Ana Paula Arósio não quer comer pastel e nem tocar flauta!

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Filósofo defende o direito de privacidade da bela Ana Paula Arósio, reclusa em uma fazenda no interior de São Paulo

Carmem Lúcia era uma garota linda. Ela era branquinha, seus cabelos longos eram mais ou menos loiros e tinha os olhos que lembravam suavemente uma expressão asiática. Sua boca era sensual mesmo sem batom. Ela gostava de mim. Começamos a namorar, mas ela me achava criança. E eu era mesmo! Tinha quatorze anos e ela dezesseis. Todavia, eu conseguia comer um pastel na frente dela, enquanto que ela não conseguia realizar tal proeza. Mastigar um pastel podia sujar a boca e, pior, obrigar o rosto a fazer caretas. Era uma vergonha para uma moça uma coisa dessas. Estávamos em 1972.

Divulgação
A atriz Ana Paula Arósio

Vi uma vergonha igual com o general Alcibíades. Ele não tocava flauta. Tocar a flauta o faria ter de fazer a bochecha ganhar alguma deformidade. Ainda que só por instantes, isso macularia sua beleza. Inclusive, ele dizia que povos cujos homens tocavam flautas eram povos imbecis. Não sabendo conversar, os homens precisavam manter a boca ocupada com outra coisa, algo que lhes desse uma desculpa para se acreditarem civilizados. Essa atitude esquisita do general grego, que fora discípulo mal sucedido de Sócrates, não era uma sua exclusividade. Já havia sido adotada também por uma deusa, pelos mesmos motivos. Li isso muito tempo depois de 1972 e, recentemente, li de novo, por causa de um escrito sobre a vergonha em Sócrates.

Que vaidade a da Carmem Lúcia e a de Alcibíades. Que vergonha de tipo infantil. Mas, enfim, que vergonha duradoura no Ocidente! Durantes séculos fomos ensinados a nos comportar comedidamente, sem gestos faciais que pudessem nos comprometer com máscaras teatrais. Por isso mesmo, por a língua para fora era uma ofensa sem tamanho. Piscar era um gesto francamente de sedução, só possível de ser executado por uma prostituta. Sorrir de modo largo, um impedimento para moças de boa família. Soltar os cabelos, isso as garotas só podiam levar adiante em situações especiais. Uma geração antes havia queimado sutiãs, mas não tinham conseguido mudar o meu mundo.

As mulheres tinham de ser recatadas. E isso era sinônimo de recolhidas. Uma mocinha não tinha que ser vista na rua todos os dias. Somente em fins de semana. Durante os dias de semana, que fosse vista indo e voltando da escola. O direito à reclusão era sagrado. Tão sagrado que muitos pais punham isso para as filhas como um dever. Por isso, até mesmo os artistas da TV tinham vida particular real. Estranhávamos a exposição exagerada já existente nos artistas da América.

Esse mundo da careta proibida desapareceu. A Banda Kiss chocou o mundo com aquela baita língua percorrendo os palcos. Tudo que era solidamente constituído desmanchou-se diante de flashes. Ninguém mais iria se esconder e a vergonha pereceria - aí estava o destino traçado quando a TV começou a ser fazer profissional no Brasil. Assim, quando veio a Internet e, depois, as redes sociais, duraram poucos meses o estranhamento de alguns com o total fim da privacidade. Hoje todos tocam flautas diante de todos e todos comem pasteis diante de todos.

Por isso mesmo, se Ana Paula Arósio está deprimida e reclusa, isso é incompreensível. Dizem por aí: “linda, boa atriz, mas com chiliques”. Como não estar todos os dias diante de todos, comendo pasteis e tocando flauta? Ninguém tem o direito à privacidade e justamente uma artista, e ainda por cima bela, quer ficar escondida? Quem ela pensa que é para não fazer sexo em público? Que idiossincrasia seria essa, a de uma moça bela que vai para uma fazenda se esconder entre cavalos, enquanto deveria estar aqui, entre nós, mostrando sua bunda provavelmente branquinha?

Em algumas boates europeias os telões já não apresentam cenas de sexo, mas cenas interiores de órgãos sexuais e órgãos que podem servir como sexuais. Como que alguém ousa não ver o pastel não sendo comido, mas digerido?

Num mundo em que todo mundo é big brother do outro, o que a Ana Paula Arósio está imaginando que é? Será que ela acredita que é uma deusa para jogar a flauta ou a bela Carmem Lúcia, a Carminha, para se envergonhar com o pastel nas mãos? Está louca a Ana Paula? Deve estar! Precisa urgentemente de um corretivo. Ouço a imprensa dizendo isso.

Nossa sociedade ainda vai construir túmulos de vidro, acreditem.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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