Filósofo discute o descompasso entre a linguagem e o comportamento

Para pais paulistanos é aceitável, segundo Contardo Calligaris (Folha de S. Paulo), que a filha traga para o quarto, para uma noite com ela, um garoto que é o seu namorado. Realmente eu assim agi com a minha filha, nos anos noventa, mas duvido que essa minha atitude não seja, ainda hoje, a de uma minoria da minoria dos “cabeças abertas”.

Mas Calligaris diz mais.

Ele afirma que uma tal atitude, que os pais tomam até como forma de proteger a filha dos “perigos da rua”, tem a ver com os resultados da liberação dos costumes dos anos sessenta, uma liberação que não teria desembocado no sexo livre, mas no sexo mais tolerado se vinculado ao amor. Bem, Calligaris pode estar certo, ao menos no meu caso. Talvez eu tivesse “uma conversinha” com a minha filha se ela trouxesse para dormir com ela, ao invés do namorado, um cara meio que desconhecido, ou então um cara diferente a cada dia. Talvez, não sei. Não aconteceu. Mas a ideia de que é o amor que abre portas, é verdade.

Calligaris usa esse exemplo, de que o amor é o elemento permitido, para explicar que o sexo sem amor, como o caso da prostituição, ainda é visto com reservas em nossa sociedade. A prostituição sem agenciamento é legal no Brasil, e aquele deputado que fez a emenda da “cura gay” agora quer tornar a prostituição ilegal. Ou seja, justamente quando gente inteligente como Jean Wyllys luta para tornar a prostituição um trabalho comum, aparece um retrógrado para torná-la menos que isso, um crime. Meu assunto aqui, no entanto, não é este. Essa é uma discussão necessária, mas chata demais. Volto ao tema anterior, talvez mais próximo da filosofia enquanto parente da psicologia social que da filosofia enquanto articulada ao direito. Volto ao tema do amor.

É que fiquei intrigado com a ideia de Calligaris de que todos nós (pós- shakesperianos) damos o aval positivo para o amor – tudo está justificado se o casal está apaixonado – e então, preso ao amor, o sexo pode vir legitimado. Em outras palavras: o aval para o prazer depende de ele aparecer para nós com o nome de felicidade. A felicidade é o namoro com futuro, com casamento. Eis aí tudo o que é nobre. O que é plebeu, praticamente animal, é o prazer solitário, aquilo que estaria em oposição à felicidade.

Bem, sabemos disso. Na nossa cultura a felicidade é espiritual e o prazer é carnal, e o amor liga-se ao primeiro e o sexo ao segundo. O primeiro elemento é aplaudido, o segundo é tolerado e, se é feito separadamente do primeiro, pode até receber a acusação de vir contra o primeiro, como alguma coisa que é a nossa degradação como seres humanos.

Nunca foi possível para Epicuro e mesmo para os utilitaristas britânicos, todos hedonistas, terem adeptos em todo o canto. Eles foram cultivadores da ideia de que é o prazer que devemos buscar, e não a felicidade. E isso por duas razões. Para Epicuro porque a felicidade já é o próprio prazer. Para os utilitaristas britânicos porque a felicidade não é mensurável e, então, podemos ser ludibriados; podemos muito bem ficar com a felicidade e descobrirmos, depois, que não estamos tendo prazer algum e que, então, não estamos felizes.

Assim, o prazer não esteve fora de objetivos altivos da filosofia. Mas não foi a coqueluche de toda a filosofia. No passado, ficou por conta dos materialistas. Nos tempos modernos, ficou por conta de um povo tido antes interessado na contabilidade empírica que em qualquer coisa mais sofisticada. Alemães e franceses nunca engoliram a filosofia utilitarista, de matriz britânica. Ora, nossa tradição filosófica bebeu nesses últimos muito mais que nos primeiros e menos ainda no pragmatismo americano, até porque nossa incultura o confundiu com o utilitarismo. Desse modo, no Brasil, um lugar abaixo do equador e, portanto, na voz do poeta, uma terra onde não existe pecado, o povo foi para um lado e os filósofos para outro.

Talvez nós brasileiros, por essa via, sejamos os que pagam um preço alto por tudo isso que nada é senão o descompasso entre a linguagem (e, portanto, o pensamento) e o nosso comportamento. Nosso comportamento implica em fala (que é uso do corpo, mas que vai além) e em uso do corpo de um modo geral. Nosso corpo quer prazer. Nossa fala, nossa linguagem, pede felicidade – ao menos na sala de jantar. Pondo tudo num plano filosófico, corpo e linguagem, ficamos assim: nosso corpo seria britânico e epicurista, nossa conversa seria francesa e alemã.

Poderíamos dizer, então, para sairmos do impasse apontado por Calligaris, que o melhor seria um ajustamento filosófico que antes de tudo seria um ajustamento geográfico. Entre o continente e a ilha, temos de ver no que mexemos. Nosso corpo está na ilha, nosso coração e cérebro estão no continente. Há um Mediterrâneo entre eles.

Tudo indica que o ajuste mais fácil e melhor seria pedir que o continente, sendo maior e, então, tendo mais recursos, promova o ajuste. Isto é, temos de alterar a linguagem. É no contexto de uma revolução semântica que deveríamos trabalhar. Não digo que temos de eliminar a palavra “felicidade” e nem mesmo torná-la sinônima de “prazer”. No entanto, eu não acho inútil a sugestão de ver se não conseguimos tornar a própria palavra “prazer” em alguma coisa mais ampla, mais legítima, menos pejorativa.

Creio que um exemplo histórico ajuda.

De uns tempos para cá, por conta das redes sociais da internet, recuperamos uma palavra que esteve entre nós nos anos setenta e oitenta: “curtir”. Tivemos a época da “curtição”. Depois, isso caiu em desuso. Agora, por conta do inglês “to enjoy it”, recriamos o uso do nosso “curtir”. Ora, curtir agora é dizer “gostei”. Mas “curtição” não tinha a ver com “gostar” de um modo completamente genérico. Tinha sim uma conotação sexual.

Claro que “curtição” era algo usado em expressões típicas, como “é a maior curtição”, referente a um baile, a um evento de entretenimento ou ao uso de alguma roupa ou apetrecho. Mas isso estava no contexto herdeiro da expressão “sexo drogas e rock in roll”. Digo tudo isso para que possamos nos lembrar que “prazer” já esteve no contexto de “curtir”, e esta palavra, por sua vez, já transitou entre se deleitar com a música, algo que estaria ligado ao espiritual, e ao sexo e drogas, algo que estaria em função do que é mais corporal, digamos assim.

Perceber esses caminhos semânticos nos faz tomar pé quanto ao que se pode fazer no sentido de dar novas geografias para as palavras, novos conjuntos de vocabulários e usos nos quais elas possam se inserir, modificando-se e modificando o recipiente em que caíram. As palavras podem se ajustar às nossas novas práticas e ao mesmo tempo podem estar alargando essas novas práticas, forçando-as a se abrirem ainda mais. É isso que, depois de um tempo, costumamos batizar de “soluções criativas” ou “saídas criativas” ou “resultado feliz”. Trata-se da ampliação de possibilidades redescritivas, algo bem sugerido por Richard Rorty. Só assim poderemos encaminhar esse problema que gira em torno do atual status da palavra “prazer”.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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