O imbecil diz que não vê TV, ele agora é crítico!

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG |

compartilhe

Tamanho do texto

Para filósofo, a crítica da mídia moderna é pior que a própria mídia

Divulgação/TV Globo
Cena da novela "Amor à Vida", da TV Globo

A crítica da mídia moderna – rádio, TV e internet – é sempre pior que a própria mídia, mesmo quando esta é muito ruim. O ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger deu essa lição, ao menos em relação à TV, nos anos oitenta – e muito bem por sinal. Mas, mesmo tendo sido traduzido no Brasil, não conseguiu ensinar-nos o que deveríamos ter aprendido sobre isso.

Enzensberger elencou quatro teses dos críticos de TV. Trata-se da tese de que a TV manipula as pessoas, a de que a TV faz as pessoas imitá-la e, portanto, a cometer coisas más que passam na sua tela, a de que a TV cria um reino de simulação e faz o telespectador não mais distinguir realidade e ficção, e, por fim, a da imbecilização, que fala que a TV afetaria negativamente a percepção e minaria a fibra moral das pessoas.

Ele derrubou tese por tese mostrando que seus divulgadores nunca tiveram provas empíricas para se sustentar e nunca puderam argumentar de modo persuasivo para continuar falando grosso como sempre quiseram falar. Além disso, o ensaísta pisou no calo de grupelhos de críticos que, se estivessem nos Estados Unidos, seriam definidos como “politicamente corretos”. Tratava-se daquele pessoal que, na então Alemanha ocidental, insistia em dizer que “fabricantes de shows e de estardalhaços, de clips e de comerciais devem não apenas fornecer educação, conhecimentos úteis e entretenimento”, mas também ‘humanidade’, ‘objetividade’, ‘diversidade de informação’, ‘relatos amplos e não preconceituosos’ além de uma abrangente ‘oferta cultural’. (Mediocridade e loucura, São Paulo: Ática, 1995) (1)

Na época, não havia como não concordar com Enzensberger. Ainda concordamos. Todavia, alguns elementos se tornaram mais complexos. Em especial as teses da imbecilização e da simulação.

Hoje há o imbecil cuja percepção foi afetada, e que realmente não distingue a realidade da ficção. Todavia, ele não é, atualmente, o mero telespectador da TV, que o crítico de outrora dizia que iria surgir. Ele é exatamente o telespectador que absorveu a crítica à TV (não raro, pela TV) e a reproduz de uma maneira ainda mais estúpida do que quando Enzensberger a denunciou. Trata-se daquele rapaz ou garota que aparece nas redes sociais para condenar a novela X ou Y por conta da sua mensagem negativa, “preconceituosa”. Às vezes, ele até denuncia que o preconceito irá se propagar porque os telespectadores, não distinguindo entre novela e realidade, irão tomar a ficção e fazer o mau exemplo ocorrer na realidade. Ora, uma pessoa desse tipo, contra Enzensberger e ao mesmo tempo a favor, faz tal denuncia porque ele próprio é quem primeiro confunde ficção e realidade. Tanto é que a primeira coisa que nos ocorre dizer a uma tal pessoa é o seguinte: “veja como é você quem está confundindo novela e realidade. O que você viu é novela, e os outros telespectadores sabem que é novela, um folhetim, e o que passa na TV é a trama de um folhetim, não uma aula. É você que não percebe que é uma trama, uma história, e está tomando aquilo como uma aula – uma aula com conteúdo ruim.”

Poderíamos dizer que Enzensberger errou então, ao menos em parte. Afinal, de fato surgiu o telespectador confuso, imbecil. Mas não nos enganemos. Esse imbecil que não sabe ver TV não foi produzido pela TV, mas pela vida do país. Ele existe em vários lugares, mas sua casa brasileira é notável. Ele é fruto de um sistema educacional falido, de uma sociedade emburrecida que, ao mesmo tempo, melhorou de vida e está tendo acesso à mídia que ela própria não sabe ver e apreciar porque está aquém dela.

Pessoas criadas em uma escola fraca e com déficit cognitivo visível, tendem a moralizar todo tipo de história. Então, tomam a novela como uma aula de “educação moral e cívica”. Só que, ao mesmo tempo, já ouviram falar da “crítica da TV”, e juntam as duas coisas. Passam a achar que novela e aula se confundem na cabeça das pessoas e que é necessário salvá-las disso. Mesmo quando expomos a elas que a confusão não vai ocorrer para os outros, mas está ocorrendo nela, não entendem. Nesse caso, estamos diante de pessoas limítrofes. E isso não falta. Há muita gente assim.

O Brasil está na porta desse precipício!

* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

1. Para os deslumbradinhos com a crítica ao “politicamente correto” insisto: olhem a data do livro publicado no Brasil.

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas