Nós temos um senador boliviano aqui! E agora?

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG |

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Para o filósofo, o Brasil age com má consciência postiça devido ao medo de ser tomado como o país imperialista na América Latina

Agência Brasil
Senador boliviano Roger Pinto Molina acena de casa onde está abrigado em Brasília (26/8)

Quanto menor é um governante e quanto menos seu país melhora, mais ele ruge. Idi Amin Dada foi uma das figuras principais neste tipo de perfil. Ele era um chefe de tribo, e só isso. Não quis ser chefe de uma nação. Nunca pensou em transformar os povos de seu país em uma nação. Ele dizia que iria esmagar os Estados Unidos. Aliás, fez outras bravatas até mais engraçadas – convidou o presidente americano para um corpo-a-corpo! Um belo dia, zupt, sumiu! Duvido que a CIA tenha dado cabo dele, é mais fácil ele realmente ter sido envenenado por um parceiro de tribo, que é o que ele temia.

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Gente como Idi Amin Dada teve (antecessores e) sucessores. Chávez era mais ou menos candidato a um tal cargo. Maduro diz que dorme ao lado do túmulo de Chávez e conta peripécias do homem encontrando Lênin e Jesus no Céu. Mas, na corrida para ocupar o cargo em que o titular tem de se esmerar em paspalhice, só contar coisas engraçadas não basta. É necessário ter um carisma especialmente voltado para os néscios, ser idiossincrático de um modo rebolante e desmedidamente feio. Na América Latina, Evo Morales ainda não é bem o tipo, mas olha no espelho e seu subconsciente lhe diz: “é você, vá que é você cara!”

Evo ficou um tempo em segundo ou terceiro plano. Mas já vinha construindo sua candidatura. Em uma ação típica apareceu em uma manhã com o seu exército dentro de uma refinaria da Petrobras. Tomou-a e cantou o Hino Nacional da Bolívia. Nacionalização! Recebeu um telefonema do governo brasileiro tranquilizando-o: “pode pegar Evinho, não se constranja”.

Em um outro episódio, entrou com a sua polícia em voo da diplomacia brasileira, constrangendo a todos – puro jogo de cena. Parece que estava procurando ... cocaína! O cara estava procurando cocaína na Bolívia e não encontrou! Depois, quando lhe fizeram algo semelhante na Europa, mas bem menos ofensivo, pulou e esperneou, chegou até a ameaçar a Europa! Mas não deixou por menos, cobrou do Brasil um apoio. Nosso governo chegou atrasado, mas deu o apoio. Enquanto isso, no cotidiano, Evo Morales pouco ou nada faz para segurar seu povo pobre por lá, eles chegam ao Brasil com famílias inteiras, na miséria, e alimentam as sarjetas de nossas cidades, às vezes meio sonolentos. Vagam perdidos pelas ruas. Mas não basta. Há mais.

Agora, eis que temos um senador da oposição aqui entre nós. E brigas internas começam ali e aqui porque o senhor Morales, mais uma vez, faz exigências: bate o pezinho e quer o homem de volta. A presidente Dilma tirou um ministro para mostrar boa vontade e ligou para ele, como se ele fosse o novo rei do mundo. Não bastou, ele exigiu do Brasil a devolução imediata do senador. Trata-se de algo muito mais ranzinza e sem propósito, se comparado com o caso semelhante mais perto no tempo, a exigência da Itália para que devolvêssemos Cesare Battisti.

Longe estou de pedir que o governo responda com uma bravata qualquer, como algum jornaleco de direita diria: “devolva nossa refinaria e cale a boca, Morales”. Não! Mas, convenhamos, quando da invasão da Petrobras a resposta do governo brasileiro foi estranha. As vozes em nosso governo disseram que a Bolívia era um país pobre, com um povo sofrido etc. Só faltou falar algo assim: “bom, projetos de nacionalização na base da força são legítimos, se feitos pelos pobres, são tão legítimos que mesmo contra o Brasil eles passam a ser válidos.” O Brasil agiu e age com má consciência postiça, devido ao medo de ser tomado como de fato é tomado, ou seja, o país imperialista na América Latina. Isso em parte, pois não poupou o Paraguai recentemente, tirando-o do Mercosul para colocar a Venezuela (aliás, cá entre nós, com o Paraguai sim, temos uma dívida imensa, por conta de imperialismo sangrento).

O governo brasileiro parece viver ainda sob o tacão da doutrina do terceiro mundismo, que foi a ideologia que dominou a cabeça de vários integrantes de esquerda que estão no governo, quando jovens. Um caso ocorrido explica bem: em pleno governo Lula, com a população em peso apoiando o projeto do PT e de Lula, um desses intelectuais de esquerda, ao lado do presidente em um Fórum Social Mundial, disse que ele sonhava com o projeto boliviano! Lula ficou quieto, mas deveria ter-lhe dado um “pedala Robinho”.

Há uma mística na pobreza ligada ao terceiro mundismo, algo que parece estar no imaginário de pessoas do governo. A função dessa mística talvez seja a de funcionar energeticamente para tais pessoas, reproduzindo-se de forma a levar quem está dominado por ela a se achar ainda jovem. Só pode ser isso. Pois, em termos de utilidade e mesmo de doutrina, para os dias de hoje, é algo mais que inútil, é nocivo. Trata-se de um ectoplasma ideológico.

O mundo em que vivemos não tem mais comunistas que valham a pena ser desafiados. Ora, e se há quem fale neles é porque grupos de direita os fabricam na imaginação. São fantasmas feitos para serem combatidos e, assim, dar à direita chance de sobrevivência no meio jornalístico. Essas pessoas do governo, uma boa parte, não são comunistas. Mas se alimentam de algo que esteve junto do comunismo nos anos setenta e até mesmo nos anos oitenta, que foi o terceiro mundismo. Bebem na força que essa mística teve para eles no tempo em que eram jovens, no tempo em que leram alguns livros teóricos e, sob o chicote do orientador, conseguiram escrever alguma dissertação de mestrado ou algo como um TCC.

Os jovens atuais podem ter alguma utopia tola na cabeça, mas se há algo que não querem é perder a liberdade. Os que dizem que querem, estão movidos por hormônios. Mas se vamos às universidades, o antiamericanismo difuso em parte de nossa intelectualidade, e que é grande se comparado com o do resto do mundo, não empurra os jovens para que eles repitam o engajamento em partidos de esquerda de cunho leninista, como no passado. Isso já foi. Isso morreu. Isso se foi até antes da Queda do Muro e do fim da URSS. Os protestos de junho, de caráter libertário, deixaram isso bem claro.

Por isso mesmo que vestir uma camiseta com a foto do rosto de Morales, na pose de Chê Guevara, é o pastiche do pastiche. É a volta de Idi Amin Dada no palco de Idi Amin Dada. Morales quer esse palco, e nosso governo parece que vai brindá-lo com o tablado. Poderia até dar, para promover o humor latino-americano. Mas talvez faça algo mais humorístico ainda. Talvez faça isso de modo hilariantemente sério. Então, só a parte desempregada da CIA – a que cuida da subversão de esquerda na América Latina – achará que não é para rir. Rirão também, mas escondidos, pois estão na baixa, perdendo emprego desde 1989.

Assim, ao verem alguém rebolar feito um hipopótamo com brotoeja, como Chávez fazia, os carcomidos da CIA podem encontrar um motivo para mandar uma cartinha para Obama, dizendo o seguinte: “há uma revolução de esquerda na América Latina”. Obama dará risada, mas a carta vazará e um senador americano do Tea Party, irá reclamar. Pronto, eis aí o pessoal encostado da CIA novamente em serviço. É gente que não conseguiu aprender árabe porque fazia curso de russo quando tudo mudou, há duas décadas.

* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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