O que é a política?

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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Pressão popular ajuda políticos a se lembrarem das responsabilidades que não poderiam esquecer, diz filósofo

Na origem das cidades do Ocidente encontramos basicamente duas histórias paradigmáticas. Uma grega e a outra romana.

A história da cidade grega é a história da reunião de grupos de pessoas para a troca comercial e, então, as decisões a respeito da proteção desse local. Nasce a polis. De polis temos “política”. A política é o cuidado com a polis, a cidade. Envolve os direitos e os deveres. Estabelece-se a legislação que diz o que faz um homem livre e um escravo, como é a educação do jovem, qual o lugar da mulher na cidade, como é a vida do estrangeiro que quer viver ali, como as profissões podem ser exercidas, etc.

Alexandre Moura/Futura Press
"Não há outra saída que não a da pressão popular", defende Ghiraldelli

A história da cidade romana é a história do desenvolvimento do acampamento militar que se torna, paulatinamente, fixo. Nesse caso, a palavra latina urbs denomina a cidade. De urbs temos “urbano”. Trata-se, antes de qualquer coisa, do espaço e do aparato material da cidade. A vida urbana é a vida no aparato arquitetônico que se estabelece em um lugar, e que, antes de tudo, demanda uma estrutura de saneamento básico, ruas e regras de trânsito e coisas desse tipo.

O grego pensou a política, o cuidado com a polis, como uma atividade de administração da vida espiritual da cidade. O romano, por sua vez, já tinha a vida espiritual organizada pelas regras da caserna, e o que precisava fazer para tornar o acampamento um lugar de vida menos nômade era construir o aparato físico do local, sua infraestrutura.

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Nossa mentalidade é a de cidadãos modernos, a gerada pelos habitantes dos burgos, os burgueses, ou seja, os que criaram e recriaram as cidades no poente do mundo medieval. Mas os burgueses copiaram muito do passado clássico, greco-romano. Agruparam o cuidado espiritual e o material do burgo sob o nome de “política”, no entanto, assim agiram sem apagar a dualidade. Temos governantes atentos à geografia da cidade, e então se preocupam com a arquitetura, o trânsito e o saneamento. Temos governantes mais voltados para às escolas, museus, eventos, salários dos professores, formação de cidadania, etc. O discurso classista, típico da vida moderna, se sobrepôs a essa dualidade, mas não a anulou.

Nossos governantes, infelizmente, não são só desses dois tipos. Há os que são preocupados única e exclusivamente em serem governantes mais de uma vez e em mais de um lugar. O sociólogo alemão Max Weber foi quem melhor identificou essa característica da vida moderna, a de certas instituições que passam a se interessar antes em ficar no mundo que em realizar as tarefas pelas quais vieram ao mundo. A política dos políticos modernos pode realmente se transformar nisso: tudo o que é necessário é alimentar “o caixa”, seja em termos de apoio empresarial, espaço televisivo ou dinheiro vivo, para que nas próximas eleições o político continue político.

É impossível na democracia liberal quebrar essa prática nefasta de sobrevivência política. Mas é possível tentar diminuir seus efeitos. A pressão popular (e às vezes a guilhotina) ajuda os políticos a se lembrar do que não poderiam esquecer. A legislação deve colocar limites nas válvulas que permitem que a robustez do político ganhe mais importância que a robustez que se desenvolve no cuidado com o que é da urbs e da polis.

Um aviso: não há outra saída que não a da pressão popular. Todas as outras saídas envolvem a destruição da democracia liberal (seja menos ou mais aliada de algum tom socialdemocrata) e, portanto, o próprio fim da vida política.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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