Filósofo fala sobre influências das relações de semelhança

Cover sempre fez sucesso. Todos nós acabamos dando uma espiadinha no cover para comparar com o original. Há o cover que prima por ser uma réplica e há o que se vivifica como cover, ou seja, se apresenta como alguma coisa do tipo “eis a minha versão de Fulano”.

Existe um concurso nos Estados Unidos, disputadíssimo e bem visto pelo público, que é só de covers de Elvis Presley. Não se trata de copiar Elvis, mas mostrar a criatividade de ser diferente de Elvis e, ainda assim, sensibilizar o fã de Elvis, que então deve exclamar: “nunca pensei em Elvis assim, mas ficou ótimo – gostei!”

Há também o caso da recém-eleita Miss Brasil, Jakeline de Oliveira, que tudo indica foi eleita por ser um tipo de sósia da atriz Bruna Marquezine. Quando há a semelhança por conta de uma performance temos entretenimento ou até arte. Mas, quando se trata de semelhança por semelhança, por capricho da natureza ou capricho do cirurgião plástico, muitos dizem que o mérito foi embora.

Essas relações de semelhança não são aproveitadas apenas pela indústria do entretenimento. O moderno marketing político sabe o que fazer com isso.

Quando Obama começou a despontar como possível candidato à presidência, um jovem americano meu amigo falou sobre ele nos seguintes termos: “ele parece um pop star e fala de um modo que nos agrada”. Por esses dias, a Fran, minha esposa e também filósofa, me chamou a atenção para essa ideia do “ele fala de um modo que nos agrada”. Agrada a quem? Fala como quem? E ela mesma logo deu a resposta mostrando-me um célebre vídeo: aquele de Luther King, “I have a dream”. A entonação da voz de Obama é mais que semelhante à voz de King. No modo de falar desliza uma canção que tem de embalar cada negro, cada liberal e, enfim, cada saudosista. Isso não foi decisivo para Obama vencer, mas foi importante na batalha interna, de modo a poder concorrer com alguém do tamanho político de Hilary Clinton.

Mas a semelhança entre Obama e o herói do movimento dos Direitos Civis não é a semelhança entre Jakeline e Bruna. Neste segundo caso, a semelhança se dá entre duas pessoas do presente. No caso anterior o elo é com alguém já falecido faz tempo, conhecido de boa parte dos eleitores americanos só por vídeo. Nesse segundo caso, fala-se às vezes de “reminiscências”. São lembranças que nos vem, mas não de um modo claro.

O mecanismo funciona mais ou menos assim, se verbalizado por um eleitor ideal bem atento a si mesmo: “Obama me traz a gostosa e acalentadora sensação de que o herói está de volta, e que novamente estamos nos movendo na direção correta”. Obama nunca disse que era um novo King. Mas não deixou vigente apenas a simbologia histórica pura, aquela que viria pela cor da pele e pela retórica em favor de direitos de minorias. É nesse momento que o marketing político muito provavelmente atuou. Pois é nesse momento que deve atuar. Tratava-se de aperfeiçoar os elos entre King e Obama até um ponto ótimo, ou seja, sem a falta e sem o exagero, de maneira que a tal “sensação gostosa de acalento” das reminiscências pudessem atuar sem travas. O marketing correto disse então para Obama: “já escutou King, não? Escute-o mais vezes!”.

Esse é o trabalho do marketing. Exatamente isso é o que incomoda a direita e a esquerda quando resolvem criticar o que chamam de “marqueteiros”. Ora, mas raramente fazem essa crítica no sentido de aperfeiçoar a democracia liberal.

“Marqueteiro” é sempre o candidato do outro, não o meu. O outro “tem dinheiro” e então vai enganar o eleitor com o serviço de “marqueteiros caríssimos”. O candidato do outro tem como convocar uma legião de provocadores profissionais de reminiscências. Eles serão como daimonions falando dentro do cérebro do eleitor ou, pior, massageando internamente o seu coração. Marketing é coisa do demônio.

Demonizar o marketing político é, antes de tudo, um ato profundamente pedante. É supor que alguém canta uma cantiga de ninar para nós e que, por dormirmos, somos imbecis que não podem descobrir que foi a cantiga de ninar que nos fez dormir. Todas as informações de que Obama tem traços de King estão disponíveis para os americanos. Aliás, aquilo que foi uma novidade para Fran e eu, muito provavelmente é uma banalidade nos Estados Unidos. Muitos já devem ter falado isso. Todavia, aquele que ataca o marketing político teima em dizer que não. Dirá que tudo foi feito pelas costas do eleitor. Ele é o sabichão que consegue desvendar isso que chama de “truque do marketing”, e imagina que todos os seus vizinhos são “o povo”, um “bando de ignorantes e alienados” que vota no escuro.

Ora, o marketing político tem o seu reino próprio na democracia liberal, que vem naturalmente casada com a sociedade de mercado. Nesse caso, aparecem os que irão nos salvar dos “marqueteiros” endemoniados produzidos por essa forma perversa de vida. (1) Eles são os sabidões que vão nos avisar que Jakeline não é Bruna Marquezine, e que, portanto, quando a primeira estiver pelada não adianta gritar porque ainda não é a segunda que está pelada. A democracia liberal nos faria todos de idiotas vítimas do marketing, de modo que erraríamos até nos objetos de apreciação erótica.

Quem são esses sabichões? São filósofos. Eles dizem isso. E inclusive comprometem a filosofia com essa tarefa, a de mostrar que sem eles não conseguiríamos nos masturbar para a pessoa certa. Bem, eu sou filósofo! Mas, pelo amor de Deus, masturbem-se para quem vocês quiserem.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ.

1. De um modo resumidíssimo: a esquerda diz gostar da democracia, mas fala que o problema é a sociedade de mercado; a direita diz que a sociedade de mercado é essencial, mas ou reclama da democracia, que ainda é insuficientemente liberal, ou porque é excessivamente permissiva).

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.