Maria Casadevall nua ou não é a mulher do momento

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG |

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Para o filósofo, todas as mulheres de “Amor à vida” cumprem o papel da “mulher 2013”: todas são monotemáticas e Casadevall-Patrícia é a chefe delas

Divulgação/Playboy
Maria Casadevall posa sem calcinha para a "Playboy"

A mulher tem de ser sorridente, com leve toque de menina, mas que pega fogo como mulher, precisa ser suficientemente descolada de modo a nunca perder o humor ou se envergonhar. É decidida, mas não é teimosa. Precisa cruzar as pernas em barzinhos e beber coisa alcoólica de canudinho. Eis aí a personagem de Maria Casadevall que mais se parece com o corpo da própria Maria Casadevall. Quem nunca a viu em outro papel poderá dizer: Patrícia é de fato a Maria Casadevall. Casadevall-Patricia é a “mulher 2013”.

Não há dúvida que Casadevall-Patrícia está projetada já a algum tempo. Os Estados Unidos são sua origem. “Aqui, na América, a mulher não pode ficar triste, ela tem de estar sempre feliz” – assim dizia meu amigo Celal, turco e doutor em filosofia da religião, meu colega de trabalho durante um tempo nos Estados Unidos. Ele tinha razão. Andávamos ali pela universidade e as mulheres que estavam visivelmente preocupadas ou atarefadas ou mesmo tristes, ao conversarem conosco para dar alguma informação, transformavam-se em joviais e sorridentes cheerleaders. Não digo todas, é claro, mas que havia alguma tendência nesse sentido, isso havia sim. Era uma obrigação moral, digamos assim. Era também padrão dado pelo treinamento profissional empresarial, é claro.

Isso incomodava demais o Celal, não a mim. Ao contrário, eu já estava completamente pronto para “a América” e para o futuro. Desse modo, agora que o futuro chegou ao Brasil, e que Casadevall-Patrícia é o padrão aperfeiçoado do que vi nascer no Hemisfério Norte, sinto-me em casa. Bem, quase isso! Quase isso!

É que uma vez na América e solitário, aquelas mulheres davam alegria ao dia. Mas, agora, no Brasil e dez anos mais velho, Patrícia-Casadevall é excelente na TV, mas que fique por lá. Que não pule da tela para o meu trabalho ou para a minha casa. Ela é aquela garota que a gente pede a Deus que nos atenda em uma boutique, mas só. Existe algo de fútil nela – que a Fran minha esposa não tem mesmo – que me faz entender a razão de, no Brasil, podermos conviver com uma escola tão ruim e ao mesmo tempo ainda termos uma indústria livreira profissional. Patrícia-Casadevall não é burra. Mas eu não consigo imaginá-la lendo alguma coisa que não seja horóscopo. Não horóscopo de entretenimento, mas sim aqueles feitos por gente que mente ao se dizer filósofo.

Não estou dizendo que a futilidade de Patrícia-Casadevall é insuportável. Nada disso. As sobrancelhas e o sorriso dela transmitem um ar de inteligência, de modo que ela, com um sorvete na mão e um best seller em cima da mesa do café, poderia até encantar alguém de 35 anos. O que estou dizendo é que o “modelito” do futuro que agora chegou ao Brasil precisa ser feliz de um modo pulante e profundamente monotemático.

Aliás, nesse sentido, todas as mulheres de “Amor à vida” cumprem esse papel da “mulher 2013”. Todas são monotemáticas. Paloma tem um tema: filha. Pillar tem um tema: César-família. Amarylis: gravidez. Tamara: dinheiro. Fabiana: virgindade. Glauce: Bruno. Márcia Chacrete: milionário para a filha. Aline: vingança. Leila: riqueza. Os personagens masculinos, ainda que sejam de pouca profundidade subjetiva, não são tão nulos quanto à horizontalidade de interesses. Mesmo Félix, que é obcecado em ser o titular do hospital, tem atitudes variadas e interesses que podem dar uma trama. As mulheres não. Casadevall-Patrícia é a chefe delas. Caso não existisse a personagem de Natália Timberg, a vovó Bernarda, todos ficaríamos achando que as mulheres se tornaram insuportavelmente chatas. Bem, pode ser que o autor, Carrasco (que nome heim?!), queira mesmo nos contar isso, afinal, Bernarda é a mulher do passado.

É difícil não notar, a partir desse apogeu de Casadevall-Patrícia, que isso não destoa de nossa sociedade enquanto uma sociedade da insensibilidade. Quanto mais amortecida uma sociedade, mais as pessoas tendem a ser monotemáticas. A diversidade intelectual e moral precisa de uma diversidade sensória, sensível e sentimental. Interesses variados e comportamentos menos estereotipados são próprios de sociedades erotizadas. Pensemos em Sócrates. Ele era tão plural em seu comportamento que gerou várias escolas filosóficas, e bem distintas umas das outras. O chamado “período helenista” da filosofia, em que a diversidade de escolas proliferou, também foi o período em que filósofos de orientação diversa reclamavam serem herdeiros legítimos de Sócrates.

Nossa sociedade não deixa herdeiros plurais. Nossa sociedade pode logo ter seus homens todos parecidos com as suas mulheres. Aliás, como é o caso de Caio-Michel, talvez o homem do futuro. Putz!

A mulher será sexy, como Casadevall-Patrícia. Mas, eu garanto, se você tiver ainda algum ouvido capaz de ouvir Bee Gees, lírica e música, e se seu cérebro pedir um conto de Nabokov, Casadevall-Patrícia lhe será insuportável até mesmo antes do coito (e com cerveja), imagine depois.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

Leia tudo sobre: Paulo Ghiraldelli Jr.

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