Pilar, Cesar e Aline a quatro paredes – o que fazem?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Para o filósofo, o erro fatal de Pilar foi fazer sexo com Cesar quando ele já estava satisfeito pela outra

Divulgação/TV Globo
Após descobrir gravidez de Aline, César pede o divórcio de Pilar

Aline apanhou de Pilar, mas no dia seguinte deu o troco, fazendo-o sair de casa para vir morar com ela. Dobrou César por meio de dois elementos, um posto por ela mesma, o outro por conta do que Cesar faria, e que realmente fez.

O que ele fez? Ora, na reconciliação momentânea, ao receber o perdão de Pilar por tê-la traído, foi para a cama com ela. Ele fez sexo com Pilar em uma noite em que já havia feito sexo com Aline. Esta é jovem e Pilar não. Nessa sequência, não há como a mulher oficial não perder. O erro de Pilar não foi só o de perdoar Cesar, nisso ela não tinha muito o quê fazer. O erro fatal foi ela fazer sexo com Cesar quando ele já estava satisfeito pela outra.

O outro elemento foi, certamente, o discurso de Aline sobre começar uma nova vida e criar um filho de uma maneira diferente, filho este que já estaria na sua barriga. César teria um rebento à altura de ser herdeiro de seu hospital. Homens como Cesar nunca acham que não podem controlar o mundo, mesmo quando recebem infinitas lições de que Deus é um agente contrariador dos que querem tomar o lugar divino.

Nesse episódio todo, ao menos quanto aos envolvidos no triângulo amoroso, era possível de se esperar uma maior complexidade da subjetividade dos personagens. Mas, novamente, o esquema do folhetim não tem como não atropelar o modo de ser do romance.

Tanto o folhetim quanto o romance diferem da epopeia antiga ou de qualquer outro tipo de texto da antiguidade, entre outras coisas, porque lidam com personagens menos rasos que os personagens antigos. As narrativas antigas apresentam personagens que são emblemáticos, são heróis identificados pelo comportamento exterior, em geral dotes físicos ou então dotes psicológicos de descrição fácil. Homero na Ilíada e na Odisseia nos mostra Aquiles como “a máquina de guerra” e Ulisses como “a raposa matreira”.

As narrativas modernas, como o romance e o folhetim, diferentemente, possuem personagens com clara delimitação do que é o “eu” e do que é o “si mesmo”, o self. O drama criado entre essas duas instâncias, ou seja, o conflito interior, ganha um enorme espaço na narrativa. Não há como não citar aqui Stendhal com o seu O vermelho e no negro, em que o jovem Julien se corrói entre alternativas de vida que só podem vir à tona entre quatro paredes. Aliás, paredes que nem são as do quarto, mas da consciência.

Todavia, enquanto o romance deve apresentar personagens com subjetividades profundas e complexas, de modo que a narrativa possa ter onde colocar conflitos morais, dramas internos e arrependimentos, o folhetim simplifica isso fazendo da subjetividade um abrigo para uma única direção, um esquema. Neste, os personagens têm vida interior, mas trata-se de uma vida monotemática. Os diálogos interiores falam de pequenas intenções, mas não de dramas. De uns tempos para cá, o nosso folhetim atual, as novelas, já nem mais apresentam os personagens pensando, o que pensam é tão esquemático que eles falam em voz alta ou que seria o pensamento. É claro que em alguns casos, falando sozinhos em voz alta, se tornam ridículos. É um dos modos que o folhetim tem de escorregar do patamar da cultura de massas para o campo da massa informe dos não aculturados pelo mundo escolar.

Mesmo quando o folhetim é bem feito, e sofistica o maniqueísmo, ou seja, a luta do bem contra o mal (que também lhe é inerente como característica), sua qualidade diante do romance tem de diferir por conta do que as psicologias dos personagens apresentam. No episódio em que Cesar parecia poder se tornar um personagem mais complexo, cheio de dúvidas, ele rapidamente se define pelo tema único: o herdeiro. Ele teve chances de pensar sobre Aline e Pilar na cama, chances de ponderar sobre os seus filhos, mas como ele está proibido de cair para o seu interior, o discurso de Aline lhe oferecendo nova vida é abocanhado rapidamente. Nunca saberemos se Cesar, em um folhetim mais romanceado, como tínhamos na TV Tupi, não poderia ficar ponderando tudo, nos levando para as profundezas da alma humana.

Talvez o folhetim atual esteja certo. Para uma época de insensibilidade e de baixa dramaticidade interior, em que todos nós não podemos nem mesmo ler um texto na internet maior do que este, porque isso nos obriga a pensar, só gente de Amor à Vida possa nos parecer gente como nós mesmos.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ. Http://ghiraldelli.pro.br

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