Para o filósofo, já que não é possível contar com deuses gays, resta apostar em super-heróis

Félix (Mateus Solano) não é flor que se cheire. Mas no capítulo de ontem de “Amor à vida”, quarta feira, um bocado de gente titubeou diante da sua sina, perdoando-o. Destituído do seu cargo no hospital, ele chega em casa humilhado e derrotado. Recebe o apoio de Pilar (Susana Vieira), sua mãe, e também da avó e do filho. Mas César está mais cruel que nunca. O pai vai direto na ferida exposta. Diz a Félix o que estava na sua garganta, que sentia vergonha dele, de sua homossexualidade. Finalmente Felix tem a confirmação, na cara, de que César realmente não o ama.

Nada dói mais em uma pessoa que saber que sua forma de amar é repulsiva exatamente para aquele de quem você espera amor, e que é exatamente aquele a quem você quer dar amor. Ser pai, sabemos, não é para qualquer um. Mas ter pai também não!

Esse episódio da novela da Globo me fez repensar a opinião que emiti outro dia, quando a Fran, minha esposa, me contou que Stan Lee está cogitando apresentar o Homem Aranha, em um próximo filme, como um super-herói gay. Quando Fran disse isso, eu reagi contrariamente, apelando para argumentos técnicos. A quatro paredes, depois, me perguntei se no fundo eu não estava mesmo é com preconceito. Não soube responder. Agora sei. Não tenho dúvida que quanto mais heróis gays tivermos, mais gente como eu irá se livrar de monstrinhos soterrados.

O exemplo grego diz que posso estar correto.

Os gregos da época de Platão e Sócrates viveram em uma sociedade de cultura masculina. Isso gerou uma instituição pedagógica, a pederastia. Pela pederastia um homem mais velho fazia a corte a um jovem pré-adolescente ou adolescente, e se esse aceitasse a amizade eles poderiam conviver como namorados durante um tempo, mas com a clara incumbência do mais velho cuidar do mais novo, ensinar-lhe o convívio social e, enfim, introduzi-lo na vida de cidadão – a única vida conhecida em uma cidade como Atenas. Essa valorização da cultura homoerótica nem sempre foi a prática grega. Como eles chegaram a isso?

Há uma série de elementos históricos apontam o crescimento, entre os helenos, do prestígio de uma cultura masculina. O mito de “Zeus e Ganimedes” é, muito provavelmente, de extrema significação nesse contexto evolutivo, preparando a vinda do que foi o mundo helênico na época de Péricles, tempo de Sócrates e Platão.

A narrativa começa em um passado distante, nos arredores da cidade de Troia. O governante dos troianos tinha três filhos, sendo que um deles, o pré-adolescente, era divinamente belo. Seu corpo era de uma perfeição capaz de fazer o próprio Apolo notar. Seu cheiro encobria o perfume dos mais exuberantes jardins. Sob o sol, sua pele alva exibia um brilho semelhante ao da Lua em sua melhor performance. Com esses dotes, o menino chamou a atenção do Monte Olimpo, sendo percebido pelo deus dos deuses, Zeus. Isso mudou o destino do garoto.

Costumeiramente, Zeus descia do Olimpo para aventuras amorosas nos campos e cidades. Era habilidoso na tarefa de enganar sua esposa-irmã Hera, e não raro conseguia tempo para ficar com as mais lindas mortais. Quando Zeus notou Ganimedes, ele o elegeu como um alvo necessário. O deus dos deuses se transformou em uma águia gigante, negra e amorosa e rondou o garoto. Abduziu o menino facilmente, quando este estava no Monte Ida, e seguiu rumo ao Olimpo. Mas as coisas saíram um pouco diferente dessa vez. Os dotes do rapaz eram de tal ordem que Zeus não pode esperar chegar ao Olimpo, possuindo o garoto no voo mesmo, obtendo um prazer jamais sentido por qualquer outro habitante do universo.

Quando chegou ao Olimpo, Zeus estava em dívida para com Eros. Preenchido de amor, Zeus transformou o garoto em copeiro especial, responsável por servir o néctar aos deuses. Conservou a beleza do menino, tornando-o eternamente jovem. Assim, o fez imortal. Para compensar o rei troiano, Zeus o presenteou com cavalos divinos, avisando-o que o filho não mais voltaria. Tudo estava indo muito bem no Olimpo quando, como era esperado, veio o ciúme de Hera e, enfim, de sua filha Hebe, que era até então a copeira dos deuses. Para proteger o novo copeiro de possíveis maldades da esposa e da filha, Zeus abençoou Ganimedes e o colocou no firmamento, na Constelação de Aquário.

Eis aí o mito do amor que chegou a impressionar o próprio Sócrates. Este, quando queria lembrar a algum jovem o tipo de amor-paixão conveniente, não titubeava em apontar a dupla Zeus e Ganimedes.

Já que não podemos contar com deuses gays em nossa cultura, resta-nos apostar em super-heróis. Que venha o Homem Aranha com purpurina.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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