A mulher é culpada pela violência contra ela própria?

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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Feminismo precisa parar de dizer que mulher que se põe desejada pelo homem alimenta machismo, diz filósofo

A mulher brasileira é vítima de violência, mas ela não é vítima de uma violência produzida por um “machismo” de sua responsabilidade. Quando o feminismo diz que a mulher cria seu próprio algoz, ela ganha mais uma frente de batalha: além de lutar contra a violência milenarmente praticada contra ela, tem também de lutar contra a violência teórica e doutrinária do feminismo pigmeu.

Reprodução
Simone de Beauvoir (1908-1986), escritora, filósofa existencialista e feminista francesa

O feminismo pigmeu é assim chamado porque ele não cresce e não deixa crescer. Ele é um pensamento de pirraça, meio que adolescente. Quer dar medalha de “emancipação feminista” para a mulher somente se esta não mais quiser se colocar como alguém desejada pelo homem. Esse feminismo pigmeu não quer a mulher como mulher que decide, mas como uma adolescente que dá gritinhos contra a mãe se esta diz para ela coisas como “aprenda isso porque quando você casar ...”. Uma garota pode gritar ao ouvir isso da mãe. Todavia, passada a adolescência, ele entende a mãe e vê que querer casar é um desejo não só das mulheres, mas também dos homens. Ela percebe que a mulheres que trabalham e amam a profissão querem casar. Aliás, igual aos homens, que nunca deixaram de querer casar e jamais secundarizaram tal desejo. A menina cresce e aprende que casar e manter uma vida a dois implica em dominar um know how.

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A mulher se sente realizada ao ser atraente para um homem. O feminismo pigmeu não gosta disso. Novamente ele aparece com a medalha de “mulher emancipada” nas mãos, e diz para a mulher que ela só vai ganhar tal prêmio se passar a não mais viver para agradar o homem. Não entende que o homem também compra sua roupa ou corta seu cabelo em função de agradar a mulher. O feminismo pigmeu fala em machismo, mas o que na prática ele faz é, em certo sentido, achar que todos os homens são gays, ou seja, que os homens vivem para os outros homens. Mas não é assim. Há homens que vivem para outros homens sem serem gays, e há homens que vivem para suas mulheres, ou porque as servem ou porque querem ser desejados por elas ou as duas coisas.

Não estou dizendo que o feminismo pigmeu é um pensamento que masculiniza a mulher ou que tira da mulher a sua natureza. Nada disso. Essa crítica ao feminismo é tão cliché quanto a que o feminismo pigmeu propagandeia. O que digo é que esse feminismo pirracento não se dá conta que a mulher que quer ser desejada pelo homem, que lava a cueca do homem ou que fica do lado do filho-homem na briga dele com uma namorada, pode muito bem estar fazendo tudo isso conscientemente, a partir de deliberação própria. Pode estar agindo assim exatamente porque quer, não por qualquer determinação cultural ou ideológica.

O que o feminismo pigmeu não consegue compreender é que Simone de Beauvoir não deixou de ser feminista e não deixou de ser uma mulher independente ao falar para seu namorado americano que queria lavar suas cuecas. Os homens quando amam fazem por suas mulheres coisas consideradas muito mais degradantes que lavar peças íntimas seja lá de quem for.

Mas, então, o que podemos ter como feminismo que não seja o feminismo pigmeu?

Talvez fosse interessante pensarmos em situações anunciadas pelas últimas pesquisas sobre o Brasil: a mulher ainda ganha um salário inferior pelo mesmo trabalho do homem; as leis de proteção da mulher ainda não surtiram efeito na diminuição da violência doméstica; há no Brasil a estatística estapafúrdia de 15 mulheres mortas por dia por causa da violência doméstica ou coisa parecida. Um feminismo sério, adulto, precisa parar de dizer que uma mulher que se põe desejada pelo homem alimenta o machismo, e que isto é a danação da vida feminina no Brasil. Não é.

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É preciso criar um país em que a mulher seja respeitada não porque anda duro na rua, vestida de muçulmana, mas exatamente o contrário. A mulher brasileira tem de ser observada, cobiçada e desejada porque anda praticamente pelada na rua e porque, se quiser lava todas as cuecas dos homens que tiver, sem que isso tudo implique na ignorância, por parte de todos, de um ensinamento das mães para as crianças: “é para ver com os olhos e não com as mãos”.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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