‘Vim aqui para aprender’, diz brasileiro que voltou ao País para o Mais Médicos

Por Natália Peixoto - iG São Paulo |

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Um dos alunos do curso preparatório, Jorge Augusto Pupo se formou na Espanha, onde morava havia dez anos, e diz que estrutura do SUS é semelhante ao que viu no exterior

Brasileiros que se formaram no exterior também fazem parte da primeira leva de estrangeiros do programa Mais Médicos, do Ministério da Saúde. Nascido em São Paulo, Jorge Augusto Pupo dos Santos está entre os alunos do curso de formação na capital que tem por objetivo preparar os profissionais para a nova realidade. Santos foi fazer medicina na Espanha após decidir mudar de curso universitário. Morou dez anos no país e decidiu voltar para o Brasil ao ficar sabendo da iniciativa do governo federal. Especializado em medicina de emergência, Santos vai trabalhar na zona leste da capital, região com o maior déficit de profissionais. "Vim aqui para aprender, vai ser uma realidade diferente", disse. "Vi as imagens e os esquemas sobre a estrutura do SUS e não vi nada demais, é um esquema bem parecido com o de lá."

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Natália Peixoto / iG São Paulo
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Christian Cheles Uzuelli também é paulista e está voltando para o Brasil com o programa. Formado na Argentina e com mestrado em Portugal, Uzuelli vai trabalhar em Itaquaquecetuba, mas quer mudar a inscrição para ir para São Bernardo do Campo, onde mora a namorada. Ele diz que a falta de estrutura que poderá encontrar no caminho não será pior do que a que ele teve de lidar na Argentina. "A gente não está preocupado com a nacionalidade do médico ou a estrutura, mas com o bem do paciente", disse. "Eu conheço porque meus pais são atendidos no SUS e eu os acompanho, mas nunca trabalhei no sistema." Para Uzuelli, a diversidade de experiências pode ajudar a melhorar o atendimento. Questionado sobre as críticas da categoria médica aos profissionais estrangeiros, ele disse que será superada com trabalho. "Hostilidade eu sofri na Argentina e em Portugal, onde brasileiro é ladrão, brasileira é prostituta. Hostilidade sempre aparece, mas quando você mostra que tem capacidade, com o seu trabalho, ela desaparece."

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O curso de formação para os 682 médicos estrangeiros começou na segunda-feira e dura três semanas. Os profissionaiss terão aulas no período integral sobre as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), como detalhes da estrutura dos hospitais, as doenças mais comuns no País, e noções de português. Ao longo do curso, os profissionais passarão por avaliações para determinar a aptidão do selecionado. Se aprovado, ele receberá um CRM provisório de validade de três anos. Quem não passar precisará voltar para o País de origem.

O curso acontece em oito capitais simultaneamente. Em São Paulo, 47 profissionais que atuarão no Estado começaram o curso hoje, na Escola Municipal de Saúde: 11 deles atuarão na capital. Segundo o secretário de Saúde, José de Filippi Jr., os médicos chegam para suprir a carência Leste, Norte e Sul da capital. "Existe uma carência de 2,8 mil médicos na capital", disse o secretário, que informou que existem 1,5 mil vagas em aberto na cidade. "Nós temos diversas vagas de médicos por R$ 12, 13, 14 mil por 40 horas e nós não conseguimos preencher". Filippi Jr. disse que a marca do programa é a solidariedade e que a secretaria evitará judicializar o assunto. "Nós vamos tomar o maior cuidado, nós vamos colocar para a população profissionais que possam ajudar a saúde e não causar algum problema", afirmou.

Ernesto Sanchez é o único nascido em Cuba na primeira turma. Antes de se inscrever de forma individual no programa - fora do grupo do convênio com o governo cubano -, Sanchez morava nas Ilhas Canárias, território espanhol, de onde pretende trazer a mãe e a namorada. Formado em Cuba, com especialização em ortopedia na Espanha, o cubano, que vai trabalhar em Praia Grande, se diz animado em conhecer a cultura brasileira, e não se intimida nem com as possíveis diferenças na estrutura do SUS, nem com a hostilidade dos colegas brasileiros. "Eu sou médico da família e me parece que a situação aqui é igual à de lá", disse. "Os médicos estão para trabalhar, não para fazer política. Nós viemos ajudar os médicos e é isso que faremos."

O boliviano Alejandro Gomes também se formou em Cuba, mas veio ao Brasil para ficar junto da família, que mora em São Paulo. Antes de vir, estudou português por três meses com um professor particular na Bolívia e veio para aproveitar a oportunidade no País. "Tenho planos de ficar no Brasil três anos, e depois voltar para a Bolívia." Gomes disse que ainda não viu como funcionam os hospitais por aqui, mas pelo o que viu, não são muito diferentes dos cubanos.

Nas próximas semanas, os profissionais estrangeiros também farão visitas técnicas aos serviços de saúde e vão participar de simulações de consultas de casos complexos com enfoque especial na atenção básica de saúde. Além de São Paulo, o curso também está sendo ministrados em Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Fortaleza.

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