O seu filho está a meio passo das drogas – e agora?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Parte dos jovens que procuram drogas estão em busca de 'poção mágica' que resolva dramas sócio-psicológicos

As drogas não são problema, elas são solução, ao menos é assim para os que as procuram. E essa opinião dura um bom tempo entre os iniciados. A maior parte dos que as procuram estão querendo algo para transformá-los em Asterix ou Obelix, heróis gauleses de HQ que adquirem a capacidade de ridicularizar o poderoso Exército do Império Romano por conta da ingestão de uma poção mágica.

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Homem fuma maconha do lado de fora do Congresso uruguaio, onde deputados debatiam legalização da venda da maconha

A droga existente em nossa sociedade realmente funciona como uma poção. Todavia, os que emergem da transformação se mostram apenas como o Ideiafix, o cachorrinho desses heróis gauleses, que nunca consegue ter mais que uma única ideia – por toda a vida! (Ideiafix fica o tempo todo com um só balãozinho sobre a cabeça, pensando em um ossinho).

Não há poção mágica que faça de um tímido um rapaz desenvolto. Não há poção mágica que faça uma adolescente que se acha feiosa virar uma Angelina Jolie. Não há poção mágica para o sucesso fácil. Há autoconsciência crescente, terapia e derivados de paroxetina para tratar de depressão, síndrome de pânico etc. Mas, poção mágica para dramas sócio-psicológicos, não há mesmo. Pois, absolutamente, não há mágica. Podemos convencer os jovens disso?

Os jovens podem saber disso, mas eles possuem uma disposição física diferente da dos adultos, uma sensação de que o tempo é infinito e, acima de tudo, um desejo de aventura bem mais complexo que o nosso. Para boa parte dos jovens não importa o fim de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface, mas o poder de afrontar a sociedade que ele exibiu durante (o pouco) tempo em que viveu. (Platão diria: os jovens não usam a parte da alma ligada aos apetites ou a parte ligada à razão, mas sim o timos).

A maioria de nós se esquece do tipo de sentimento que teve na juventude diante do que se pode chamar de liberdade! Conseguimos fazer isso porque, de certo modo, com o tempo, aquele desejo de sermos reconhecidos perde sua força selvagem. A fuga da realidade sem que parte da realidade desapareça é algo que, quando jovens, achamos possível de fazer acontecer, mas esse sentimento também desaparece na vida adulta. Todas as drogas prometem isso tudo, que vamos ser reconhecidos rapidamente e que vamos escapar parcialmente da realidade. O preço quase que imediato que os jovens pagam por acreditar nisso é claro: os outros logo percebem que a poção produziu o Ideafix que, em parte, já existia ali mesmo naquela alma.

Drogas como o álcool enganam menos. O bêbado fica muito chato e rapidamente é descartado por todos. Drogas como a cocaína e outras mais fortes alteram o comportamento de modo variado, elas ampliam demais a irresponsabilidade e a propensão para a violência – física ou simbólica. Essas drogas, como o álcool e a cocaína, recebem da sociedade uma atenção maior, exatamente por causa dessa sua visibilidade.

A maconha não. Ela corrói aos poucos e o usuário fica apenas um pouco risonho no começo do uso e, depois, crescentemente lerdo. Três anos de consumo semanal regular cria uma pessoa visivelmente menos produtiva, desmemoriada, com falta de capacidade de concentração e baixa libido. As coisas começam a não dar certo na vida do consumidor, e isso não só pelo seu gasto na manutenção do vício, mas, supondo que ele não vá para uma droga mais forte (o que é fácil ocorrer), também e principalmente porque ele já “queimou” o cérebro, especialmente a memória. Todavia, ele não percebe isso. Inclusive, quando percebe, jura de pé junto para ele mesmo que pode parar e que, em poucos dias, logo em seguida estará “a todo vapor”. Não estará.

Aliás, o consumidor de maconha não perde a oportunidade de tentar exibir sua inteligência, mostrando o quanto é douto – exatamente expondo um proselitismo “político” e “médico”, advogando o consumo da maconha. Isso é insuportavelmente chato. Um jovem de extrema direita ou um jovem comunista são tão chatos quanto um evangélico fundamentalista, mas eles não superam o consumidor de maconha que faz o proselitismo a respeito do quanto a maconha ou é inofensiva ou é a salvação do mundo (vocês encontrarão esse tipo nos comentários a este texto).

O pior ainda são aqueles adultos que confundem tudo. Olham para Fernando Henrique Cardoso, que vem propondo uma discussão sobre o uso legal da maconha, e fazem cara feia. Não entendem que o ex-presidente não está falando a partir do drama de cada um, mas a partir de quem foi chefe de Estado e sabe muito bem que o gasto de dinheiro e energia no combate ao tráfico de drogas é em vão. Gente como FHC sabe que devemos mudar, e quer conversar sobre como mudar. Nós podemos compreender isso, caso não sejamos burros, pois nós temos a experiência com o álcool: só o controlamos porque ele é legal. Quando ele foi ilegal, nos Estados Unidos, por exemplo, ele gerou o gangsterismo.

Bem, mas enfim, se nossos filhos estão a meio passo da droga, o que é possível de ser feito?

Quatro atitudes ajudam um pouco. A primeira atitude é procurar conhecer a personalidade do filho. Saber que ele é um fraco em algum aspecto (ou que algo o está enfraquecendo), e que por mais tolo que isso pareça, esse detalhe pode levá-lo a buscar a poção dos gauleses. A segunda atitude é não perder a oportunidade de levar o filho para ver a realidade dos drogados em hospitais, clínicas e na rua – um bom tratamento de choque. A terceira atitude é a vigilância. Não se descuide, porque o pré-adolescente só não é mais tolo porque a taça fica com o adolescente. Conhecer o filho implica em conhecer o ambiente que ele frequenta e os amigos que ele tem. Quarta atitude: o exemplo em casa – se você tem vícios, tome cuidado, seu filho pode seguir seu exemplo, inclusive de modo mais complexo, porque você não sabe a propensão que ele tem, quimicamente, para ceder mais fácil.

Essas atitudes são para você cujo filho não é viciado – ainda. Elas não servem para quem já está no vício. Sou filósofo, não fazedor de milagres.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

PS: Em um livro recente, Filosofia política para educadores (Manole, 2013), tentei conversar sobre o assunto das drogas falando da “máquina de Nozick”. Trata-se da ideia de uma máquina imaginária que é coligada ao cérebro e que recria uma vida falsa, totalmente feliz. Nozick diz que mesmo para os sofredores, entrar na máquina para todo o sempre, sem nunca poder voltar, seria uma proposta aceita por poucos. Ora, a droga é a máquina, mas com a promessa de que se pode voltar para o mundo real quando se desejar. Todavia, a máquina não pode prometer isso. Pois, se ela permitisse a oscilação, o homem coligado a ela logo desconfiaria que uma das duas realidades vividas teria de ser falsa. Afinal, não sabemos como, mas sabemos que sonhamos. Sabendo que uma das realidades é falsa, o efeito da máquina iria perdendo sua eficácia. Veja essa discussão no livro e amplie sua discussão sobre o assunto das drogas, legalização etc.

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