O que é ser inteligente?

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG | - Atualizada às

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Filósofo explica como Sócrates se tornou o primeiro a desenvolver o conceito moderno de inteligência

Há quem avalie alguém como inteligente quando escuta desta pessoa justamente o que se quer ouvir. Nesse caso, ao chamar alguém de inteligente o que se faz nada é senão um descarado e acrítico autoelogio. E isso é pouco inteligente.

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Gênios precisam ser contestados

Para os americanos a inteligência está ligada à capacidade de resolver problemas. Todavia, há quem diga que o inteligente não precisa solucionar problemas, que ele já manifesta inteligência quando equaciona bem o problema e, então, formula boas hipóteses para a sua possível solução. Isso tem lá sua verdade, no entanto, nessa situação, devemos distinguir alguém inteligente de alguém mais inteligente ainda, o indivíduo genial.

O genial é aquele que pressente que tanto o problema quanto as hipóteses deveriam ser deixados de lado, que talvez fosse mais interessante formular um novo problema, segundo uma alteração de vocabulário e até mesmo de interesse. Esse tipo é aquele que, do ponto de vista da história da ciência na linha de Thomas Kuhn, pode ser o responsável pela emergência de um “novo paradigma”.

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Os inteligentes aproveitam muito o ensino formal, escolar e regular. Os gênios às vezes descuidam dessa formação, mas acabam por se voltar para ela em algum momento, mesmo que de um modo pouco disciplinado. Mas, tanto um quanto o outro não fazem absolutamente nada se não há uma massa de pessoas que são inteligentes também, mas que não são nem brilhantes e nem gênios. Isso por uma razão simples: toda filosofia e toda a ciência é coletiva. Ela não surge em terreno inóspito e não se faz sem conversação com pares. O autodidatismo de idiotas, que é o único autodidatismo que existe, em geral é defendido também por idiotas. Os gênios, as pessoas brilhantes e as pessoas inteligentes precisam colocar suas formulações no banco de provas, e para isso precisam de pares. Procuram esses pares na escola ou em algum lugar semelhante, para o diálogo frutífero. O saber científico depende de uma comunidade científica e o trabalho filosófico é nitidamente, desde sua origem, um trabalho de grupo, ou melhor, de confraria.

O gênio e o brilhante precisam ser contestados antes que contestar. Os idiotas não. Eles já possuem certeza de tudo. Por isso, aprendem errado o que leem e passam uma vida errados, pois não se submetem à conversação e nunca sabem que podem estar errados. Dão aulas, não recebem aulas. Falam, mas não ouvem. Não sabem aquilo que qualquer um simplesmente inteligente sabe: que a besta solitária, mesmo quando acerta, acaba só reinventando a roda. O idiota desse tipo é sempre sabichão e, não raro, tem seguidores.

Os filósofos e cientistas são orgulhosos e humildes ao mesmo tempo. São orgulhosos porque percebem, exatamente na conversação com os pares, que acertam. São humildes porque desejam ansiosamente a conversação com os pares, sabendo claramente que dependem deles para por de lado certos enunciados, aceitar outros e, também, criar novos.

Nem a ciência e nem a filosofia são propriamente campos de debate. A política é campo de debate. O idiota transfere o debate, próprio da política, para o campo da ciência e da filosofia, e passa uma vida, quando muito, fazendo erística, e imaginando que pode fazer alguma coisa no campo da criação do conhecimento. Não pode. A erística trabalha com o debate e, por isso, com a retórica. Trata-se da convencer os que estão ao redor da disputa, de modo a isolar a opinião do outro debatedor, utilizando-se de técnicas que até podem ser sofisticadas, mas que em geral são simples – às vezes simplórias. Diferente desse método erístico, Sócrates ensinou um outro procedimento, o elenkhós (a maiêutica não é um método, apenas uma metáfora tirada de um procedimento, o trabalho da parteira).

Para o leigo o elenkhós pode dar a impressão de ser uma erística. Muita gente em Atenas nunca conseguiu distinguir o que Sócrates fazia do que os sofistas faziam. Não distinguiam porque não viam que o elenkhós, que significa nada mais nada menos que “refutação”, não trabalha no sentido da refutação do outro, mas da refutação de enunciados que o próprio Sócrates colocava e que eram endossados sinceramente pelo outro a pedido de Sócrates. Desse modo, a refutação, quando vinha, não caía nas costas do outro, mas nas costas de ambos. O elenkhós nada era senão uma refutação conjunta de algumas teses postas conjuntamente, desse modo, o que Sócrates fazia era uma investigação, não um debate. Sócrates não era um debatedor, ele tinha desprezo por esse tipo de gente.

Quem lê qualquer diálogo platônico do chamado “primeiro período” percebe logo isso. Mas não basta ler, é preciso ler e participar da confraria dos filósofos. Porque só assim se entende o funcionamento do elenkhós não como um método frio, mas como uma forma de conversação que, na base, depende de completa sinceridade dos envolvidos. Essa postura é obtida de modo ótimo quando se está no campo da filiação. Filiação vem de “philia”, de amizade. “Philia” conduz à palavra “philo”, que reunida com a palavra “sophia”, que é saber ou sabedoria, pode gerar a palavra “philosophia”, que é a amizade ou amor pelo saber. Amor pelo saber à medida que se ama quem tem amor pelo saber. Ou seja, há aí um gosto pela atividade conjunta de pesquisa, que se faz na colocação de frases que se aceita e que, então, se trabalha para ver se elas se sustentam conjuntamente ou não.

Sócrates não considerava esse seu procedimento como uma forma de ensino, mas um procedimento filosófico de aprendizagem. Por isso ele nunca se viu como professor ou mestre, somente como filósofo. Sócrates foi o primeiro entre os ocidentais que, com sua prática, nos mostrou o que é ser inteligente em um sentido amplo e ao mesmo tempo moderno.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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