A virgindade de todos nós

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG |

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Para o filósofo, a virgindade foi para outro território, mas não sumiu

Há uns trinta anos a virgindade feminina tinha lá seu valor. Estava com os dias contados, mas ainda dizia alguma coisa de válido no âmbito do namoro, casamento e coisas afins. Hoje, o oposto é o que manda. Uma virgem, mesmo que seja teenager, não conta ponto em lugar algum. No entanto, há aqui uma armadilha para o observador e analista.

A armadilha é esta: a virgindade foi para outro território, mas não sumiu.

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Na média, as meninas no Brasil iniciam suas experiências sexuais aos quatorze ou quinze anos. O namorado do momento é o parceiro sexual escolhido. Como a virgindade não é alguma coisa requerida para o casamento, esse namorado é trocado por outro e depois por outro ainda, até o casamento ou até algo equivalente como o “vamos morar juntos”. Como o homem no passado, a mulher atual pode ter quantos parceiros sexuais quiser. Todavia, ao começar um relacionamento um pouco mais sério, algo como um namoro que implica algum compromisso monogâmico ou coisa parecida, é de praxe, para a moça, não contar senão duas experiências sexuais. Sendo assim, hoje em dia todo namorado é informado que ele começa como um terceiro. Isso pode ser engraçado, mas é significativo de como a nossa linguagem é uma enquanto a nossa prática é outra. Por que e como as coisas são assim?

É possível um entendimento disso lançando mão dos escritos do filósofo francês Michel Foucault.

Ele se importou muito com práticas corporais. Foi ele quem nos ensinou que os chamados Tempos Modernos inauguraram a tendência à proliferação de pequenos (e grandes) poderes que nunca estiveram só preocupados em nos reprimir, mas sim controlar nossos impulsos e potencializar nossas forças segundo direções determinadas. Esse movimento veio no sentido de um cuidado maior com o corpo, da promoção de uma suavização no trato com o corpo e, enfim, em uma identidade crescente do indivíduo com o seu corpo. Todavia, se assim se fez, isso nunca ocorreu de modo que o corpo fosse o ponto de partida e o ponto de chegada das modificações. O ponto de chegada, evidentemente, ele viu como sendo a alma. Mexemos com o corpo, mas com o objetivo de atingir a alma. Ou, em termos mais amplos, tocamos o físico, mas para atingir o psicológico. O êxito desse processo não é seguro. Não raro, as modificações da alma, nesse caminho, não correspondem tim-tim por tim-tim ao que ocorre com o corpo. Assim se deu com a virgindade.

A virgindade era alguma coisa do corpo. Era um hímen não rompido. E isso tinha um valor moral. A virgindade hoje ainda existe, mas ela não é um hímen não rompido, ela é uma frase do tipo “antes de você só tive dois homens na minha cama”. Ou seja, o corpo está em evidência agora, ele é livre e sobre ele não há repressão – é o que se espera. Mas, isso não faz da alma algo sem limites claros, descontrolada, ela socialmente precisa se mostrar como contida ou como capaz de alguma contenção. A linguagem, então, fala dela, da psicologia, ou seja, da experiência que diz respeito ao caráter.

É interessante notar isso. Pois isso implica em uma modificação da nossa noção de sujeito.

Popularmente, o sujeito é o indivíduo que é “consciente de seu pensamento e responsável pelos seus atos”. Inclusive juridicamente é assim. Todavia, sabemos o quanto a identidade nossa tem sido ligada ao nosso visual, ao nosso corpo. Mas isso não invalida de todo essa definição de sujeito, porque ainda é sobre o pensamento e atos que incide nossos pedidos de resposta a um indivíduo.

Desse modo, o namorado pode não cobrar, mas a moça se sente impelida em dizer que ela é dona de si (é um sujeito), não se perdeu como pessoa, de modo que ela foi para a cama com apenas dois, bem contados: o primeiro, que tirou o hímen, e o segundo, que lhe deu experiência. Agora sim, ela está “pronta”. A alma ainda é quem fala, dizendo de si e apontando o caráter.

Desse modo temos a moça que não é tola (não é virgem), é experiente (já teve mais de um namorado com sexo) e pode assumir um compromisso (não é “vagabunda”, já que teve só dois, ou seja, o necessário).

Algumas pessoas dizem então que, graças à revolução dos costumes dos anos 60, hoje seríamos menos hipócritas. É verdade isso. Mas, cuidado aí. Ser o terceiro não quer dizer que se é o terceiro verdadeiramente. A linguagem aí está já ajustada às convenções novamente.

O hímen físico foi embora, mas o hímen agora é transferido, pela linguagem, para o campo de “só tive dois antes de você”. O namorado agora é o terceiro. Ser uma pessoa, alguém com consciência moral, então, não é ter uma peça do corpo intacta, mas ter uma resposta lingüística, uma característica moral, explicitada. O discurso revela minha alma, minha psicologia, e ele diz: “só fui para a cama com dois, você é o terceiro”. Ora, não se julga aí se isso é mentira ou verdade. Não cabe esse julgamento. Mas, falar só em dois está já convencionado. O que ocorreu é que o hímen foi deslocado. “Sou virgem” foi trocado por “só tive dois antes de você”. Mas há ainda algo como um hímen, um limite. Seria uma tolice dizer “só tive sete antes de você”.

À medida que valorizamos o corpo, ele também deixa de ser referência de umas coisas e passa a ser de outras. Mas tudo isso implica em ajustes e desajustes lingüísticos, e é isso, afinal, que vai nos colocar no mundo de um modo aceitável.

Mudamos, mas nem tanto.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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