpável, sem as convicções de George de Lima ou de Palomba, a sociedade teme novos crimes e a polícia patina. Como no caso das cinco mortes ocorridas em Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo, dois dias após a tragédia no Butantã. Os corpos de uma mãe e de seus quatro filhos foram encontrados em um apartamento. O delegado Eduardo Boighes diz que “cada caso é um caso”, mas não nega a influência dos crimes recentes na investigação. “Logo que recebemos a notícia, começaram as comparações. Seria um Pesseghini 2?”, conta. Os trabalhos policiais seguiram por três frentes: homicídio seguido de suicídio, um criminoso externo ou vazamento de gás. A última hipótese foi comprovada e inocentou o boliviano Alex Pedraza – que já estava com a prisão decretada.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas