Bárbara Evans quer filha diferente dela? Há clínicas especializadas nisso!

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG |

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Estamos à frente da ficção científica no que diz respeito à programação do comportamento das crianças, diz filósofo

A filha de Monique Evans não lhe deu metade do prêmio ganho em “A Fazenda”, como havia prometido? Monique se internou em uma clínica psiquiátrica por causa disso? A internação é por pirraça, chantagem emocional ou transtornos por desgosto real? Seja lá o que ocorreu o que não se pode negar no episódio é que estamos mais uma vez diante de um drama nada raro entre nós: conflito entre pais e filhos.

DIvulgação/TV Record
Bárbara Evans, milionária após "A Fazenda"

Estamos invariavelmente compromissados com os nossos pais e com os nossos filhos, senão culturalmente, por filiações genéticas. O filósofo alemão Peter Sloterdijk diz que a aquisição de um lugar próprio de cuidado com a prole foi um elemento que nos ajudou demais no processo evolutivo, de modo a nos distinguir do animal que fomos. Todavia, eu noto, já há algum tempo, que temos pensado em abrir mão da tarefa de manutenção da infância por nós mesmos.

Platão pensou em colocar os filhos nas mãos do Estado. Na modernidade alguns quiseram lê-lo de modo excessivamente político e o acusaram de “comunismo”, supondo, de maneira tola, que o comunismo faria isso com as crianças de modo a torná-las antes bons comunistas que boas pessoas. Na verdade, nunca o comunismo moderno sequer pensou nisso, nem em teoria e muito menos na prática. O que ocorreu no chamado comunismo real foi exatamente o oposto: na URSS durante muito tempo o problema maior é que os netos se tornavam mais conservadores que os pais porque tinham de ficar com os avós, deixando a força jovem trabalhar.

Nos Estados Unidos de antes da II Guerra Mundial, por obra de pessoas democráticas, pensou-se em melhoria das relações familiares e, é claro, na melhoria geral da nação, por meio dos processos de eugenia. Iniciativas nesse sentido declinaram ou simplesmente ganharam outros nomes após a eugenia ter adquirido a feição que adquiriu na Alemanha sob o nazismo. Não se pensava que a eugenia poderia se casar com o genocídio e com experimentos degradantes.
De uns anos para cá, antes nos Estados Unidos que na Europa, a chamada “eugenia liberal” reapareceu não mais só como teoria, mas decisivamente como um projeto prático e perfeitamente capaz de se inserir no mercado. A imprensa desses dias mostrou como que já há clínicas que oferecem aos pais a capacidade de programar geneticamente seus filhos para além de questões que envolvem futuras doenças, mas já selecionando características puramente estéticas, como cor de olhos, altura etc.

Sabemos muito bem que a estética corporal humana tem um cordão umbilical com a vida moral de cada um, portanto, não precisamos mais tempo para dizer que já estamos lidando com a programação de comportamento e de destino das crianças de um modo muito mais decisivo do que apareceu na ficção científica. Guattaca é de 1997. Mas é um filme do passado falando, agora, já quase do passado.

A ciência anda mais rápido que a filosofia. Não pode ser diferente. A Coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer. Mas é melhor avisarmos a Coruja: o poente está batendo na bunda – voe! Estamos já clonando e trabalhando com engenharia genética de uma maneira ousada.

Às vezes penso que essa necessidade atual de se falar em bioética a partir de um lugar separado da filosofia, não passe de uma maneira de deslocar a discussão da ciência para fora do domínio dos filósofos de uma vez por todas. Afinal, os filósofos são sempre acusados de retardar o desenvolvimento.

Políticos, empresários e cientistas querem nosso aval para fazer as coisas rápidas. Nós filósofos olhamos para a Coruja e ela responde que não vai levantar voo, que o poente ainda não veio. Não criamos então a racionalização esperada pelos empresários, políticos e cientistas, e eis que eles podem, muito bem, fazer a tendência de especialização dar mais passos. Eles dizem: “esse pessoal da filosofia é só professor, eles não querem se envolver na mídia com o debate bioético para valer”. E continuam: “melhor para nós, vamos criar um curso de graduação em bioética, com gente preparada para discutir as coisas tecnicamente, e de preferência como nós queremos que as coisas sejam discutidas. Que venha logo a racionalização-justificação, por mãos confiáveis, sobre o que fazemos e vamos fazer”.

Não estou dizendo que nós filósofos somos os mocinhos da história toda. Mas, que há um trança pés aí no horizonte, de modo que Bárbara Evans possa ter a opção de gerar só filhos que não lhe neguem prêmios de “A Fazenda”, não podemos negar que há. A ciência e uma bioética que lhe é escrava podem estar querendo trabalhar sem reflexão na tarefa de garantir a Bárbara Evans que no seu futuro, como mãe, ela não receba uma vingança do destino.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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