A ninfomaníaca: ela quer mais e mais! Mas onde será que ela está?

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

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Filósofo diz que moralismo do século 19 acabou e hoje é discriminado quem não garante ser viciado em sexo

Até quem nunca ouviu falar que Lars von Trier foi expulso do Festival de Cannes de 2011 porque disse que entendia Hitler, já está esperando o próximo filme dele. O título é bom: Nymphomaniac ("Ninfomaníaca", em português). A foto de propaganda, então, nem se fale: uma mulher branca malhadinha, nua, cercada por dois negros fortões com dorsos nus. Além disso, o elenco impressiona, pois tem nada mais nada menos que Uma Thurman, William Defoe, Christian Slater, e por aí vai. Isso sem contar a própria branquinha da foto de propaganda, a atriz e cantora Chartlotte Gainsbourg.

O filme promete ser profundo, com pegada filosófica – o diretor mandou dizer isso. Todavia, o clima de pornô está no ar. Não temos que condenar isso. O cinema precisa atrair Homer Simpson porque ele paga ingresso e indica o caminho para a legião de leitores de 50 tons de cinza e coisas parecidas. Sem gente não há cinema! Então, vazam as notícias de que haverá sexo real na película. Além do mais, se alguém tem de escolher alguém para fazer o papel de ninfomaníaca, e quer mesmo ter bilheteria (ao menos na estreia), deve aprender com Trier. O papel da viciada em sexo não pode ser uma pessoa que é exclusivamente atriz, mas alguém que tem uma vida fora do palco, uma cantora, e de preferência francesa e inglesa. Francesa para lembrar que se trata de uma mulher que vai dar adoidada, e inglesa para lembrar que é uma mulher que vai dar e se manter pudica, sempre pronta para um suspiro romântico após o nonagésimo nono orgasmo. É Charlotte Gainsbourg. Tudo certo até aí!

Veja cenas do filme Ninfomaníaca, de Lars Von Trier:

Cena do filme 'Ninfomaníaca', com Shia LeBeouf e Stacy Martin. Foto: DivulgaçãoImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesUma Thurman em cena de 'Ninfomaníaca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: DivulgaçãoElenco de 'Ninfomaníaca', que conta com nomes como Uma Thurman e Willem Dafoe. Foto: DivulgaçãoCharlotte Gainsbourg em cena de "Nymphomaniac", novo filme de Lars Von Trier. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Divulgação

O que pode decepcionar? Bem, o filme terá cenas com câmera parada, além de ser uma peça com mais de cinco horas de duração. Ora, mas isso são detalhes técnicos. E de resto? Um problema aparentemente contornável: não existem mais ninfomaníacas.

Algumas cenas do filme já divulgadas:
Uma Thurman em novo clipe de "Ninfomaníaca"
O primeiro clipe do filme de Lars Von Trier
Veja Shia LaBeouf em imagem erótica

Podemos chamar alguém de ninfomaníaca, claro. Mas não podemos levar a sério quem considera que estamos falando de mulher patologicamente comprometida. A ninfomaníaca é uma mulher que quer fazer muito sexo. Muito mesmo. Mas muito quanto? Eu poderia dizer: mais do que os homens medrosos que saem com ela podem aguentar. Mas com o Viagra, pode-se dar conta de uma ninfomaníaca. Caso ela seja mesmo bem insaciável, meia dúzia de homens, todos com Viagra, acabarão dando um jeito. Bem, então eu poderia acrescentar: uma ninfomaníaca é a que desesperadamente quer fazer sexo mais vezes que um marido do século 19 pode aguentar, mesmo deixando-a ter amantes. Sim, a ninfomaníaca como alguém doente é coisa do século 19 – um diagnóstico antes moral que médico, embora sempre feito por médicos.

Atualmente, as garotas jovens podem querer fazer mais sexo e também ter mais parceiros que aquelas que, no século 19, ao extrapolar em seus desejos, já iriam cair no consultório médico para serem diagnosticadas como portadoras de algum distúrbio. Uma mulher não recatada poderia facilmente ser chamada de doente. Isso, não raro, para proteção do marido, às vezes para proteção dela própria, ou então simplesmente para parar de envergonhar os pais. De certo modo isso durou até os anos cinquenta do século 20.

Hoje em dia, talvez não ser o que se chamava de ninfomaníaca é que envergonhe, senão os pais, ao menos a si mesma. Em 2013 uma moça precisa estar sempre disposta a fazer sexo. Há até o culto da moça que é capaz de sair com mais homens ao mesmo tempo – “a universitária sedenta de sexo e experiências novas”. Ela desperta a fantasia dos garotos. O moralismo aparece, é claro. Afinal, há babacas em todo lugar e em todos os séculos. Mas, se compararmos com o século 19 e mesmo com o 20, podemos dizer que cobra-se hoje da mulher, em alguns lugares, não que ela seja uma atleta sexual como se cobra do homem, mas que ela não dê na vista que não gosta de sexo, de muito sexo.

Leia também: O que sabemos sobre a capacidade de sedução?

Essa cobrança vem justamente porque nossa sociedade é uma sociedade amortecida. Abolimos barreiras morais e físicas, mas não tivemos tempo de aproveitar isso. Pois antes mesmo nossa sociedade já dava mostras de ter gerado muita gente insensível. Insensibilidade pode combinar com sexo, mas não com erotismo. E sexo sem erotismo é futebol sem drible. Então, tudo que não queremos e que essa nossa situação aflore. É chato demais ficarmos sabendo que somos chatos demais. Assim, se antes a mulher fingia não ter orgasmo, agora ela finge não só que tem, mas que tem aos borbotões. Ser “uma puta na cama” é regra. A garota que não sabe disso não arruma namorado. Ou arruma, mas ele é gay e está só disfarçando. Nunca se vendeu tanta calcinha e sutiã como agora, de todo tipo, e sempre como uma peça para desfile. Além disso, nunca se vendeu tanto apetrecho para o prazer como agora. Vivemos em uma época em que o prazer pode ser sentido fácil, mas o que sentimos é um prazer menor, menos intenso, mais curto e que leva logo ao tédio. Isso quando sentimos!

Desse modo, talvez já estejamos naquela fase que os médicos de antigamente diziam que era o colapso da ninfomaníaca. A viciada em sexo aos poucos teria menos prazer e, como no caso da droga, tenderia a fazer mais e mais sexo, e então sua vida já não teria nenhum sentido humano. Tudo viraria sexo. Inclusive o tempo seria consumido em sexo. O tédio venceria o sexo. A morte venceria o tédio. De certo modo, essa situação de “over” modernidade ou, até, de pós-modernidade que vivemos, aponta para um cotidiano mais ou menos assim. Somos todos ninfomaníacos, mas vivendo a fase final da doença, isso porque só a geração que foi jovem nos anos setenta é que realmente teria conseguido ser ninfomaníaca na fase melhor da doença, quando o vício parecia que ainda podia ser satisfeito.

Quem sabe ao terminar o filme, nós, na cadeira, não tenhamos esse pressentimento que a todo o momento nos assombra, que vivemos sempre tendo saudade do que não vivemos, ou saudade do que as fotos atestam que vivemos, mas sem nos garantir mesmo que vivemos.

Quem sabe ao terminar o filme fiquemos com a sensação que um dia houve uma geração ninfomaníaca. Mas sem certeza disso.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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