O feminismo é para imbecis?

Por Paulo Ghiraldelli - Especial para o iG | - Atualizada às

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Para o filósofo, leitura do feminismo feita pela ótica de Nietzsche pode resultar na interpretação de que a mulher feminista se torna antes um homem de segunda categoria do que uma mulher emancipada

Foi o filósofo alemão Nietzsche quem, no final do século XIX, forneceu os melhores argumentos positivos para as mulheres não aceitarem o feminismo. Ele colocou suas ideias em pequenos textos e aforismos. Resumindo ao máximo: só o “sexo frágil” pode ter a vantagem de ser o “belo sexo”.

A condição de fraqueza da mulher, em uma acepção tradicional, é o que ela tem de melhor arma no confronto com o mundo masculino. O que não consegue uma mulher, sendo ela aquilo que faz o homem olhar-se para si mesmo como herói, salvador, mantenedor e bom amante? O que quer o homem, mesmo quando não gosta muito de mulher, senão ter ao menos a fama desses qualificativos, para exibi-la como um bobo para todos? Percebendo essa sua condição de “fraca”, a mulher não tem como não comandar o homem, o “forte”. (1)

A natural feminilidade é o que faz a mulher capaz de montar qualquer potro ou garanhão. A deterioração desse dote é uma doença que empurra a mulher para a busca de outros mecanismos que não os seus próprios, de modo a enfrentar o mundo masculino. O feminismo é um desses mecanismos. Trata-se de uma medicina para a mulher, para que ela volte a se destacar. Mas não é uma medicina que cura e, sim, uma medicina que diagnostica a doença como irrecuperável, de modo que só a assumindo de vez, como doença crônica, é que se pode lidar com ela. Tornar-se feminista e pedir direitos iguais aos dos homens é o remédio de quem não pode curar-se, mas apenas conviver com a doença.

Essa conversa toda, que pode se tirada ou deduzida de Nietzsche, em nossa época, põe na boca de algumas pessoas o seguinte argumento: ao ceder ao feminismo, a mulher se torna antes um homem de segunda categoria que uma mulher emancipada. Sua verdadeira condição de emancipada é aquilo que se deteriorou, ou seja, sua condição de mulher sob os costumes tradicionais.

O senso comum aproveita desse pensamento para, junto com alguns elementos empíricos, estereotipar o feminismo. Diz então que as feministas são todas lésbicas, mas não no sentido correto de lésbica, de mulher que gosta de mulher. O que faz é apontar para a “sapatão”, a mulher masculinizada em todos os sentidos. Uma mulher masculinizada em todos os sentidos, mas, enfim, sem pênis, não é homem e nem mulher. No campo do preconceito, que avança junto como o recorte caricaturesco, trata-se de um monstrengo. Ora, monstrengo tem de ser ouvido? A resposta social, tradicionalmente, é “não”.

É assim que se chega ao que vivemos hoje nas fileiras dos que, sem mais nem menos, não querem reconhecer as benesses do feminismo. Pegam o rabo da conversa do final do século XIX e, sem ponderar historicamente as coisas, empurram o feminismo para o lado, não como um movimento social e intelectual, mas como apenas uma grande bobagem. Pessoas assim que, no olhar feminista, são os que podem ser chamados de conservadores, adoram posar de rebeldes. São os que se acham muito espertos por introduzir pela periferia aquilo que no centro já caiu de moda: o “politicamente incorreto” como reação ao “politicamente correto”. Um debate entediante, pouco inteligente e démodé.

Os arautos do “politicamente incorreto” estão certos ao dizer que as feministas são umas chatas. Mas estão completamente errados ao dizer que o feminismo é uma doutrina chata ou inútil.

Não nego a existência de feministas completamente tolas que expõe seus recalques pessoais não como parte de idiossincrasias de suas psicologias, que é o que tais recalques são, mas como grandiosas bandeiras de um movimento social de emancipação. Mas chato e burro todo movimento social tem aos montes. Todo movimento social e intelectual tem, entre militantes, mais chatos e burros do que precisaria. O “politicamente incorreto” reduz o feminismo ao que é uma sua caricatura, que é um feminismo feito apenas pela militância chata-burra, e aí o derrota triunfantemente. Claro! Quem não consegue dizer, diante de uma caricatura, que fulano de tal tem um nariz grande demais ou de menos uma orelha pontuda demais ou de menos?

Não pudemos segurar o feminismo. Como outros “ismos” modernos, bons ou ruins, a verdade é que seus espíritos invadiram os nossos corpos modernos. Assim, enquanto alguns ainda se preocupam em brigar com feministas, muitos entre nós ultrapassaram tudo isso e vivem pós-conceitualmente. Trata-se de uma situação em que ninguém vai ficar discutindo quem lava a louça em casa. As pessoas querem é ter uma máquina de lavar louça para que ninguém lave louça.

Nietzsche não foi um filósofo feminista e nem antifeminista. Como outros “ismos”, o feminismo entra em sua filosofia da história como mais um elemento de mais um “ismo”, o niilismo. Sua filosofia da história implica na ideia da modernidade como um precipício do niilismo, ou seja, a desvalorização de todos os valores. Caminhamos para a desvalorização de tudo que tem valor, exatamente porque somos herdeiros de uma revolução na moral, aquela que faz com que o tipo “fraco” (ou “doente” ou “escravo” etc.) sempre vença, por corrosão de sentimentos, o tipo forte (ou “sadio” ou “senhor” etc.). Essa corrosão implica na transformação do tipo “forte” em “fraco” à medida que o “forte” passa a se sentir culpado pela opressão que exerce sobre o “fraco”, opressão que antes da culpa não lhe vinha à cabeça senão como alguma coisa natural e legítima.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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