O ideólogo, o marqueteiro e o filósofo

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG |

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Colunista do iG fala sobre a confusão entre ideologia e filosofia que pode enveredar para a propaganda

Dizem que ideologia é o que está por trás de certas instituições ou pessoas. Não vejo assim. Ideologia o que vai à frente. As bandeiras representam o nacionalismo, é uma ideologia, e é o que vai à frente de navios e exércitos na guerra. Nas religiões, os símbolos, o que mostra a ideologia, é o que está no início das procissões. A ideologia é prima da propaganda, não tem parentesco com a filosofia. Esta, em geral, fica na retaguarda, tomando certa distância das instituições ou pessoas, até porque tem compromisso com a crítica e a autocrítica, e não com a ação imediata, portanto, não podem mesmo ir à frente.

Infelizmente, é corriqueira a confusão entre ideologia e filosofia. Os propensos a tal confusão acabam por enveredar pela propaganda. Curiosamente, a linguagem os trai, pois eles mesmos, de vez em quando, acusam os filósofos de serem propagandistas, marqueteiros.

Eis como age esse tipo de criador de confusão.

Há professor de filosofia que teima em apresentar cada filósofo carregando um único e pequeno conjunto de ideias. Às vezes chega a resumir tudo em um único bordão. Diz que faz isso para ensinar, mas aos poucos, ele mesmo acaba acreditando nesse didatismo barato, que cria uma descrição pouco inteligente. Transforma-se em doutrinário. Conta para seu público uma versão dos filósofos que é apenas marketing, propaganda, feito por ele mesmo, para depois chamar aqueles filósofos que não aprecia de marqueteiros. Há quem diga que isso é desonestidade intelectual. Acabo acreditando que não é bem isso, e que se trata de um feito de quem foi criado em um ambiente astuciosamente autoritário. Seminários e partidos políticos extremistas são lugares propícios para gestar figuras desse tipo.

Desse modo, segundo esse tipo de professor ou divulgador, Descartes aparece como “o filósofo da dúvida”, Nietzsche como “o filósofo do super homem”, Marx com “o filósofo do comunismo”, Habermas como “o filósofo do agir comunicativo”, Pascal é “o filósofo da aposta”, Rousseau é “o filósofo do bom selvagem”, os frankfurtianos são “os filósofos da indústria cultural” e assim por diante. Cada filósofo com seu slogan, com seu marketing, para que o professor, caso não goste dele, possa qualifica-lo de marqueteiro.

Mas o pior é fazer isso com aqueles filósofos que já adquiriram fama de serem proprietários de um pensamento único. Platão me parece o mais injustiçado pelos professores e divulgadores.

Platão é apresentado, não raramente, como um ardoroso defensor do platonismo, como este se mostra na sua forma canonizada, a doutrina dos dois mundos, o mundo do que aparece aos sentidos, ilusório, e o mundo do que se apresenta ao intelecto, o real. Imagina-se então que a Academia foi um ambiente de reflexão, sim, mas uma estranha reflexão já viciada, que levaria sem desvio ao platonismo. Assim, segundo esse tipo de entendimento pueril, seria difícil ver alguém pensando de modo diferente de Platão na Academia.

Por isso alguns ficam satisfeitos quando é contado para eles que Aristóteles, estudante da Academia, não foi escolhido por Platão por causa de suas críticas ao mestre. Ah! Como o cabeça-dura, nos dias atuais, gosta de acreditar nisso. Isso aconchega a alma medíocre. O tolo acredita que triunfa o “sistema único”, e então fica contente de saber que ele próprio, afeito à idolatria do pensamento exclusivista, tem tudo para ser filósofo.

Quando explicamos para esse cabeça-dura que Platão mudou várias vezes de ideia, ele se zanga. Digo que já no final da vida, Platão fez críticas ao que pensava, talvez até mais radicais do que aquelas que Aristóteles levantou. Ora, esse aluno está tão acostumado e intimamente satisfeito à versão de um Platão canônico, que ele se recusa a averiguar se há verdade nisso. Ele foge, por exemplo, do livro Parmênides.

Sobre Platão, inclusive, gosto de insistir. Isso porque a Academia seguiu sua história sem a adoção do que convencionamos hoje chamar de platonismo. Da Academia pós-Platão, na verdade, brotou uma versão do ceticismo. A Academia, a escola do filósofo tido hoje como exemplo de ter montado um sistema único e fechado, logo após a morte do mestre se transformou em uma escola de dúvida sobre o conhecimento! Ora, se a Academia não fosse um lugar de ampla discussão, é muito pouco provável que, após a morte de Platão, o platonismo viesse a ser substituído por um pensamento exterior, o ceticismo - justamente o ceticismo! É mais fácil acompanhar os historiadores da filosofia menos tolos e, com eles, dizer: Platão sempre investigou tudo com o espírito aberto, sincero, realmente filosófico, e incentivou todos a fazer o mesmo.

Quando vejo um pretendente a filósofo se repetir, desfilando profissão de fé em meia dúzia de ideias cristalizadas, recitando tediosamente a mesma ladainha (em geral política), dificilmente reconheço nisso o que os filósofos me ensinaram como filosofia. Reconheço ideólogos fazendo propaganda. Aliás, até como propaganda, isso é muito ruim.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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