Críticos descrevem membros e simpatizantes como vândalos e baderneiros que depredam o patrimônio público

BBC

Acusados de "sequestrar" os protestos dos professores no Rio de Janeiro na noite de segunda-feira, os Black Blocs, como são conhecidos os manifestantes que usam roupas e máscaras pretas e costumam empregar táticas polêmicas, têm dividido a opinião pública no Brasil.

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Manifestante durante protesto no Rio de Janeiro
Rafael Puetter
Manifestante durante protesto no Rio de Janeiro

Os críticos descrevem os membros e simpatizantes do grupo como vândalos e baderneiros que depredam o patrimônio público e privado, incluindo ataques contra agências bancárias e prédios do governo – como a tentativa de incêndio na sede da Câmara Municipal de Vereadores do Rio.

De acordo com as autoridades locais, além dos ataques à Câmara, pelo menos nove agências bancárias foram depredadas, um ônibus foi incendiado e outros dez também foram atingidos. Prédios foram pichados, e outros estabelecimentos comerciais também foram danificados, incluindo o Consulado de Angola.

Mas há também os que defendem o resultado das ações do grupo, argumentando que, embora discutíveis, elas aumentam a pressão sobre as autoridades e chamam a atenção do país e do mundo justamente para as manifestações que são acusados de "sequestrar".

Formado em Rádio e TV, o produtor de vídeo e ativista Rafael Puetter, de 27 anos, é um dos cariocas que saem em defesa do grupo, embora ressalte que, apesar de apoiar os Black Blocs, não recorre à violência quando sai às ruas do Rio.

Para Puetter, é vísivel que o número de manifestantes que aderiram às táticas do grupo vem crescendo nos últimos meses. Leia abaixo o depoimento ao repórter da BBC Brasil Jefferson Puff em que Rafael diz por que apoia os Black Blocs.

"Os Black Blocs no Rio de Janeiro são diferentes de qualquer outro lugar do mundo, e colocam em prática ações diferentes. Há universitários, mas há também pessoas sem-teto e muitos pobres.

Há muitos ali que não têm nada a perder e nem têm noções políticas sobre o que está acontecendo, mas agora todos estão em contato, e há uma interação e uma politização crescente.

Na Câmara dos Vereadores, na segunda-feira, já havia manifestantes dentro do prédio quando os Black Blocs chegaram. Elas pediram para que eles não começassem a depredar, já que a intenção era ocupar. Os Black Blocs nem sabiam que já havia gente ali dentro.

Em um dado momento alguém da ocupação disse 'olha, tem biscoito aqui, podem pegar', e muitos deles ficaram tão empolgados que chegaram a tirar os capuzes para comer, até na frente da polícia. Isso me chamou muito a atenção. Eram pessoas muito jovens e muito simples.

Eu acho que aqueles que não tinham o posicionamento político de um Black Block estão agora entrando em contato com outros que são bastante ativos politicamente, adquirindo mais conhecimento.

Há também pessoas mais velhas, mas com certeza a grande maioria é jovem.

É perceptível que eles são um grupo muito maior agora do que há quatro meses, quando começaram os protestos no país. No mínimo dez vezes maior.

Eu, pessoalmente, não uso as táticas dos Black Blocs, embora compartilhe basicamente as mesmas ideias. Eu respeito muito o grupo e tenho amigos pessoais que fazem parte e usam as estratégias deles.

Eu não quebraria nada, e nem atiraria pedras contra a polícia, mas acho que é uma ferramenta muito importante de resistência que acaba trazendo atenção para uma discussão que neste momento é muito maior do que vidraças quebradas.

Se os protestos estão se tornando mais violentos? Eu acho que eles têm sido violentos desde o início, especialmente levando em conta a ação da Polícia Militar.

Para mim, é difícil dizer para onde os protestos estão indo, mas olhando para o presente, é fácil ver que as pessoas não vão desistir. Quem vai para a rua não está desistindo, mesmo diante da violência da polícia.

O que vem por aí? Espero que coisas boas, mas a verdade é que as pessoas estão querendo mudanças, e as pessoas estão prontas para resistir e fazer essas mudanças acontecerem.

Eu acho que a relação das pessoas com os Black Blocs mudou muito nas ruas do Rio de Janeiro, especialmente depois da semana passada, quando os professores foram 'massacrados' pela polícia.

Os próprios professores têm agora defendido os Black Blocs, dizendo que eles ajudaram.

É importante ver também que eles são acusados de atos de 'vandalismo', mas as ações dos Black Blocs são sempre contra o patrimônio público ou privado, ou seja, prédios, e já a Polícia Militar ataca indivíduos, pessoas. É muito clara essa disparidade.

Eu vejo que, quando os Black Blocs agem como resistência contra esse massacre da população, acabam ganhando apoio.

Em junho, havia mais gritos de 'sem violência, sem vandalismo'. Na segunda-feira, a população aplaudiu quando eles chegaram."

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