Luciana Gimenez e a lição sobre tesão, sexo e amor

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG | - Atualizada às

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Para o filósofo, o que a apresentadora faz é enredar o homem em uma teia bem racional

Caso você não seja um tipo como Maomé, aquele que não move montanha, Luciana Gimenez poderá ir com a sua cara. Pois ela deixou claro em uma entrevista recente que tem tesão por homem poderoso, aquele tipo que “move montanha”. Não tendo que ir à montanha porque ela vem até você, então talvez você consiga fazer aquela proeza pela qual Mike Jaeger amarga uma pensão valiosa. Luciana não deixa por menos: ela não vai para a cama pensando na pensão, isso por uma razão simples, se você não pode pagar a pensão, ou seja, se você é um tipo Moisés, a excitação dela por você não ocorrerá de modo algum.

Reprodução/GQ
A apresentadora de 43 anos, 1,81 metro e 60kg faz revelações de que gosta de homens poderosos

Tesão e poder. Não é uma fórmula mirabolante. Todos nós sabemos que poder causa tesão. Mas isso não é dito. Luciana fica ainda mais charmosa ao revelar esse segredo de Polichinelo, ao abrir o jogo que já está aberto. Agora, o que não é fácil é saber por qual razão o poder provoca tesão. Por que o homem que move montanha atinge o meio das pernas de uma mulher sem tocá-la? Sim, quem move montanha sem tocá-la move a vulva sem beijá-la. Essa é a mágica. Mas é assim, ocorre e pronto? Não se explica?

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A antropologia já nos ensinou que o macho forte, dominador, que promete proteção, é o preferido das fêmeas que, enfim, estariam sempre a serviço da espécie, sempre procurando garantias para a sua prole e, dessa maneira, obtendo segurança para que a transmissão de sua carga genética vingue e siga adiante. Os animais de um modo geral assim se apresentam, e isso nos mamíferos é evidente. O prolongamento disso no animal chamado homem se deve ao mecanismo que Freud nos ensinou a denominar de sublimação.

A sublimação nada é senão a transformação de energia erótica em disposição para o trabalho e, enfim, para a cultura. Uma vez levada adiante, a sublimação faz o homem se distanciar da vida natural e o empurra no sentido de criar tudo que resumimos em uma só palavra: civilização. Mas a vida erótica, é claro, não desaparece. Ela se sofistica e o macho sedutor pela força, pelo poder, fica guardado no interior do homem, sempre pronto a se mostrar, e desse modo atrai a mulher. Mas, se a mulher é atraída assim, como o homem é atraído por ela?

O erótico na mulher, o que desperta o homem para procurá-la, nada tem a ver com a segurança, mas com a beleza. Ele a quer para o prazer. A beleza é para o homem o que o poder é para a mulher. A beleza o excita. Ele é caçador e justamente por isso exercita o olhar típico do observador. É natural então que seja estimulado pelo que vê. O belo é o feito para ver. A mulher bela o excita do modo que o alce a ser abatido o provoca. Ele, o alce, é carne para o prazer. Ela, a mulher, é carne para o prazer.

O homem olha e a mulher pensa. O homem caça e a mulher cozinha.

Nesse sentido, a mulher pode desdenhar suas funções sensórias, inclusive o olho, e centrar-se nas suas funções intelectuais. Para acasalar, ela tem de ir pela compreensão, pelo entendimento, pelo raciocínio. Ela tem de saber quem é o poderoso. O homem não tem que saber nada, ele se prende ao sensível, no caso, ao belo. O homem tem tesão pelo que é superficial, a mulher tem tesão pelo que é o caráter. Amar é uma questão de formas e pele, para o homem. Amar é uma questão de moral, capacidade, espírito, para a mulher. Ela procura o caráter, o homem procura a casca.

A atividade do homem no namoro busca usufruir da beleza da mulher. Ele quer comê-la. Olha para uma fruta bela e isso lhe dá apetite. A atividade da mulher no namoro é tentar conhecer o homem, saber se realmente ele move montanha. Ela quer come-lo, mas isso, para ela, é uma metáfora para o seu desejo de entendê-lo. Nisso, não raro, ele homem a toma como mãe. Mãe compreende. E assim ele fica mais apaixonado ainda.

Mas, por outro lado, tendo a mulher que compreender o homem, usar de sua cognição, ela se envolve no namoro a partir de uma atividade de raciocínio, uma atividade da razão. Ela se esmera nas artimanhas da razão. Mesmo quando apaixonada, mesmo quando morrendo de tesão – ou principalmente assim – a mulher ainda não perde a capacidade de pensar. Aliás, é nessa hora que ela pensa melhor, que mais raciocina, mais elabora tramas para prender o macho, e faz isso de modo exímio uma vez que começa a conhecê-lo. Torna-se apta para afastar as concorrentes. Por isso as disputas das fêmeas para ficar com um macho são sempre disputas longe da força, por meio de estratégias que cumprem a função de um jogo intelectual, um xadrez de sedução em uma direção e uma armadilha e blefes em outra.

O homem não age assim. Inclusive, ele se comporta de modo infantil. Como ele gosta da mulher pela beleza, acredita de modo estúpido que ela também fica com ele pelo mesmo motivo. Caso seja um cara bonito, não acredita de modo algum que a mulher possa traí-lo. Caso faça sexo muito bem, então, mesmo que a mulher vier a confessar a traição, não irá acreditar. Ele imagina que é o aparato sensório da mulher que foi atingido, e que ele a conquistou por conta disso. Mas não. Ela não funciona nesse registro. O homem é sensível, a mulher, racional.

Essa conclusão filosófica escapa do senso comum, tão acostumado a dizer o contrário. O corriqueiro é afirmar que o homem é racional e a mulher é sensível. Sim, mas para outras atividades, talvez. Na relação cujo combustível é dado pelo erotismo, ou seja, no amor e tesão, o homem é sensível e a mulher é racional. Ele cai de amores, ela também, mas seria melhor dizer que enquanto ele cai, ela sobe. Pois o que ela faz é enredar o homem em uma teia bem racional.

Quem compreende o ponto de partida no que disse a Gimenez e o ponto de chegada por meio do caminho que eu fiz aqui, com a ajuda da filosofia, dá um passo grande na sua capacidade de entender o campo do amor e tesão. Dificilmente uma pessoa com essa compreensão deixará uma boa oportunidade amorosa escapar pelos vãos dos dedos.

*Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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