Pilar vai dar tudo que vocês querem!

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Para filósofo, não há grupo de mulheres que não vibrará com a surra de Pilar na amante do marido em Amor à Vida

Divulgação/TV Globo
Surra de Pilar em Aline em “Amor à Vida”

O “Kama Sutra” não é um manual de posições sexuais. É um livro do amor. Seus capítulos são interessantes, mas os ensinamentos ali distribuídos às vezes não fazem muito sentido para um ocidental. Há um capítulo que elenca as “artes e ciências” que uma esposa deve estudar e dominar. A lista começa com saberes artísticos ou da vida doméstica e então, repentinamente, para a surpresa do leitor, cita como necessário o conhecimento da carpintaria, da guerra, da química e da mímica. Passa pelo conhecimento de dicionários e aritmética e vai para o desenho, o disfarce, a jardinagem, a poesia e as “regras da sociedade”. É uma lista enorme. Entre tantas coisas que chamam a atenção nessa lista, há uma que não se espera encontrar: “a arte de ficar com os bens de outros, por meio de mantras ou encantamentos”.

É de nos deixar pasmos, temos de admitir. A mulher casada deve saber roubar! Sim! E não de qualquer maneira, mas pelo traiçoeiro modo do que, no ocidente, chamaríamos de bruxaria ou coisa parecida. Não é que seja uma virtude ser ladra, mas é uma habilidade recomendável dominar “a arte de ficar com os bens de outros”, e isso por um meio específico: o “encantamento”, o feitiço.

Mas cuidado aí, trata-se de bens, não se diz que o marido de outra é um bem.

Maridos alheios são diferentes de esposas alheias tanto no oriente quanto no ocidente. Roubar de um homem sua esposa pode levar a um duelo ou algo semelhante. Roubar de uma mulher o seu marido nunca desemboca noutra coisa que não a baixaria. Mulheres em geral, no ocidente, tem uma reação verbal única. A primeira coisa é chamar a outra de “vagabunda”. Qualquer xingamento diferente virá depois. O primeiro é “vagabunda”, e de certo modo será o oficial nome da outra dali em diante. A segunda reação é a vingança propriamente dita. Uma mulher se vinga de um homem por meio de um plano, mas se vinga de uma mulher pelo confronto. Não raro, sai no braço.

A mulher que enfrenta “a vagabunda” pode ser fraca ou velha, nessa hora do confronto ela adquire uma energia descomunal. A autoridade social lhe dá força cósmica e a sua mão fica pesada. A adrenalina é da raiva, claro, mas se o casamento já ia mal a ponto da mulher estar sem sexo há meses, então a fúria é avassaladora e não há quem não saia ferido disso. Uma vez armada de faca ou revolver, a mulher não titubeia em furar ou atirar. O homem corno, em uma situação assim, sai para comprar uma arma e em geral volta mais corno e sem a arma – como Nabokov conta sempre muito bem. A mulher não sai para comprar nada, ela vai direto ao covil do amor para um confronto físico. Ela enche a boca para falar: “sua vagabunda”, e então, cai de pancada sobre a rival.

Em “Amor à vida” essa cena, prometida para hoje, será fantástica. Trata-se da briga entre Pilar e Aline. A esposa do médico César, no covil do amor, chamará a amante de “vagabunda” e, obviamente, receberá o troco na ferida: “velha”. Susana Vieira, que faz Pilar, está agora com mais de setenta anos, com uma disposição de trabalho incrível. Seu personagem é energizado por isso, e ela partirá para cima da gostosinha Vanessa Giácomo, a Aline. Havia prometido que lhe daria na cara, e vai dar mesmo.

Aí está uma cena que passará como memorável para a história da dramaturgia brasileira. Trata-se daquele tipo de cena com efeito catártico de múltipla direção. Não há grupo de mulheres que não vibrará com Pilar.

O público formado pelas mulheres traídas terá em Pilar uma vingadora vibrante. O público das mulheres mais velhas (traídas ou não), sempre esnobadas pelas mais novas, então, nem se fale! Esse público finalmente terá aquele orgasmo que, enfim, só conheceu por fingimento próprio. Há também as mulheres que nem sequer foram traídas, mas que são desertos tão inóspitos que foram simplesmente deixadas de lado, e então, diante da cena, podem imaginar que não foram abandonas, mas que perderam para alguém; esse público pode também se sentir gratificado por Pilar. Catarse também virá para aquelas mulheres que nada perderam, uma vez que seus maridos são bolas murchas que ninguém quer. Esse público aplaudirá de pé, pois a mulher que nada perdeu, nessas condições, é a mais amarga de todas – foi traída por si mesma, pela sua inaptidão em “casar bem”. Não podemos nos esquecer da catarse das moralistas, que não raro acumulam também a qualidade de mal amadas. Por fim, até mesmo o público formado pelas Alines da vida também se sentirá satisfeito, por causa da inveja em relação à Aline da telinha. Pois esta, sabemos, vem sempre usando aqueles vestidinhos capazes de fazer Antonio Fagundes ter ereção real. E isso irrita a concorrentes do sofá, do lado de cá da tela.

* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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