A mentira da direita medrosa e da esquerda carcomida a respeito dos Black Blocs

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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Conservadorismo político gera mais reclamações sobre mascarados que sobre ações do PCC, afirma filósofo

Os que ficam muito tempo diante da TV e andam pouco nas ruas têm uma facilidade grande em reproduzir mentiras vindas pela telinha, principalmente se essas mentiras ajudam a tranquilizar o espírito já petrificado, avesso à investigação empírica para além do amálgama de imagens. É exatamente a propagação e a reiteração da mentira, o que mais tenho visto por esses dias, principalmente entre os que resolveram assimilar a imagem de qualquer pessoa quebrando porta de banco a um comportamento dos Black Blocs.

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Em certos analistas, o que os faz confundir tudo, não é desonestidade intelectual, mas é ignorância mesmo. Não sabem nada da história do libertarismo. Culpam Rousseau de tudo que pode parecer uma apologia ao “poder do povo”. Não tem qualquer ideia de como o anarquismo se desenvolveu na Europa e de como ele aportou aqui no Brasil. É gente que nunca visitou o arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp e desconhece a tradição anarquista no Brasil de antes de 1930. São pessoas que não leram os textos de Maurício Tragtemberg na PUC-SP e na Unicamp. São marinheiros de primeira viagem no campo da filosofia política, e não notaram que o libertarismo, por razões especiais, ressurgiu entre a juventude europeia e americana no comecinho do século XXI, e que agora, em forma de “segunda geração”, ganhou espaço no Brasil. Razões especiais? Sim! Essa juventude libertária surgiu no vazio deixado pela política tradicional por causa do eclipse, de um lado, do comunismo da URSS, e de outro, pelo esgotamento do projeto Reagan-Thatcher.

Não entendendo esses elementos que, para quem acompanha a filosofia política e a própria política são fáceis de ver, vários analistas recebem as lições diárias formadas pelas imagens completamente bagunçadas das TVs. As desculpas de Arnaldo Jabor aos jovens, quando dos protestos de junho, deveriam ter alertado esse pessoal. Mas não adianta, ninguém muda a cabeça desse pessoal que se acostumou a acreditar na reportagem televisiva desde garotinho. Viram Jabor errar feio e, assim mesmo, continuando errando igual!

O progressismo político, que ainda crê na “História”, pode ser um cancro para o cérebro, mas o conservadorismo político que, ao ouvir o nome “Black Bloc”, faz xixi nas calças porque imagina milhares de mascarados atirando coquetéis molotov nos bancos (como gostam de proteger bancos esse pessoal conservador!) e sangrando velhinhas nas ruas, é bem pior.

Aliás, essas pessoas, tanto à esquerda quanto à direita, reclamam bem menos quando São Paulo e Rio param por causa de guerra entre PCC e polícia. Mas, quando a TV filma papelão pegando fogo à noite, de modo a imitar uma praça de guerra, e fala de “mascarados de preto”, ah, aí sim vemos como que aparece lá uma professora de esquerda para dizer que há fascistas nas ruas, e sua voz se une a do professor de direita, que só falta dizer que ele mesmo viu barricadas nas ruas, já quase como na Comuna da Paris. A imaginação desse pessoal é infantil quando se trata de falar sobre política.

Esse pessoal que pensa pouco e fala muito, por incrível que pareça, são professores universitários. Eles recebem imagens de meia dúzia de gatos pingados sem camisa, quebrando um vidro de banco, e então acreditam que isso é o mesmo que os militantes abraçados, de preto e de máscara preta, que enfrentaram a polícia para proteger os professores do Rio de Janeiro. O mais triste é ver que alguns desses analistas são professores!

Para o bem ou para o mal, esse pessoal olha para os Black Blocs com lente de aumento e, ainda por cima, olham torto. Claro que se eles quisessem ser sérios olhariam o Youtube, sairiam às ruas, conversariam com os Black Bloc, participariam de manifestações, e então veriam algo mais próximo da realidade. Mas a realidade é muito simples, não é tão fantástica como na imagem da TV, que funde acontecimentos sem qualquer critério. Esses professores, esses analistas, preferem viver esse “clima de revolução” que em parte eles próprios inventaram nessa proporção. Agora, quando ocorre realmente algo digno de ser comentado, que foi o ataque da polícia aos professores, seguido da defesa desse pessoal feita pelos Black Blocs, aí não encontramos mais esses professores de esquerda e direita para comentar. Eles estão de volta ao sofá, tomando lições com William Bonner e outros similares.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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