Lição filosófica: Fé e razão não precisam ser tomadas como inimigas uma da outra

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Há duzentos anos, nascia Denis Diderot, um expoente do pensamento ainda vivo que opõe filosofia e religião

Nesse mês de outubro, nós filósofos comemoramos duzentos anos de nascimento de Denis Diderot (5/10/1713 – 31/08/1784). Entre os iluministas franceses, talvez ele tenha sido o mais radical, ao menos em matéria de religião. Ele foi um materialista e ateu convicto. Devemos mais a ele que a todos os outros autores da Enciclopédia a ideia de que a fé se opõe à razão, e então tem de ser tratada como inimiga da filosofia. Esse pensamento teve e tem sua utilidade ainda hoje, no entanto, como tudo na filosofia, ele precisa ser entendido com cuidado. Quando radicalizado, tal doutrina pode gerar uma incompreensão a respeito da própria filosofia.

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Na história da filosofia, razão e fé nem sempre estiveram em campos opostos a ponto de se poder sugerir uma completa inimizade. Muito menos religião e filosofia.

No começo do cristianismo, vários dos depois chamados “primeiros padres da Igreja” vieram para os Evangelhos após uma peregrinação por escolas filosóficas tipicamente helenistas. O trajeto de Justino de Roma, contado por ele mesmo, talvez seja um dos exemplos mais célebres e conhecidos a esse respeito.

Justino viveu uns cento e cinquenta anos depois de Jesus. Em seu “Diálogo com Trifão” ele deixou registrado seu “caminho em busca de Deus”. Este caminho, para ele, era filosófico por sua própria natureza.

Falando de seu itinerário intelectual, ele conta que inicia tendo como mestre um filósofo estoico, e que passa um bom tempo com ele. Desiste desses ensinamentos porque percebe que este não o encaminharia para o conhecimento de Deus. Procura então um peripatético. Ele permanece uns dias com esse novo mestre e então nota que o homem queria dinheiro. Toma-o então, por isso, como um não filósofo, e se afasta. Em seguida, busca ingressar na escola de um pitagórico. Mas este cobra dele um bocado de pré-requisitos, como o estudo da música, da astronomia e da geometria.

Ora, só depois de uma vida toda poderia começar a pensar sobre o belo e o bom em si mesmo. Tomando tal espera como ridícula, bandeia-se para o lado de um platônico. Este o ensina a doutrina das ideias puras, e ele acredita, ao menos por um tempo, estar no caminho correto. Mais cedo ou mais tarde, ele esperava, chegaria o momento que “contemplaria o próprio Deus”. Passado mais tempo, avalia que só a sua estupidez poderia tê-lo feito acreditar nisso. Ao final, encontra um homem solitário, e este sim, após submetê-lo a um exercício quase que socrático, de modo a leva-lo a perceber sua ignorância, lhe indica um real novo caminho. O homem diz para ele que o melhor seria “ouvir os profetas”.

Ora, “ouvir os profetas” poderia simplesmente não ser uma frase entendida por alguém exclusivamente educado na cultura clássica. Os gregos clássicos não tinham em sua cultura essa prática. Nunca os oráculos fizeram o papel de emissores de profecias, como de vez em quando lemos em textos didáticos por aí, bem equivocados. Os oráculos propunham um enigma, algo que levava à reflexão. Os profetas, por sua vez, pertenciam a uma outra cultura, vinham do âmbito da vida judaico-cristã. O que anunciavam dizia respeito ao que os homens confiantes em suas palavras, os homens de fé, deveriam esperar. Os profetas falaram da vinda de Jesus. Este, então, cumpriu profecias e traçou o caminho para Deus, o caminho que era ele próprio.

Quando lemos esse relato de Justino, não podemos deixar de notar algo estranho. Ouvir os profetas e, portanto, adentrar não somente em mais uma escola filosófica, mas enveredar por uma nova cultura ou, como é dito hoje em dia, começar a pensar por meio de um novo paradigma, não poderia ser algo completamente tranquilo para Justino. No entanto, o modo como ele expõe sua narrativa, nos faz ver a inexistência de qualquer estranheza. Justino sabe da diferença e da cisão, mas ele não exagera, no seu relato, o salto de um modo de pensar ao outro. De certo modo, ele demonstra uma prática que, após Diderot e a Enciclopédia, nunca mais conseguimos levar adiante sem um grande drama: pode-se passar das filosofias reflexivas para uma doutrina de fé sem que isso signifique um trauma ou um entorpecimento. Justino mostra que é exatamente isso que ele fez: uma passagem, não um salto alienante e alienado.

Ouvir os platônicos e aprender o procedimento da contemplação, Justino entendia bem, nada tinha com ouvir os profetas. No entanto, ouvir os profetas não era algo absurdo diante de ouvir os platônicos. Causava menos estranheza para ele a diferença entre aprender o que vinha do helenismo e aprender o que vinha do judaísmo cristão que essa mesma diferença nos causa hoje.

Tornamo-nos modernos, entre outras coisas, porque, diferentemente de Justino, pudemos descredenciar uma prática profética, sensível à fé, em função da adoção de uma prática reflexiva, montada na sela da razão. Mas, hoje, sendo inteligentes, deveríamos notar que a não hierarquização exagerada entre filosofia helenista e outras filosofias, como no trajeto quase linear de Justino, é um elemento central para desconfiarmos que fé e razão não só se opõem, mas se complementam. Não refletimos sem acreditar e não acreditamos sem refletir.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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