A arte da ofensa

Por Paulo Ghiraldelli , especial para o iG |

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Filósofo analisa a diferença de ofender e irritar

Há pessoas que nunca se ofendem. As razões são várias. José não se ofende porque tem fair play. Maria não se ofende porque é uma completa desavergonhada. João não se ofende porque tem o nariz empinado. Pedro não se ofende porque é calejado. E por aí vai! Em tempos como os nossos, em que a insensibilidade e a casca grossa imperam, é difícil ofender alguém de uma maneira aguda, capaz de efetivamente machucar. Ainda mais na alma, que nem sabemos se ainda existe.

Bem, eu disse ofender, não irritar. Irritar alguém é fácil e, aliás, corriqueiro. Todo mundo está altamente irritável.

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Militantes políticos, mesmo os de hoje, que são em geral pagos, se irritam facilmente. A direita se irrita com tudo. Um olhar gay penetrante desperta a homofobia do homossexual enrustido do rapaz de direita. A esquerda não é tão diferente. Para mexer com um esquerdista podemos proferir uma frase de Nabokov a respeito de Lênin: “ele impressionava as pessoas com sua mediocridade, assim como outros impressionam com seu talento”. Bem, nesse caso, é até possível não atingir direito o alvo, pois há o risco crescente do rapaz de esquerda nada saber sobre Nobokov.

Mas como escapar de só irritar e conseguir realmente ofender?

A filosofia tem uma parca participação na arte de ofender. “Ofensa” sequer é verbete de dicionário filosófico. A literatura é o campo par excellence da ofensa. Em A vida dos animais, J.M. Coetzee faz a palestrante Costello dizer algo que leva um ouvinte a pensar que ela estaria igualando a morte do gado, nos abatedouros, com a morte dos judeus no Holocausto. O ouvinte é um poeta judeu que, logo em seguida, lhe manda um bilhete dizendo o porquê ele não iria à segunda palestra programada. Aí sim, eu garanto, ocorreu a ofensa.

O segredo da produção da ferida, seguindo de perto o exemplo de Coetzee, é um só. A condição necessária (mas não suficiente) para fazer um indivíduo se sentir ofendido é torná-lo desvalorizado no que ele toma como a sua natureza, aquilo que efetivamente ele apresenta como sendo o que é ou o que gostaria de ser perante o mundo. Por isso certas piadas que não ofendem uns podem ofender outros, principalmente os pertencentes às minorias.

Ofender é uma arte.

Trata-se de uma arte cada vez mais difícil, porque estamos em uma época de crescente tédio, amortecimento, reificação e, enfim, banalização de tudo.

O expert em ofensa não é aquele que ofende, por exemplo, um tipo como o poeta judeu. O expert da ofensa é aquele que faz pouco e realmente provoca um corte profundo.

O manual da ofensa que tenho debaixo do meu colchão ensina duas práticas infalíveis, uma dirigida ao homem e outra à mulher. Para não irritar somente, mas realmente ofender, chame o homem de “corno”, quando ele é realmente um marido traído ou pensa ou teme isso, e chame a mulher de “gorda”, sendo ela gorda ou não. Não adianta aquele que recebe essa sua tacada dizer que não ficou ofendido, pois ficou. Não se trata de irritação, eu garanto.

O homem corno é tudo que ninguém vê como recuperável. Um “filho da puta” não é um soco no estômago para valer. Mas, “corno”, para muita gente, muita mesmo, é fatal. Porque o corno é visto como a degradação do homem. O homem pode ter a mãe na zona de meretrício e não ficar sentido, mas ao saber que alguém sabe que outro sai com a sua mulher, ele se descabela. Ele não sente forças para reagir. A ofensa é de tal ordem fatal que ele se deixa abater. O ofensor saberá que o derrotou. “Seu corno!”. Caso ele seja corno, poderá dizer que irá matar todo mundo, mas é mais fácil, mesmo, ele se matar. Ou pior, pode vociferar uma tarde toda enquanto compra uma arma e, ao final do dia, deixar a loja sem pistola alguma e desmoralizado perante si mesmo – ofendidíssimo. Aliás, Nabokov tem um conto assim, “O vingador” (não confunda com o conto “Vingança”, igualmente bom).

Com a mulher, a situação não precisa ser pública. Nem precisa ser verdadeira. Nada poderá fazer uma mulher sofrer mais do que dizer para ela “sua gorda”. Fale com a boca cheia. Caso seja escrito, diga sem qualquer outro adjetivo: “gorda”, e soletre, “ba-lo-fa”. Mulheres magras sofrerão, mulheres gordinhas terão dores no coração, mulheres realmente mais gordas, se tiverem passado dos trinta, tentarão o suicídio. Se fizer isso pela internet, aguarde um pouco, pois ela vai demorar mais para responder. Responderá com xingamentos. Mas também escreverá risadas “kkkk” ou “rsrsrsr”. Pode apostar, ela não está rindo e não está irritada, ela está ofendida (aliás, como todos que escrevem “kkk” ou coisa parecida para mostrar que não estão “nem aí”). Comemore sem medo, realmente a atingiu.

“Corno” e “gorda” ofendem porque dizem ao pé da orelha a palavra “incompetente”. É o equivalente de dizer “medíocre”. Ora aceitamos ser medíocre em muita coisa, mas não no que é a nossa raspa de tacho da identidade social, que é o ser homem e o ser mulher. Um corno é um incompetente, um medíocre como macho; uma gorda é uma incompetente, uma medíocre como fêmea. Não há como se livrar da condição de “macho” e “fêmea”, mesmo sendo gay. Ora, trata-se quase de uma natureza. Desse modo, o que se está dizendo é algo como “sua natureza é ruim”. Isso ofende. E assim faz com uma vantagem, não há o perigo de você adentrar pelo terreno da palestrante Costello, que é o de se envolver com a questão das minorias.

Agora, o segredo da ofensa desse tipo é que é um tiro necessariamente único. Não pode haver dois. Aliás, não tem de ser necessário dois, de modo algum! Trata-se da bala de prata. É uma única. Ela derruba o monstro que está do lado de lá com um tiro só. Ela tem de fazer isso.

*Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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