Mesada de criança não ensina nada que presta - não seja mais um pai errado!

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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Maior pecado de um pai é apostar na educação fornecida pela justiça e fomentada pelo mercado, defende filósofo

Não propriamente a história, mas a filosofia nos ensina que os antigos regravam suas relações pela honra, enquanto que as relações entre a cidade e seus habitantes eram regradas pela justiça. Por obra do cristianismo, a honra perdeu espaço para a bondade. A relação entre a cidade moderna e os seus cidadãos continuou regrada pela justiça, mas as relações interpessoais, principalmente a vida interna às famílias, tornou-se palco da bondade.

Thinkstock/Getty Images
Com mesada, perde-se aprendizado do afeto, da confiança e do amor, afirma Ghiraldelli

Estamos acostumados a exigir justiça quando lidamos com elementos que não envolvem nossos filhos, mas, quando as coisas se passam com os nossos filhos, queremos que tudo se faça do modo que fazemos em casa, ou seja, que exista o perdão, o voto de confiança e, principalmente, o olhar bondoso.

Vivemos bem assim. Temos mecanismos de acomodação entre a bondade que rege a vida familiar e a justiça que rege a vida pública. Nesse esquema, a esfera do “ganhar dinheiro”, especialmente no mundo moderno, pertence à cidade e é regrada pelo mercado e pela justiça. A esfera dos “laços familiares” é regrada pelo afeto, pela bondade, pelo que é, ao menos em princípio, a antítese do mercado, do dinheiro e, enfim, da justiça. É conveniente quebrar esses limites entre a cidade e a família?

Quando um pai sente a necessidade de lidar com os seus filhos não mais com o afeto, o amor e a confiança, mas com regras da justiça e do mercado, de duas uma: ou ele não sabe bem o que está fazendo ou sua casa já não é um lar, mas apenas uma extensão da cidade. No segundo caso, ele é uma vítima. No primeiro caso ele é um pecador ou um idiota.

O maior pecado que um pai pode cometer, ao menos no Ocidente, é achar que a melhor educação que ele pode dar aos seus filhos é a educação da rua, ou seja, a fornecida pela justiça e a fomentada pelo mercado. Esses elementos regram uma parte da vida, mas não são (e não podem ser) os construtores responsáveis pela melhor elaboração da subjetividade humana. Esta, por sua vez, dependente fundamentalmente de uma educação do campo próprio do lar, o campo em que a justiça perde para o amor e o dinheiro perde para as necessidades de cada um.

Uma sociedade em que um pai é um patrãozinho que dá mesada para os filhos, e os pune com cancelamento de dinheiro por conta de supostas ou reais faltas, tem tudo para se transformar numa grande merda. A merda em que o dinheiro e a justiça não têm mais paradeiro, ultrapassando a soleira da porta e arrebentando com tudo que se pode entender como sendo a família. Perde-se aí o aprendizado do afeto, da confiança, do amor. Tudo o que hoje nos faz nos consideramos melhores que os brutos, ou seja, o que nos faz nos orgulhar de dizermos “somos humanos”.

Enquanto escrevo isso, alguns já estarão reclamando de mim, porque estou contrariando um pai descabeçado que foi aclamado na Internet por regrar os filhos de acordo com uma tabela de ganhos e perdas na mesada. Essas pessoas mais cedo ou mais tarde, talvez, se refletirem melhor, verão que estão erradas. Caso não refletirem e tentarem imitar o tal pai, descobrirão com feridas na pele que estiveram sempre erradas.

Não vou me furtar aqui de dar indicações de leitura para quem quiser aprofundar essa discussão entre a cidade e o lar: Filosofia política para educadores, e também Filosofia, amores e cia (ambos da editora Manole).

Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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