Filósofo opina sobre como a politização se transformou em exatamente no que há de mais tristemente doentio em nossa vida cultural

Um terrível plutoniano chega ao nosso planeta e diz que sua missão é a de explodir as principais capitais do mundo. Trata-se de uma vingança por termos tirado Plutão da condição de planeta. Ele diz que isso será feito em nome da esquerda, para eliminar a direita, e os de esquerda aqui entre nós o apoiam como quem faz justiça. O marciano conversa com o Lobão e então diz que irá explodir tudo, mas para eliminar a esquerda, e os terráqueos de direita o apoiam como quem combate a corrupção.

Fim da ficção que é a nossa verdade diária. Começa a verdade diária que gostaríamos que fosse ficção.

Há quem ache interessante publicar na imprensa um texto de um garoto que não quer aprender Karl Marx na universidade, porque ele imagina que “é doutrinação”! Ele se diz liberal e, então, não quer aprender Marx, quer criticá-lo! Do lado oposto, uma garota processa uma professora por que esta determinou que ela lesse um blog racista. A garota disse que, como é negra, não pode analisar aquilo, pois se trata de “um site de defesa de um conteúdo que a ofende”.

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O texto do site não é um clássico, é um texto de senso comum. A professora queria mostrar para a aluna como o senso comum expressa o racismo pelas mídias contemporâneas. O texto de Marx é um clássico, o professor queria que o aluno tomasse Marx não por ser propositor ou não do comunismo, mas por fazer uma análise da mercadoria que teve inúmeras consequências para a filosofia, economia e sociologia.

As duas tarefas escolares são legítimas, inteligentes e propostas desse modo no mundo todo, nas boas universidades. Mas os alunos, pela politização, encontraram uma justificativa escrita para o que é a vagabundagem e a presunção calçada na confusão mental. Quando eu era garoto e não queria estudar, não ficava inventando essa bobagem toda para não fazer tarefa. Ia jogar bola e pronto. Agora não, agora há adultos que promovem esses bocós! Esses adultos, eles próprios, já são frutos da competição pela espiga de milho como taça.

O filósofo John Searle acusou certa vez alguns de seus colegas de colaborarem para um tipo de confusão na avaliação escolar ao se portarem como “relativistas pós-modernos”. Searle estava errado. O relativismo nada tem a ver com isso.

O que ocorre com os adultos que dão voz a essa mera vagabundice travestida de “consciência política”? Simples: eles até aprenderam a ler e escrever, mas não passaram pela escola de ensino médio que deveriam ter passado. É gente que chega à universidade sem conseguir compreender o que é uma tarefa escolar no ensino superior no campo das humanidades. Tomam tudo por um único crivo, que acham que é o crivo que distingue “quem sabe” de quem “não sabe”: a posição política. Acham mesmo que a posição política que defendem já lhes garante a condição de intelectuais.

Como chegamos a isso?

Ora, é claro que no Brasil essa situação tem a ver com a deterioração dos salários dos professores da escola pública, e é gravíssima. Todavia, esse fenômeno é mundial. Tem a ver com uma situação mais ampla.

Ao mesmo tempo em que os valores e práticas do humanismo se esvaíram, uma massa de pessoas que não tinha acesso às informações, agora com a internet estão podendo conversar diretamente não só com professores que deveriam ter tido, mas com filósofos, cientistas e homens ligados à cultura de ponta, que nunca veriam. Essas pessoas não entendem o que estão ouvindo e lendo. Estão se tornando adultas e estão participando de profissões específicas do mundo adulto atual, que lidam com a cultura, mas elas não sabem direito qual seria a função que teriam de desempenhar no trabalho em que estão.

A universidade tem brigado para se colocar no contexto dos novos meios de comunicação e mostrar aos jovens que o saber não é dado pela leitura solitária e aleatória de textos. A universidade - ou alguns dentro dela - ainda tem insistido consigo mesma na manutenção da ideia de “formação” como herdeira da Paideia, ou de Bildung. Formação como autoconstrução de uma imagem, de uma bela imagem, possível somente dentro de uma cultura especial. Trata-se da cultura especial que universidade tenta manter como um certo clima espiritual e moral.

O vetor contrário a esse esforço monstruoso da universidade em uma situação pós-humanista é a politização, especificamente da maneira como vem se definindo no mundo todo, como um saber mequetrefe e esquemático que pode substituir o saber enquanto conhecimento.

Há esse “saber” da política, vindo de esquemas fáceis, que parece ser instrutivo. As pessoas que sabem isso, atualmente, pensam que estão sabendo alguma coisa. Começam a acreditar, inclusive, que não precisam da escola porque já sabem algo que não é o mero saber profissional, que atribuem à universidade. Essa praga está avançando por todos os lugares. A politização se transformou em exatamente no que há de mais tristemente doentio em nossa vida cultural.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal http://ghiraldelli.pro.br

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