Para o filósofo, um homem e uma mulher sempre encontrarão aqueles que não lhe corresponderão em uma cantada ou jogada de charme

Um grande sedutor é sempre alguém que se prepara em detalhes para tal
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Um grande sedutor é sempre alguém que se prepara em detalhes para tal

Corre na internet e na imprensa em geral a história do americano com amnésia que, já no hospital, começou a paquerar a própria mulher e se apaixonou por ela. Aconteceu por esses dias, mas histórias desse tipo não são inéditas. As mulheres que foram escolhidas pela segunda vez se vangloriam! Mas, se pensassem melhor, talvez devessem ficar preocupadas. Afinal, isso parece ser um indicador de que nos apaixonamos por desconhecidos, ou seja, que em geral não olhamos para os dotes que aqueles a quem nos dirigimos dão valor.

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Quem perde a memória factual a respeito de sua vida particular, sem alterações cognitivas e sensório-motoras, sente-se apenas como quem foi morar solitário em outro país. Pode então seguir o curso normal da vida – uma nova vida. Desse modo, se em questões de horas apenas, o sem-memória começa a paquerar a própria mulher e se apaixona por ela, isso pode nos levar a uma conclusão interessante: aspectos exclusivamente físicos, como cheiro e aparência, e depois aspectos psicológicos e físicos bem básicos, como voz e trejeitos, contam no amor mais do que queremos admitir.

Os filósofos gregos, em especial Sócrates e Platão, diziam que o deus Eros, o Amor, não apenas criava uma atração. Eros era ao desejo do belo, não um desejo indeterminado. Mutatis mutandis alguns homens de ciência, atualmente, tendem a dizer algo muito próximo disso. Então, grosso modo podemos falar que o erotismo tem a ver antes com o corpo que com a alma.

Sejamos francos: para muitos de nós a vida erótica nos põe antes no mundo dos sentidos que no mundo do intelecto ou das emoções espirituais ou das virtudes morais. Não à toa temos usado uma nova metáfora bem contemporânea para o amor: falamos em “química do amor”. Nossa linguagem já incorporou isso: “rolou uma química” – dizemos. Nesse caso, alguns estão até pensando em coisas como “feromônios”, e não em elementos realmente sensíveis no sentido tradicional.

Sendo assim, o deus Eros funcionaria bem no estilo de sua versão romana, o Cupido. Este, como nas imagens de cartuns cinematográficos, aparece por detrás de uma árvore e flecha algum potencial amante, que então se volta para quem está ali próximo, independentemente de grandes conhecimentos prévios a respeito dessa pessoa. Essa descrição não desmente o que em geral vemos por aí. Ou seja: quando se entra em um local querendo conquistar alguém, pode-se simplesmente sair dali de braços dados com quem menos se esperava conquistar. Diz-se, então: “a química rolou do outro lado”.

Não importa se nós humanos somos marionetes ou não de coisas como “ feromônios”, na hora da atração sexual. Sabemos que insetos agem sob tal império. Mas em mamíferos, há controvérsias sobre a participação de “feromônios”. Caso um dia deixemos de lado essa hipótese e tivermos a certeza de que não temos “feromônio” algum agindo, a metáfora que usamos hoje, a da “química do amor”, não necessariamente precisará deixar de valer. A experiência da amnésia terá nos dado o direito de sempre apostar na ideia de que há algo, certamente físico, que conta muito nas primeiras aproximações.

A liberação dos costumes tem dado mais chance para vivermos assim, mais corporalmente. Uma moça é atraída por um homem, faz o chamado sexo casual e ... pimba! Quer repetir e repetir e repetir. Não pode viver sem aquilo. Nunca mais. Só então, após repetir, fica sabendo o nome dele etc. Isso seria a inversão do namoro que até pouco tempo envolvia um conhecimento prévio entre as almas, deixando para depois o conhecimento mútuo dos corpos.

Desse modo, em certo sentido, a sedução atual recupera o papel clássico de Eros. Ele, Eros, é o demiurgo que atrai em função do belo. O sedutor precisa ser belo. Todavia, sabemos bem que a beleza não é alguma coisa simples. Quase todos nós reconhecemos o belo e o não-belo, mas cada um de nós diz, também, “há o belo, mas além do belo há o ‘belo para mim’”. Esse “belo para mim” é o sinônimo de “o preferido para mim”. A questão é física, claro. Mas ainda assim tem um componente subjetivo que parece demandar algo íntimo, algo articulado ao gosto enquanto uma faculdade pertencente ao campo espiritual.

Nessa loteria, temos de aprender que um grande sedutor é sempre alguém que se prepara em detalhes para tal, mas que, ainda assim, não irá ter o controle de todas as situações. Um homem e uma mulher sempre encontrarão aqueles que não lhe corresponderão em uma cantada ou jogada de charme – nunca. Devemos reconhecer isso, para não sermos eternos frustrados.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ -http://ghiraldelli.pro.br

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