Para o filósofo, diferentemente das provas medievas de Deus, as provas da existência da alma não vieram do campo filosófico ou científico

Santo Anselmo era filósofo. Como bom pensador da Igreja em tempos medievais, ele não podia se furtar de deixar para nós, como outros fizeram antes e depois dele, uma “prova da existência de Deus”. A prova de Anselmo é bela à medida que é elegante, ou seja, econômica.

A prova implica em dois passos.

Anselmo começa com uma descrição possível de Deus: “aquilo em relação ao qual nada de mais perfeito pode ser pensado”. Ora, mas “aquilo em relação ao qual nada de mais perfeito pode ser pensado” tem de existir, pois se não existir revela-se aí uma carência no que é pensado, e então este pensado não é “aquilo em relação ao qual nada de mais perfeito pode ser pensado”. Sendo assim, Deus existe.

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Provas medievas, pelo seu método, são boas provas para averiguar a existência de Deus. São boas exatamente porque são puramente lógico-linguísticas, sem a necessidade de dados sensíveis. Afinal, sendo Deus uma entidade não sensória, pedir uma prova “material” dele seria desconsiderar o que se procura.

Os filósofos que contestaram essa prova – Gaunillo e Kant à frente – o fizeram também do ponto de vista lógico-linguístico, é claro. Mas a história da filosofia não é linear. Às vezes vamos seguindo o percurso histórico e não nos deparamos com a resposta à pergunta em pauta, mas com a mudança de pergunta e, então, a alteração dos próprios procedimentos investigativos. Trata-se do que o físico e historiador da ciência Thomas Kuhn chamou de mudança de paradigma. É exatamente isso que ocorreu com a entrada dos “tempos modernos”.

Um dos elementos pelos quais caracterizamos a modernidade é a mudança a respeito do que é uma “prova”. Em geral, as provas das ciências são antes experimentais e materiais que puramente lógico-linguísticas. Ora, nesse sentido, sendo Deus algo da ordem do que não é material e sensível, uma prova de sua existência, no decorrer dos “tempos modernos”, deixou de despertar o tipo de interesse próprio do período medieval. No decorrer do século XIX proliferaram as alternativas às provas da existência de Deus. Entraram na moda, então, as provas da existência da alma.

Diferentemente das provas medievas de Deus, contestáveis embora completamente rigorosas e legítimas, as provas da existência da alma não vieram do campo filosófico ou científico. Eram fruto de um pensamento pouco rigoroso, uma mistura de filosofia de botequim, religião mística, pseudociência e uma retórica interminável. Tudo isso regado pelo uso mais ou menos místico de tecnologias nascentes, bastante fantasmagóricas para o pessoal da época – por exemplo, a fotografia. Assim, as tais provas consistiam em tentar pesar a alma ou fotografá-la, ou no corpo do vivo, sempre captando o que seria a aura (tão famosa nos santos), ou então tentando apreender um tipo de ectoplasma ou espectro, invocando os mortos.

No final do século 19, positivistas, anarquistas e espíritas logo se deixaram seduzir por esse conglomerado de ideias pseudocientíficas, principalmente à medida que a Igreja as condenava. Positivistas, anarquistas e espíritas tendiam a se unir enquanto forças anticlericais. No interior desses grupos foi levado adiante um bocado de tentativas de verificar a existência da alma. Esses grupos alimentaram a pseudociência da época com algo mais ou menos parecido com as primeiras doutrinas gregas da alma, que a tomavam como material, como uma espécie de sopro quente, observado no chamado “último suspiro”, na hora da morte.

Todavia, quando o ambiente de investigação se apresentava mais sofisticado do ponto de vista filosófico, contendo não autodidatas, mas autênticos filósofos das universidades, a tendência era tomar a alma como elemento metafísico, imaterial. Então, as suas características emergiam mais afinadas com a palavra grega “psique”, e não “alma”. Nesse caso, se havia tentativas de “ver” a existência da alma, e não de simplesmente postulá-la filosoficamente, os filósofos recorriam aos procedimentos de observação (e auto-observação) de seus comportamentos após ingerirem drogas. Era cocaína para todo lado! Nesse sentido, realmente a religião era o ópio do povo, ou vice versa.

Do lado de cá do Atlântico, os irmãos Henry James e William James, filósofo americanos pragmatistas, não deixaram por menos. Eles tomaram de tudo nessas buscas místicas. Do lado de lá do Atlântico, vale lembrar de Freud.

Pronto, agora você já está com as dicas para continuar sua investigação e assim curtir a próxima novela da Globo, “Joia Rara”, em que há uma personagem cuja alma é reencarnada.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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