Pais de assassinados, como as mães de Eloá Pimentel e Bianca Consoli, se unem para ajudar uns aos outros e praticam "terapia em grupo" em células pelo Brasil

Após uma morte trágica em um caso emblemático, familiares da vítima ganham os holofotes e são recebidos com compaixão pela sociedade. Mas, e quando o caso deixa de ser assunto na imprensa? Para Marta Consoli e Ana Cristina Pimentel, mães das jovens Bianca Consoli e Eloá Cristina Pimentel , assassinadas por Sandro Dota e Lindemberg Fernandes, respectivamente, a solução veio com a “amizade gerada na dor”, que serve de base para compartilharem o luto.

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Longe do assédio da imprensa e da abordagem de estranhos, Marta e Ana Cristina podem compartilhar detalhes sobre suas filhas, como manias que deixaram saudades. A amizade entre elas surgiu após reuniões da ONG Justiça é o que se Busca . Entre tantos familiares, no entanto, há poucas chances para o desabafo. A conversa, acompanhada com exclusividade pelo iG , foi gravada na última sexta (4), poucos dias antes do aniversário da morte de Eloá, que completa cinco anos na próxima semana, dia 18. Assista ao vídeo:

(Videorreportagem de Wanderley Preite Sobrinho, iG São Paulo)

Missas, homenagens, manifestações e júris passaram a fazer parte do calendário das famílias marcadas por famosos assassinatos. “Juntos na mesma luta”, definiu Marisa Rita Riello Deppman, mãe de Victor Hugo Deppman , de 19, morto em uma tentativa de assalto na porta de casa , em abril deste ano. “Só quem passa por essa dor sabe o que o outro sente. Mesmo simpatizando com a causa, ninguém sabe a dimensão do sofrimento. Dividir o luto com quem passou por isso é uma terapia em grupo”. O crime que vitimou Victor completa seis meses nesta quarta-feira. "A dor só aumenta e a saudade é insuportável", disse José Valdir Deppman, pai do estudante.  

Condenados:
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Na passeata pelo 20º aniversário do seu filho, Marisa acabou surpreendida com a presença de outras famílias, como a de Mércia Nakashima , morta pelo namorado aos 28 anos, em 2010. E logo decidiu retribuir. “Após a morte do meu filho, participei de um julgamento no Guarujá [litoral de São Paulo]. Entendemos [ela e o marido] que precisávamos dar o nosso apoio”.

A presidente da ONG Justiça é o que se Busca é uma das responsáveis por esses encontros. Embora não tenha ligação direta com uma tragédia, a representante comercial Sandra Domingues dedica parte do seu tempo para organizar passeatas e acompanhar julgamentos pelo País. “O grupo começou tímido, mas logo alcançou proporções que eu não esperava”.

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Atualmente, pelo menos 400 famílias se relacionam por meio da ONG. E o projeto de Sandra inspirou outras associações em ao menos cinco Estados. São eles: Espírito Santo (Movimento Justiça Brasil); Paraíba (Mães na dor); Mato Grosso (Associação de Familiares Vítimas de Violência - AFVV); Pará (Movimento pela Vida - Movida) e Rio de Janeiro (MOBEM - Basta com Erros Médicos). 

“É difícil encarar que vítimas não encontram o mesmo apoio jurídico e psicológico que o Estado oferece aos criminosos. No grupo, as famílias conseguem suprir essa falta. Os que já conseguiram condenação [como Marta e Ana Cristina] se sentem na obrigação de dar suporte aos que pensam em desistir”, disse Sandra. Esse apoio vai desde a hospedagem gratuita em tempos de júri ou um abraço compartilhado. Os encontros fixos da ONG são mensais durante as missas das almas, no último domingo de cada mês, e em momentos de confraternizações.

Perda da identidade

Uma mistura de choro e riso. É assim que Marta define os encontros com os amigos com quem divide o luto. “Nossa vida serve agora para dar voz aos filhos que perdemos. Nós os representamos agora”, explicou. Por isso, é comum presenciar familiares chamando uns aos outros pelo nome com menção às vítimas. Ana Cristina, Janete, Marta e Marisa ganharam novos papéis e passaram a ser tratadas como mãe da Eloá, mãe da Mércia, mãe da Bianca e mãe do Victor.

Carolina Garcia / iG São Paulo
"Nas ruas, não sou a Ana Cristina. Sou a mãe da Eloá", disse durante encontro gravado pelo iG

Apesar das tristes perdas, as reuniões exaltam os bons momentos que viveram ao lado dos filhos, que mesmo tão distantes – entre cidades da região metropolitana e capital – apenas se comportavam como adolescentes. “É ótimo ver que a minha Eloá era tão levada como a Bianca [Consoli]”, definiu Ana Cristina. “Se eu descuidava, ela comia Nutella direto do pote”, completou Marta aos risos. A mãe de Eloá então sorriu e completou: “O que eu já encontrei de latinhas de leite condensado no guarda-roupa...”.

Aos olhos da psicologia, a troca de experiências e sentimentos é positiva durante o processo de luto. Para Maria Julia Kovács, coordenadora do laboratório de estudos sobre a morte do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), “o processo de elaboração é individual, mas atividades coletivas ajudam a criar um sentimento de troca”. A necessidade de que a memória se mantenha viva é entendida a partir do histórico violento dos casos e do alto índice de impunidade. “Mas é importante que se mantenha também a identidade dos enlutados pelo nome, profissão e características pessoais, e não só como mãe ou pai de vítima”, disse.

'Bolsa-vítima'

O cenário de fragilidade e abandono vivido pelas famílias é tema do projeto de lei do vereador Masataka Ota (PSB). O político, que teve o filho de oito anos assassinado em 1997, criou o Fumdav (Fundo Municipal de Assistência às Vítimas da Violência). E a demissão de Valdir Deppman, pai de Victor, apenas 20 dias após a morte do filho deu mais força ao projeto.

De acordo com o texto, as famílias cujos parentes tenham sido vítimas de assassinato ou latrocínio receberiam bolsa-auxílio de R$ 971 mensais por um ano, além de assistência psicológica e apoio para reinserção no mercado. O texto passou por aprovação na Câmara Municipal de São Paulo e enfrentará uma segunda avaliação antes de ir à sanção do prefeito Fernando Haddad. Segundo a assessoria do vereador, o projeto deve ser aprovado até o fim do ano.

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