Mais sexo não tira o tesão de ninguém

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Filósofo acredita que sexo em demasia não faz as pessoas desistirem do ato, que é ligado ao autocontrole

É comum hoje ouvir a tese de que a juventude atual está entediada com o sexo, e que isso se deve à facilidade com que em nossa sociedade contemporânea todos conseguem usufruir do corpo do outro. Essa tese é conservadora, e há até quem invoque Nelson Rodrigues travestido de filósofo para defendê-la. É uma tese fraca. A ideia contida aí é a do dito popular “o proibido é mais gostoso”. Uma verdade, sim, mas acrítica.

Basta o estudo de tribos indígenas para notar que a nudez e a relativa facilidade do sexo nunca fez do índio um inapetente sexual. Além disso, se vamos ao Marquês de Sade, é fácil ver o quanto o excesso de sexo jamais conseguiu fazer dessa atividade algo obsoleto.

Nos escritos do Divino Marquês o sexo sempre esteve ligado ao projeto filosófico libertino de autocontrole. Em seus livros, os personagens exercem o sexo junto com a degradação física e moral exatamente para adquirir, estoicamente, uma superioridade sobre a natureza. Esta, em Sade e nos libertinos em geral, em oposição a Rousseau, é vista como má. Afinal, ficamos esperando algo dela e, do lado externo, o que ganhamos são os terremotos e furacões, e do lado interno as doenças e a velhice. Por isso mesmo, o projeto dos libertinos, que eles compartilham com os iluministas, é o de autonomia. Mas a verdadeira autonomia é, para os libertinos, aquela que se pode conseguir ao se emancipar da natureza. Deve-se chegar aos seus sofrimentos antes da natureza e, assim, ficar imune às suas garras.

Livrar-se da natureza é tornar-se superior aos que precisam gozar ou que sentem dor, e para isso há o itinerário de orgias dirigidas que, enfim, devem funcionar como pedagogia filosófica. No entanto, devemos notar, ao final da maior parte dos enredos libertinos, os heróis libertinos ou que almejam assim se tornar, fracassam nos seus objetivos. Não conseguem não se apaixonar. Não alcançam o patamar de perfeição libertina em que a dor ou prazer (ou mesmo prazer na dor) não importam mais. A literatura libertina é consoante com a ideia da irrealização do projeto libertino.

Sexo em demasia não faz as pessoas desistirem do sexo. Talvez até o contrário é que seja verdade. Sexo fácil não faz as pessoas desdenharem o sexo. Afinal, sexo fácil não existe, o que existe, talvez, é a maior oportunidade (não realizada) de fazer sexo.

Quem efetivamente conversa com os jovens (e não só os jovens que se tem casa), vê que todas as dificuldades do sexo postas para os anos cinquenta e sessenta estão presentes ainda hoje. Há transformações, sim. Vivemos num mundo em que há o anticoncepcional e o Viagra – e isso é por si só uma revolução. Mas os dramas psicológicos do que é considerado o tempo do sexo fácil continuam sendo dramas morais e existenciais bem parecidos com os do tempo do sexo tido como difícil. Qualquer bom psicanalista com mais de sessenta anos pode atestar isso.

Ora, mas também não podemos negar que há alguma coisa, aqui e acolá, que é realmente certo convívio menos alvoroçado entre garotos e garotas. Há no ar uma certa baixa na libido juvenil. Eu mesmo tenho dito algo assim e insistido na ideia de insensibilidade geral, mas isso em termos mais gerais, quanto à deserotização, e segundo um tempo filosófico. Todavia, neste escrito aqui, pego outro caminho. Digo que esse tédio em relação ao sexo e ao corpo é fruto antes da falta da rua que da facilidade de se fazer sexo.

Nossa classe média está cada vez mais distante das classes mais pobres, uma vez que a escola pública e a rua, dois elementos socializadores de nossa juventude, e que permitiam a integração de setores sociais distintos até mais ou menos os anos setenta, perderam essa função. Os filhos da classe média, já há mais de três décadas, estão distantes da escola pública. Além disso, não brincam mais na rua. Ora, era com esse setor mais pobre que a classe média aprendia a ter tesão. Os meninos mais pobres amadurecem mais depressa. Convivem com meninas em situação de mais liberdade. No passado, então, introduziam os meninos de classe média nesse ambiente. Não era a educação sexual desejada, talvez, por freiras virgens, mas era um tipo de educação sexual que o Brasil cultivou por anos e que formou a minha geração e as anteriores. Para o mal ou para o bem, isso se perdeu.

Os filhos da classe média, hoje, podem ver sexo na internet. Eles têm acesso a qualquer posição sexual. Mas eles demoram em se sexualizar porque demoram a amadurecer – justamente o oposto do que é dito por aí por psicólogos abaixo dos cinquenta anos. Ou seja, há um prolongamento da infância na classe média e, com isso, um atraso na capacidade de ter tesão, ainda que a visão do sexo ocorra mais cedo. E isso principalmente entre os meninos.

É isso que ocorre e que confunde os conservadores, em especial os professores universitários conservadores, que, por razões óbvias, não podem admitir que, se há algum problema como o da baixa libido, do tédio, isso advém do aumento da distância brasileira entre pobres e ricos.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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