Para o filósofo, os animais precisam ganhar além de status, um lugar mais amplo no coração de cada homem e cada mulher

PET está ligado à “estima”, e essa palavra nos dá pouca responsabilidade
Thinkstock
PET está ligado à “estima”, e essa palavra nos dá pouca responsabilidade

Já passou da hora de iniciarmos um movimento sério no sentido de abolir a noção de “pet”. Nem todo o mundo, eu sei, mas uma parte da sociedade ocidental não trata alguns animais como “bichos de estimação”, mas como filhos ou gente da família. Que ajustemos nossa linguagem, então, para essa maneira de conversar e criemos condições de trazer os outros para um tal vocabulário.

Por que digo isso?

Porque PET está ligado à “estima”, e essa palavra nos dá pouca responsabilidade. O que se estima é aquilo a que se dá valor. Valor determinado. Daí a frase “faça sua estimativa”. Ou então: “estime o preço”. Estimar é valorar, mas visando uma imputação e uma quantificação. Ora, membros da nossa família não são estimados, são amados. Justamente isso é o que temos de fazer com os animais, se eles moram conosco. Cada vez mais se torna pouco razoável que possamos dar valor limitado a quem mora conosco e é, de fato, membro da família.

Fazendo isso, criando um vocabulário que substitua o vocabulário da “estimação”, vamos aos poucos deixando de comprar animais em lojas, em pet shoppings, preferindo os canis, que são mais próximos de maternidade (é necessário avaliar cada um!), ou então indo aos lugares de adoção, que são mais próximos de creches. Buscar um cachorrinho num canil ou num lugar de adoção, então, começará de fato a ser, desde o início, um ato de amor e de responsabilidade. Desse modo, as leis para coibir o abandono de animais, que já existem, não serão exclusivamente leis, mas também regras ético-morais adotadas. Uma pessoa que abandona o cachorrinho deve ser vista pela sociedade como vemos hoje quem abandona uma criança ou um velho ou um doente. Já estamos caminhando para isso, mas um empurrão no âmbito da linguagem não vai nos fazer mal.

Os animais ditos domésticos ganharam status. Mas precisam ganhar além de status, um lugar mais amplo no coração de cada homem e cada mulher. E cada homem e cada mulher deve ensinar o filho esse mesmo amor. Fazendo assim estaremos realizando um movimento necessário, que é o de caminhar no sentido oposto à cultura do descarte.

A cultura do descarte impregnou todos nós. Temos inventado um monte de bobagens para justificá-la. Temos nos transferido da prática do descarte necessário e inteligente para a prática do descarte indiscriminado, irracional, perverso e estúpido. Quebra-se uma peça, joga-se fora tudo. Desse modo, se você engravida, é sinal que há algo no seu corpo que está engripando a máquina toda, talvez algo que você comeu e não foi digerido ou algo que cresceu ali por excesso de Coca Zero (segundo a dupla Palhaço e Valdirene). Desse modo, de duas uma, ou você elimina o seu corpo, o que não é bom porque você morre, ou então você elimina aquela protuberância interna inútil, o feto. Ou seja, descarta. Aliás, nesse caso, use “feto” mesmo, não “bebê”, para ficar mais fácil o descarte. Ora, conheço gente que não faria isso de modo algum, mas, em compensação, faz algo pior: deixa o cachorrinho da família em uma estrada, para morrer.

Descartar é matar. É a forma mais perversa de matar, porque é matar sem a coragem do matador. Trata-se de matar de modo que a vítima saiba uma coisa: estou morrendo não nas mãos de um herói ou vingador ou macho, mas pelo desleixo de um covarde. Nessa hora, não tenho dúvida em acrescentar: morre por obra de um fdp, bem fdp mesmo!

Certa vez o filósofo norte americano Richard Rorty, avaliando um debate entre os filósofos Peter Singer e Peter Sloterdijk, falou que nenhum dos discursos deles, filosóficos, poderia dar fundamentos para se fixar “direitos dos animais”. É verdade isso. Não vamos cuidar dos animais a partir de fundamentos filosóficos. Não há tal coisa. É bobagem lançar mão de inteligência igual, dor igual, direito igual às partes do planeta, etc. Nada disso se sustenta sem furo. Vamos cuidar dos animais a partir do que fazemos conosco mesmo, ou seja, vamos cuidar dos que se parecem mais conosco, aqueles com quem temos mais identificação subjetiva.

Assim é, e por isso o cachorro vem na frente. Pensando antropologicamente, eu duvido que o cachorro tenha vindo para nós, para ser domesticado, como um bicho do mato que nunca teve nenhuma relação conosco. O cachorro pode ter sido domesticado, mas nós convivemos, antes, com um ancestral dele, talvez quando nós nem erámos nós ainda. Minha tese é de que o cachorro evoluiu de um tipo de lobo (ou vários, segundo novas hipóteses) junto conosco. Desse modo, por ter antes ensinado do que só aprendido (ensinou-nos a caçar em bando, a tentar a monogamia, a amamentar filhos dos outros etc. – nosso primos chipanzés tem menos propensão para tais coisas), ele tem todas as nossas expressões e sentimentos, e só não faz o que fazemos porque o desenvolvimento da linguagem não lhe ocorreu.

Essa ideia de que vamos cuidar dos que se parecem conosco é derivada de uma observação simples: agimos desse modo entre nós, entre grupos diferentes de bípedes sem penas. Aquele que é mais próximo de nossos costumes e expressões, dizemos “é um dos nossos” ou “pode virar um dos nossos”. Os que têm costumes muito diversos ficam aguardando a vez. Assim agimos e agiremos com os animais. Todavia, quanto aos que já estão sendo recebidos em nossas casas, é hora de encontrarmos um vocabulário que nos torne mais civilizados perante nós mesmos e perante eles. Não custa apostarmos em sermos, daqui uns tempos, “versões melhores de nós mesmos” (Rorty), e não simplesmente devastadores de florestas, dizimadores de tudo que está na Terra e imperadores da cultura do descarte.

Não temos todos que agir como visigodos, forçados por alguns conservadores retardatários que gostam de posar de pessoas duronas ou mesmo más, talvez por quererem esconder desejos pessoais que não podem ser confessados. Mostrar-se duro por meio de piadinhas do “politicamente incorreto” é démodé, é como querer se vestir de John Wayne em festa em que todas as mulheres querem Johnny Deep. Não é uma virtude, nem é inteligente – é capricho do escapismo.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.