Filósofo explica como forma de protesto que usa o corpo nu tem sua raiz na Grécia Antiga

Protesto feminista que aconteceu durante visita do Papa ao Rio, em julho: mostrar corpo choca e é válido como forma de protesto
Alessandro Buzas/Futura Press
Protesto feminista que aconteceu durante visita do Papa ao Rio, em julho: mostrar corpo choca e é válido como forma de protesto

Caso não reste mais nada a fazer, mostre a bunda. Bunda nua é um último recurso, mas às vezes o primeiro. Isso não é novo. Faz dois mil e quinhentos anos que essa prática de protesto é utilizada, e funciona – ainda funciona.

O filósofo Diógenes de Sinope utilizou de práticas nesse estilo, mostrando à Atenas que o enaltecimento do adjetivo “natural” para batizar normas éticas, como a cidade vinha fazendo, tinha um problema. Efetivamente, tudo em Atenas estava sendo conduzindo antes pelo que é convencional do que por qualquer coisa natural.

Diógenes criou a escola cínica, o cinismo. Enquanto filósofo cínico, ou seja, do grego kynikos que quer “como o cão”, ele realmente agia como o tal “melhor amigo do homem”. Diógenes comia e se masturbava em lugares sagrados da cidade (a Ágora, por exemplo). Chocava a todos. Atividades naturais – como o se alimentar e o fazer sexo – chocavam exatamente porque estavam em confronto com o convencional. Assim agindo, ele fazia os atenienses perceberem que o natural verdadeiro havia sido afastado, dando espaço para o falso natural, aquilo que já estava sob o convencional.

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O que Diógenes fazia era uma maneira não metafísica de filosofia. Filosofia? Claro que sim! O próprio Platão reconheceu isso, pois o chamou de um tipo de Sócrates – um “Sócrates louco”. Como qualquer outro filósofo, seu trabalho era o de mostrar aos atenienses que eles estavam comprando gato por lebre, que estavam utilizando a linguagem de uma forma que, hoje em dia, chamaríamos de ideológica – uma linguagem produtora da falsa consciência. Todavia, para trabalhar nesse modo de desmitificar e desmistificar, ele não precisava dizer, como Platão, que o mundo real nos é dado pelo conhecimento intelectual enquanto o que apreendemos pelos sentidos é ilusório. Ele não dividia o mundo em dois. A desmitificação se daria em um mesmo plano: o convencional tomado como natural seria desmascarado. Pela linguagem o ato de alimentação (ou de sexo) seria batizado de natural e, portanto, abençoado pela ética, no entanto, repentinamente, esse ato se tornaria maligno unicamente porque teria sofrido um deslocamento espacial (da mesa de casa para a Ágora). Ora, o choque das pessoas seria o tocar do sino, avisando o quanto o falso natural, o convencional, é que estaria regrando tudo na cidade. A ética não obedeceria nada de natural, como vinha sendo batizada e louvada.

Mostrar a bunda nua (ou os seios) em lugares onde se convencionou que isso não pode ser feito é ainda algo que faz sucesso. Isso porque obedece a uma motivação do tempo de Diógenes, sendo um comportamento que segue o estilo de atuação da escola cínica.

No início dos anos oitenta, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, no livro Crítica da razão cínica (Estação Liberdade, 2012) reavaliou a utilidade da escola filosófica de Diógenes. Ele lembrou então de outras práticas corporais com funções que podiam mostrar dominação e emancipação, dependendo do tipo de cinismo em jogo (ele chegou a falar em cinismo e kynismo, para diferenciá-las).

Sobre a bunda, Sloterdijk diz magistralmente que se a cabeça se dispusesse “ao menos uma vez a dialogar com sua antípoda, esta começaria por lhe mostrar a língua, se tivesse uma”. Nesse caso, “a bunda diria às esferas superiores: acho que nossas relações bilaterais estão ficando uma merda”. Mais adiante, ele completa: “compreender a bunda seria a melhor escola preparatória para a filosofia, a propedêutica somática” (pp. 2019-212).

Sloterdijk sabe muito bem, por conta de Diógenes, que a cabeça imagina poder conter dualidades como necessidade e liberdade, mas a cabeça é incompleta. Talvez ela possa falar de necessidade e liberdade, mas viver isso, só a bunda.

A psicanálise fez até uma teoria ligada à bunda, onde a questão da necessidade e da liberdade é vivida na trilha da busca de prazer. Trata-se da “fase anal”, pela qual todos nós passamos: aprendemos a controlar nossas fezes e com isso obtemos prazer, exatamente ao aliviá-las em um tempo ideal. Nessa vivência do prazer fazemos da bunda o local mais próximo de uma tal experiência, não a cabeça. Esta, que aparentemente tudo pode, nesse caso só pode mesmo é assistir. Ainda que ligada à bunda na atividade de controle, não é por este poder que dá o seu melhor, ou seja, não é pela capacidade abstrativa e puramente intelectual que tem participação nessa performance. De certo modo, após algum tempo, tudo faz crer que a bunda é quem manda nisso tudo. Tanto é que a psicanálise não titubeia em dizer que alguém que fica muquirana, que só sabe reter dinheiro, fixou-se na fase de retenção, na “fase anal”, pois só a retenção promete prazer.

Quando nos damos conta disso, entendemos perfeitamente que a bunda, se recebesse um convite de diálogo com a cabeça, mostraria a língua “caso tivesse uma”. A bunda mostrando a língua é uma incrível metáfora corporal. Ela diz, utilizando partes do corpo (bunda, língua, cabeça) o que é um ato de afronta. Forja-se aí a afronta da bunda que, não sendo um lugar nobre, é o lugar em que a propedêutica filosófica acontece. Sem essa filosofia em nível somático, não se tem nenhuma filosofia realmente séria. Qualquer computador filosofaria se fosse possível a filosofia ser algo solitário e feito sem bunda.

Assim, o protesto de hoje, de quem mostra a bunda, é impactante após tantos anos porque nossa cultura ocidental não mudou em muita coisa que lhe é essencial. Muito do que é impactante hoje pelo que a bunda faz, é o que era impactante quando feito pela filosofia, aquela filosofia que tinha a bunda em alta conta, ainda que para continuar fazendo serviços baixos.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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