Foxfire – a história americana negada

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Segundo o filósofo, a ideia de que os americanos em geral sempre foram anticomunistas ou distantes de qualquer tipo de socialismo é francamente desmentida no filme

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Imagens do filme 'Foxfire - Confissões de uma Gangue de Garotas'

Não há quem não conheça a expressão “anos dourados”, com a qual nos acostumamos a falar da década de cinquenta, especialmente quando nos referimos aos Estados Unidos. Saídos da II Guerra Mundial como aqueles que salvaram todos nós de Hitler e encheram a Europa de dólares para a sua reconstrução, os americanos tinham força moral para mostrar ao mundo como é que se deveria viver. A regra para alcançar o paraíso na Terra era decidir pelo American Way of Life.

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Obter a sociedade feliz sem precisar morrer e ir ao Céu. Como? Primeira e única regra: todo mundo é classe média. Todos os homens têm um ou dois carros na garagem, férias na praia ou montanhas, trabalho no próprio negócio ou no escritório de uma grande empresa, esposa em casa cuidando de apenas dois filhos. Além disso, um brinde: a filha do casal até poderia já pensar em ter a opção diferente da mãe e estudar visando uma universidade. A América desses americanos: cinemas, grandes parques, rock e o início da televisão e do marketing. Apenas um inimigo: o comunismo. Todavia, um inimigo fraco, controlado e, apesar dos jornais falarem demais dele, nada mais que uma idiossincrasia russa. (1) Eis aí os anos cinquenta que não nos cansamos de ver no cinema, até hoje.

Mas já na década de cinquenta há uma outra América.

Nessa outra América estavam os velhos que pertenceram ao glorioso Partido Socialista da campanha de 1910. Estava também uma parte da classe trabalhadora empobrecida, alcoolizada e com suas famílias em deterioração – muito ainda como restolho da Grande Depressão de 1929. (Afinal, o New Deal não salvou a todos). Nesse caldeirão, uma juventude pobre meio que inadaptada ao mundo dos estudos, se organizava em torno de carros, motos, camisa branca e calça jeans. Isso para os rapazes. As moças, por sua vez, não sabiam bem o que fazer da vida e isso se refletia no vestir. A tal guerra dos sexos estava começando. As mulheres estavam mudando de comportamento rapidamente e a roupa espelhava isso. Não se sabia mais qual deveria ser o padrão para os que não podiam comprar de tudo. Em geral, variava-se a partir de restos dos modelitos da Belle Époque.

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É essa segunda América que o diretor francês Laurent Cantet (de Entre os muros da escola, 2008) tem como cenário para o filme Foxfire (2013), uma adaptação do romance de mesmo título de Joyce Carol Oates, lançado na década de noventa. (2)

A trama é bem simples. Garotas de famílias empobrecidas e complicadas começam a se proteger dos ataques de rapazes da escola e, em seguida, formam um tipo de irmandade que desemboca em uma gang – “foxfire”. Após algumas peripécias a líder do grupo, Legs, é condenada a algum tempo em casa correcional para jovens. Ao retornar, agrupa as meninas em uma casa velha de fazenda. “Foxfire” é então transformada em uma comunidade de garotas vivendo sob a generosa regra de “cada um contribui com o que pode”. É claro que o dinheiro logo fica escasso e então a saída é o roubo de homens mais velhos, sempre dispostos a cair em um flerte de uma das garotas. O clímax da película é quando elas tentam um golpe maior, sequestrando um ricaço do local. As coisas se complicam a partir daí e ele é baleado por uma das garotas. O filme é narrado por uma das participantes, anos mais tarde dos acontecimentos, exatamente a que não participa do sequestro, uma vez que havia saído da comunidade pouco tempo antes.

Aparentemente não há nada inovador na trama. Todavia, dois elementos saltam aos olhos.

Primeiro: em geral filmes americanos sobre gangs de jovens passam ao largo de implicações políticas, ainda mais quando referentes aos anos cinquenta nos Estados Unidos, uma época sempre retratada como positiva e glamorosa. Diferentemente, neste filme, a líder do grupo, Legs, é francamente influenciada por um ex-padre, pertencente à velha esquerda americana. Tanto é que o juramento para a entrada no grupo contém referência à vitória da revolução proletária internacional.

Segundo: filmes de gang, em especial com o cenário nos anos cinquenta, evitam abordar essa ligação entre política de esquerda e feminismo, restringindo-se a tratar a rebeldia juvenil como um caso exclusivo de inadaptação natural da adolescência às convenções. Tudo funciona segundo esses lemas: “antes hormônio que política” ou simplesmente algo como “uma utopia só pode viver de disfunção hormonal passageira”. No final, passada aquela fase psicológica individual, tudo se rearranja, ainda que às vezes existam baixas. Em Foxfire tudo isso é desmentido. As garotas não estão tendo xiliques pelos meninos e nem rindo à toa. Muito menos são promiscuas. O leve clima de lesbianismo, ainda que existente, nem chega a se desenvolver. Ou seja, não se trata de um grupo de meninas “querendo curtir”, mas de jovens que precisavam de um lar e resolveram criar um coletivamente, onde a dignidade da mulher não fosse apenas palavra vazia.

Em entrevista, Cantet diz abertamente que a fala mais importante do filme é a do ex-padre. Este é o personagem responsável, digamos assim, pelo que seria a formação intelectual de Legs. Ele viveu o tempo em que o partido socialista americano tinha lá seu público. Reclama que naquela época podia-se falar de tudo e que então, “agora”, ou seja, nos anos cinquenta, “só se podia falar de felicidade”. Abordei esse assunto em outros artigos, o de quanto a América ficou marcada pelo discurso que obriga todos a se mostrarem felizes, especialmente as mulheres. Como um europeu, Cantet valoriza essa denúncia do militante da velha esquerda, e a destaca no seu filme.

A ideia de que os americanos em geral sempre foram anticomunistas ou distantes de qualquer tipo de socialismo é francamente desmentida no filme. Todavia, ainda assim fica uma marca que, não raro, transparece a respeito de como todos olham para a América – inclusive muitos cineastas americanos. Até mesmo quando se é de esquerda, o modelo de homem ou mulher é o do outsider, um tipo mais jogado à própria sorte que o self made man. Talvez valesse a pena algum cineasta, um dia, tentar um filme que mostrasse que a esquerda na América também sabe se organizar e participar de campanhas. Afinal, isso existe, ainda que a cultura oficial americana negue.

Para aproveitar bem esse filme, não posso deixar de sugerir aos que irão ao cinema a leitura de uma história filosófica da esquerda americana que foge do corriqueiro. Trata-se do que está no libro de Richard Rorty, Para realizar a América (Rio de Janeiro: DPA, 1999). (3) De certo modo, os pais desse filósofo norte-americano têm muito a ver com o personagem socialista do filme, o ex-padre. Eis aí uma pista.

* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

1. Claro que há a Guerra da Coreia e o macarthismo, mas, do ponto de vista do americano médio, em especial da juventude, isso não é algo que possa incomodar o cotidiano de um enorme país como os Estados Unidos.

2. Em 1996 Angelina Jolie fez o papel principal em uma primeira adaptação desse romance. Nessa adaptação o tom político é eliminado.

3. Esse livro de Rorty teve uma reação dos historiadores, sempre pouco compreensivos ao que é o ensaio filosófico. Essa reação foi posta em livro, com uma resposta de Rorty: Pettegrew, J. A pragmatist’s progress? Richard Rorty and American Intellectual History. New York: Rowman & Littlefield Publishers, 2000.

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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